Sobre a (de)formação em psicanálise hoje V

Vamos começar tratando dos rumos históricos da psicanálise e de como eles acabaram colaborando com a tomada da psicanálise (ou ao menos grande parte dela) pelo espírito de nosso tempo. Para isso passearemos brevemente pela história das instituições analíticas, o que acabará se demostrando muito instrutivo.

 Desde seu afastamento de Breuer em 1894 até 1902, quando alguns jovens médicos aproximaram-se para aprender psicanálise, Freud esteve sozinho. Estes foram os anos de criação da psicanálise, do estabelecimento de seus conceitos fundamentais e de sua implantação clínica. Foram os anos do “esplêndido isolamento”, termo que Freud utiliza na História do Movimento Psicanalítico para designar esse período de solidão intelectual, aliviada parcialmente pela correspondência e encontros ocasionais com seu amigo Fliess, rinologista de Berlim. Se considerarmos a audácia de Freud, que forjava uma teoria que significou uma quebra de paradigmas teóricos e ao mesmo tempo experimentava uma inovação clínica sem precedentes, podemos imaginar a densidade de sua experiência subjetiva e emocional nesse momento. Como diz Jones: “Talvez o principal resultado de suas dolorosas experiências nesses dez anos tenha sido o de que neles Freud desenvolveu ou consolidou uma atitude mental que permaneceria como uma de suas características mais distintivas: a independência em relação à opinião de outras pessoas. Aprendera a estar só no mundo e, depois de rompida a amizade com Fliess, realmente só.” (pag 22, as referências, salvo observação, são da edição brasileira de 1989 da biografia de Freud escrita por Ernest Jones)

Em 1901 um médico que havia acompanhado as conferências que Freud pronunciara na Universidade sobre a psicologia das neuroses na virada do século, Max Kahane, mencionou o nome de Freud – como um neurologista que concebera um método novo para o tratamento das neuroses – para Wilhelm Stekel, que sofria de um incômodo problema neurótico. Stekel recorreu à ajuda de Freud e essa aproximação resultou, no outono de 1902, num convite feito por Freud (por sugestão de Stekel) aos quatro primeiros médicos que haviam aproximado-se dele (Adler, Kahane, Reitler e Stekel), de reunirem-se em sua residência para discutirem sua obra. Assim, todas as quartas-feiras à noite, na sala de espera de Freud, reunia-se a “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”. O resumo das discussões que ocorriam ali era elaborado por Stekel e publicado semanalmente na edição dominical do Neues Wiener Tagblatt. Na primavera de 1908 havia 22 membros e em 15 de abril daquele ano tornou-se a Sociedade Psicanalítica de Viena. 

 Embora o “esplêndido isolamento” tivesse passado, até 1906 Freud continuava isolado em Viena e circundado por colegas mormente judeus. Embora comentários, estudos e publicações sobre a psicanálise começassem a aparecer na Inglaterra e nos EUA, os únicos fatos fora de Viena de que Freud tomou conhecimento foram as referências negativas feitas em periódicos neurológicos e psicológicos alemães. Mas boas notícias começaram a aparecer em 1904 vindas de Zurique. No outono desse ano Freud foi informado por Eugen Bleuler, diretor do Hospital de Doenças Mentais Burghölzli, de que ele e seus colegas estavam estudando intensamente a psicanálise e aplicando-a em diversos campos, inspirados principalmente por seu principal assistente, C. G. Jung. Este já estava levando adiante seus famosos experimentos com associações de ideias. Em 1906 publicou um livro sobre o assunto (Diagnostiche Assoziationsstudien) e no ano seguinte um livro que fez história na psiquiatria, A psicologia de demência precoce, no qual estende várias ideias de Freud ao campo das psicoses. Freud estava tão ansioso para conhecê-los que comprou o primeiro deles antes mesmo que o exemplar que Jung lhe enviara houvesse chegado. Em abril de 1906 Freud e Jung iniciaram uma correspondência que durou quase sete anos, até o rompimento das relações. 

Em janeiro de 1907 chegou em Viena o primeiro visitante vindo de Zurique que trabalhava sob a orientação de Jung. Tratava-se de Max Eitingon, um berlinense que completava seus estudos médicos em Zurique, e que veio a tornar-se um dos amigos mais próximos de Freud e um dos nomes proeminentes da Associação Psicanalítica. Segundo Jones, “Passou três ou quatro noites com Freud, dedicadas a trabalho analítico pessoal durante longos passeios pela cidade. Esta era a primeira análise didática.” (pag. 46)

No dia 27 de fevereiro de 1907, um domingo, às dez horas da manhã aconteceu a primeira visita de Jung a Freud, na qual, conta-se, conversaram por 13 horas seguidas. Em dois de março Jung compareceu à reunião do grupo das quartas-feiras e a sequência mostra uma proximidade crescente entre ambos e uma importância cada vez maior de Jung para o movimento psicanalítico. Sabemos que houve uma atração excepcional entre ambos – a admiração de Jung por Freud e seu entusiasmo com a sua obra era irrestrita e Freud via nele seu sucessor, chamando-o de “filho e herdeiro”. Mas é fundamental sublinhar a dimensão política da entrada de Jung na psicanálise para compreender porque, até 1914, e apesar de todos os sinais de seu afastamento da psicanálise, Freud o manteve na direção da sociedade. 

