SOBRE

Este quer ser um espaço de divulgação de opiniões, troca de idéias, debates e reflexões sobre nossa sociedade contemporânea, com ênfase na subjetividade dos seres humanos que vivem nela, nela escrevem sua história e por ela são atravessados. Nós, humanos, estamos numa posição estranhamente paradoxal em relação à sociedade em que vivemos pois, ao mesmo tempo em que dela somos escravos, e não temos outra escolha senão obedecê-la e servi–la, também somos seus mestres, pois a fazemos da maneira como ela é alimentando-a com nossa cega escravidão. Como o homem contemporâneo vivencia esse paradoxo, qual sua responsabilidade nisso e até que ponto cada homem singular pode influenciar o curso dos acontecimentos, essas são algumas questões que esse espaço lança à reflexão.

POR QUE DIÓGENES HOJE

Este nome é uma referência a um filósofo grego da escola cínica, pouco conhecido e pouco comentado e na verdade um pouco maldito. Mas não é em razão de suas ideias filosóficas que escolhemos seu nome para título desse espaço de reflexão. São duas historietas contadas sobre ele (e sabe-se lá se são verdadeiras ou não) que nos inspiram como metáforas do que pretendemos.

Quão racional é o ser humano? 

A primeira é famosa. Trata-se do filósofo que vivia como um mendigo, morava num barril, tinha somente uma cuia onde coletava sua comida e um manto com o qual se cobria. Mas tinha algo nas mãos que o deixou muito famoso: uma lamparina que ele mantinha acesa à luz do dia e com a qual saía por Atenas a procura de um homem honesto. Vale dizer um homem que tivesse encontrado a sua verdadeira natureza. De nossa parte não é a verdadeira natureza do homem que procuramos, deixemos essa procura a cargo dos mitos. A busca de Diógenes nos serve de metáfora para uma outra, a da racionalidade.

O homem sempre se gabou de ser um ‘animal racional’. Refugiando-se na racionalidade considera-se um adulto civilizado muito distante dos animais, das bestas, dos selvagens, dos loucos e até mesmo das crianças. Um ser racional não se deixa levar por impulsos, pensa antes de agir, comporta-se com coerência, parcimônia, justiça, movido por elevados interesses. Essa imagem idealizada nunca correspondeu à realidade, basta olhar para a história ou para o que acontece hoje (e sempre) no mundo. O ser racional dirá: tudo é uma questão de evolução … Se ainda não chegamos lá, chegaremos um dia. É tudo uma questão de educação. O problema é que hoje sabemos que não é bem assim, que talvez não haja motivos para grande otimismo. Desde a alvorada do Século XX a ciência começou a questionar essa suposta ‘racionalidade’. A Psicanálise, por exemplo, começou a mostrar que o homem não é senhor em sua casa, mas é levado a pensar e agir por pensamentos que ele pensa, mas que ele próprio desconhece. Hoje as ciências e neurociências cognitivas estão cheias de pesquisas que mostram o quão limitada é a racionalidade humana e o quão pouco racional é nosso comportamento em nosso dia a dia. O problema é que nossa glória e ao mesmo tempo nossa desgraça, a consciência, adora imaginar-se a dona do pedaço. Faz uma igualdade simples: razão=consciência. E torna-se a fonte de nossas mais caras e sutis ilusões. A principal delas: a ilusão de acreditarmos piamente que somos o que de fato não somos: seres autônomos, livres, senhores de si. E, com pompa e circunstância caminhamos para o precipício julgando que estamos cada vez mais perto do gozo pleno dos prazeres terrestres.

O debate das luzes!

A segunda historieta que conta-se de Diógenes é menos conhecida e envolve Alexandre, o Grande. Ao encontrar Diógenes a perambular por Atenas, Alexandre, que o admirava, solicitou que ele pedisse o que quisesse. Recebeu como resposta a seguinte afirmação: “Não me tires o que não me podes dar”. Diógenes assim pedia que Alexandre saísse de sua frente, pois ele estava tapando seu sol. O Sol é o símbolo por excelência do saber, da verdade, da sabedoria. Platão utilizava-o como símbolo da iluminação do mundo ideal, o mundo ensolarado da verdade que está para além do mundo real. A luz continuou pelos séculos a simbolizar a verdade e, no século das luzes, a razão. “Não me tape o sol”, dito por um mendigo a um poderoso significa para nós: deixe-me pensar e conhecer a “verdade” por mim próprio; não me obrigue a pensar como você e a querer o que você quer. Eu posso pensar. O espírito do iluminismo, não é colocar a razão no centro do universo, mas torná-la o instrumento privilegiado de conhecimento. Como o telescópio nos permite conhecer os astros, a razão permite que nosso conhecimento vá além da consciência. É necessário, absolutamente necessário, separar razão e consciência. Essa aposta na razão como instrumento de conhecimento nos vem desde os gregos. Filiamo-nos a essa tradição que fomenta a discussão crítica nos interesses da procura pela verdade. É nesse debate que desejamos publicamente nos inserir.

 

Esse site pretende ser uma singela lamparina, com a qual vamos por aí, à luz do Sol, procurando alguma compreensão do que acontece com os homens nessa nossa sociedade contemporânea.

11 comentários sobre “SOBRE

  1. Vai enriquecer meus conhecimentos. Mesmo assim, quando eu estiver inspirado e com coragem, posto comentários.Em momentos de dor, paixão e outros, o homem é irracional, penso eu. Abraços Fábio.

  2. Oi Fábio, fico orgulhoso de conhecer as duas histórias. A primeira ouvi você contar num discurso de formatura a segunda eu ouvi ou li alhures, imemorial. Vamos adiante, alimentando esta lamparina o óleo de nosso humilde conhecimento para, quem sabe, alcançarmos a luminidade de Diógenes… abraços

    • Oi Fábio!. Nesse sábado chuvoso, bom para a gente conversar um pouquinho quero dizer que gostei muito do seu texto. Daria um bom debate. A frase “não tape o sol” ficou bem discutida, mas pensei também como ficaria qdo a gente mm não deixa , não consente que essa luz nos ilumine? Vc comentou que a psicanálisse nos mostra q não somos senhores em nossa pp casa e sobre os pensamentos que nós mms desconhecemos. Isso diz da importância do caminho apontado por ela: o trabalho de análise, talvez única possibilidade de saber d’isso.
      Um grande abraço!

  3. Fabio, apesar do tempo, retomei sua pagina , e o ensino em seus escritos continuam sempre com o frescor e enlevam exigindo a reflexão…sempre mais uma vez.

Deixar mensagem para Eugenio Cancelar resposta