Freud evidentemente ficou altamente entusiasmado com a constatação de que suas idéias, tão desprezadas e incompreendidas, estavam encontrando tamanha aceitação numa famosa clínica psiquiátrica no exterior. Era a oportunidade de estabelecer para a psicanálise um alcance e uma base mais ampla do que a que podia ser dada pelos judeus vienenses. Esse fato combinado com a impressão altamente favorável que teve da personalidade de Jung foram decisivos para a confiança depositada por ele em Jung. Assim foi inteiramente natural que, quando a Associação Psicanalítica Internacional foi fundada em março de 1910 no Congresso realizado em Nuremberg, Freud designasse Jung para presidente, transferindo a sede da sociedade de Viena para Zurique, sob os protestos da ala vienense, liderada por Adler e Stekel. A respeito desse fato, Jones conta: “Tomando conhecimento de que vários deles estavam fazendo um encontro de protesto no quarto de hotel de Stekel, Freud foi ao seu encontro e fez um ardente apelo à adesão deles.” (pag. 82)

Ao mesmo tempo que nasce a Associação Psicanalítica Internacional, nasce seu primeiro “conflito” institucional. Conta Jones que Jung referia-se aos vienenses que circundavam Freud como “uma mixórnia de artistas, decadentes e medíocres”. E os vienenses tampouco tinham os suíços em alta conta. A antipatia entre eles era recíproca. Felizmente outros de fora começaram a aproximar-se de Freud e efetivamente levaram adiante a empreitada psicanalítica: Jones, Ferenczi, Abraham, além de Eitingon, de Otto Rank e dos americanos. A psicanálise começava a espalhar-se pelo mundo, conforme atesta a presença de Putnam no talvez mais bem sucedido congresso da Associação, em Weimar em setembro de 1911. Nesse momento a Associação Internacional tinha 106 membros. 

Paradoxalmente ao sucesso desse crescente alcance internacional da psicanálise a Sociedade de Viena sofria com ciúmes e dissensões. Adler afastou-se em julho e no ano seguinte Stekel, fatos que causaram muitos dissabores a Freud. Dos colegas de primeiros tempos restara apenas Rank. Mas não só em Viena as coisas não andavam boas. Em Zurique a psicanálise estava sendo furiosamente atacada pelos jornais. O pastor Pfister, grande amigo e colaborador de Freud, foi chamado a prestar contas a seus superiores. As clínicas particulares esvaziavam. “Freud sempre considerou que essa campanha de vituperação foi uma das razões para a mudança da disposição que ocorreu, logo depois, entre seus adeptos suíços. É sempre difícil para um suíço ir contra seus compatriotas.” (pag. 103) Isso ocorreu no início de 1912 e dois anos depois todos os analistas suíços (com duas ou três exceções) renunciaram a seus “erros” e abandonaram as teorias sexuais de Freud.

A oposição dos suíços às teorias sexuais freudianas tem nome próprio: Carl Gustav Jung. Em 1909 Jung anunciou sua intenção de mergulhar em estudos de mitologia com a intenção de mostrar que sua chave poderia ser encontrada na universalidade do tabu do incesto. No entanto o resultado foi o contrário. No ensaio de Jung que apareceu em 1911 sobre “Símbolos da libido”, a ideia de incesto não deveria ser tomada literalmente, mas como símbolo de ideias mais elevadas e a libido perdia sua característica sexual para designar amplamente uma tensão geral. O corpo era substituído pelo inefável. Jung afastava-se da psicanálise freudiana, mas permanecia na presidência da Associação Psicanalítica Internacional. Em setembro de 1912 Jung foi a Nova Iorque dar uma série de conferências e voltou gabando-se para Freud sobre como ele fora bem sucedido em tornar a psicanálise mais aceitável, mediante a exclusão de temas sexuais. “Ao que Freud respondeu secamente que não via nada de arguto nisso; tudo o que se tinha a fazer era excluir mais coisas e ela se tornaria ainda mais aceitável.” (pág. 153)

A crescente divergência entre os pontos de vistas teóricos entre Jung e Freud era tão fundamental que os mais chegados a Freud começaram a se indagar o que havia em comum no trabalho científico dos dois grupos, o vienense e o suíço. Tudo isso criava uma situação bastante incômoda, pois Jung ainda era presidente da Associação Internacional e editor do Jahrbuch. Esse foi um dos principais motivos que levou à criação do comitê, do qual falaremos no próximo post. 

A situação estava tão tensa que era grande a incerteza que pairava sobre o que ocorreria no congresso de 1913 em Munique e se a Associação Internacional sobreviveria à divisão. Em 8 de maio de 1913 Freud escreveu a Ferenczi: “É bem possível que desta vez consigam realmente sepultar-nos, depois de tantos hinos fúnebres entoados sobre nós em vão. Isso mudará muito nosso destino pessoal, mas nada o da ciência. Temos a verdade; estou tão certo disso quanto há quinze anos.” (pág. 157)

O Congresso realizou-se, Jung foi reeleito presidente com 2/5 de abstenção dos presentes, e a Associação sobreviveu. Evidentemente a situação continuou tensa. Em outubro desse ano Jung renunciou à editoria do Jahrbuch e anunciou que não era mais possível qualquer colaboração com Freud. Mas só afastou-se do cargo de presidente em abril de 1914. Pouco tempo depois anunciou sua saída da Associação.

A dissensão de Jung foi muito mais profunda e séria que a de Adler. Mas isso não impediu que o mundo acadêmico proclamasse que havia três escolas de psicanálise, que não chegavam a um acordo entre si, logo não havia nenhuma necessidade de levar esse assunto a sério. Isso levou Freud a escrever a História do movimento psicanalítico onde afirmou: “Embora de muito tempo para cá eu tenha deixado de ser o único psicanalista existente, acho justo continuar afirmado que ainda hoje ninguém pode saber melhor do que eu o que é a psicanálise, em que ela difere de outras formas de investigação da vida mental, o que deve precisamente ser denominado de psicanálise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer.” (pag. 16)

Esse texto foi a resposta teórica de Freud a Adler e a Jung, pois ali discute longamente as teorias de ambos e suas divergências com a psicanálise freudiana. Mas, tendo em conta a história descrita acima, entende-se por que Freud escreveu a respeito de Jung: “Eu não tinha, na ocasião, a menor idéia de que apesar de todas essas vantagens a escolha era a mais infeliz possível, que eu havia escolhido uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade da outra, mais incapaz ainda de exercê-la ele próprio, e cujas energias se voltavam inteiramente para a promoção de seus próprios interesses.” (História do… pág. 56)

Freud pensava que a razão fundamental dessas dissensões podia ser catalogada dentro do tópico: resistência à psicanálise. “Sabia muito bem, naturalmente, que qualquer pessoa, ao primeiro contato com as realidades desagradáveis da análise, pode reagir fugindo; eu próprio sempre havia sustentado que na compreensão da análise cada indivíduo é limitado por suas próprias repressões … de modo que não pode ir além de um certo ponto em sua relação com a análise. Mas eu não esperava que alguém que houvesse alcançado certa profundidade na compreensão da análise pudesse renunciar a essa compreensão e perdê-la. … Tive que aprender que a mesmíssima coisa pode acontecer tanto com psicanalistas como com pacientes em análise.” (História do… pág. 62)

Ou seja, desde a perspectiva freudiana essas polêmicas teóricas e institucionais conduzem o foco para uma questão central: a formação do analista, especialmente para a análise do analista, que acabou recebendo o nome de análise didática. No próximo post veremos as consequência dessas dissidências.

6 comentários sobre “Sobre a (de)formação em psicanálise hoje V

  1. Caro Fábio. Acabei de ler todos os seus posts sobre a (de) formação na psicanálise hoje, Parabéns pela clareza e pelo conteúdo. Concordo plenamente com você no que tange a necessidade de reafirmarmos a condição ética da formação dos analistas que está se dúvida sendo atropelada por estas ofertas mercadológicas constantes na internet. Devemos nos preocupar muito com isto e revalorizar a importância e o investimento necessário à boa formação. Grande abraço. Luiz Renato M. Braga

  2. Li a totalidade do que escreveu aqui. Muito oportuno. Penso que atualmente as questões relativas à formação se tornaram mais graves. A enxurrada de livres, e outras formas on line, trazem um discurso agradável sem dúvida, mas pronto. A leitura e mais ainda ás questões que norteiam o estudo se tornam dispensáveis. Naturalmente isso propicia as transmissões na linguagem do lacanes mais obscuro. Geselda baratto

    • Sim Geselda, concordo plenamente com você. Vou tratar mais para frente desse aspecto específico da “transmissão online” via lives, redes sociais, etc… e dos efeitos preocupantes que isso produz na formação.

  3. Aguardo com expectativa. Não apenas livres mas cursos com promessas de formação tipo faculdades á distância, e com profissionais de renome. Aqui em Chapecó temos ainda a colonização por analistas que eu respeitava

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