O MERCADO É MEU PASTOR. NADA ME FALTARÁ

Immanuel Kant nasceu em 22 de abril de 1729 em Königsberg na Prússia e tornou-se professor catedrático da Universidade dessa cidade, não casou e nem teve filhos. Faleceu a 12 de fevereiro de 1804 sem jamais ter saído da cidade. Sua vida, no dizer de um de seus biógrafos, passou como o mais regular dos verbos regulares. Todas as suas atividades tinham uma hora determinada. Quando Kant, num casaco cinzento, bengala na mão, surgia à porta de sua casa e dirigia-se para uma pequena avenida de tílias, que ainda é chamada de “Passeio do Filósofo”, os vizinhos sabiam que eram exatamente três e meia. Esse homem, em 1781, publicou uma das obras filosóficas mais importantes de todos os tempos, a Crítica da Razão Pura, que surpreendeu e perturbou o mundo filosófico. E, em 1788, outra obra de referência para toda e qualquer discussão sobre ética e moral: a Crítica da Razão Prática.

Johannes Brahms (1833-1897), que deu ao mundo algumas das mais belas páginas musicais, na opinião de alguns críticos, é um modelo do que um compositor maduro deve ser. Vivendo em pleno romantismo, mas aficcionado pelo rigor da forma clássica, conseguiu reestabelecer a sinfonia clássica em tempos em que Wagner proclamava que ela estava contida no drama musical. De fato tornou-se um supremo blend dos dois. Como Kant, Brahms era um homem extremamente metódico e devotado a rotinas. Acordava ao amanhecer, tomava uma caneca de café bem forte e fumava seu charuto, igualmente forte, tocava uma fuga de Bach ou um exercício de contraponto no piano para por a máquina em movimento e compunha todo o resto da manhã. Em seguida ia sempre à mesma taverna em Viena (The red hedgehog em português o hedgehog vermelho. Hedgehog parece um ouriço ou um porco espinho, é o Sonic), recusando-se a comer ou beber em qualquer outro lugar.

Felizmente Kant viveu há 300 anos atrás e Brahms há mais de 200 – numa época em que pensar era uma atividade das mais nobres – e puderam completar suas obras usufruindo de toda a esquisitice que lhes era necessária para trabalhar e criar. Nos dias de hoje provavelmente essas esquisitices chamariam a atenção dos vizinhos que, em vez de acertar os relógios, chamariam o psiquiatra. O diagnóstico de TOC certamente seria atribuído e um novo ritual passaria a fazer parte da rotina diária: a hora da medicação.

“Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenha a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.” Esse desabafo é de ninguém menos que Allen Frances – o psiquiatra americano que dirigiu o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM) até sua quarta edição  – em entrevista para o jornal espanhol El País, quando do lançamento de seu livro sobre o assunto Saving Normal, uma espécie de reposta à edição de número 5 desse manual que ampliou enormemente a lista de doenças mentais. (Essa entrevista pode ser acessada em: http://psibr.com.br/noticias/ex-coordenador-do-dsm-sobre-a-biblia-da-psiquiatria-transformamos-problemas-cotidianos-em-transtornos-mentais)

Os que trabalham em saúde mental sabem do que ele está falando e costumam ver essa situação no cotidiano de sua atividade. O DSM, que visava a ser apenas um documento de referência para o diagnóstico e tratamento das doenças mentais, tornou-se uma espécie de bíblia da saúde mental tendo difundido síndromes que se tornaram populares e, em função da quantidade de diagnósticos imprecisos, aumentam assustadoramente as estatísticas das depressões, bipolaridades, déficits de atenção e hiperatividade, e assim por diante. Ninguém mais fica de luto por um ser querido que morreu ou pela perda de um amor, está deprimido e deve ser medicado.  Ninguém mais tem as habituais oscilações de humor que a vida nos impõe, é bipolar e deve ser medicado. As crianças não tem mais dificuldades normais de aprendizagem ou professores incompetentes, sofrem de déficit de atenção e hiperatividade e devem ser medicadas.

Allen Frances chama essa tendência de medicalização da vida e não tem pudores em indicar seus mentores. “Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.”

Mas, cuidado. Não vamos demonizar a indústria farmacêutica. Pois ela não está fazendo nada além de jogar o jogo do mercado. Se olharmos ao redor, veremos que essa medicalização da vida vai muito mais longe e está gradativamente tomando conta de toda a vida. Você vai comer? Não sem antes consultar os experts que vão te dizer o que é saudável, o que está cheio de gordura, quantas toxinas tem naquela salchicha, quais os malefícios do gluten, o potencial tóxico da lactose, o que engorda, o que emagrece, o que faz bem para o fígado, para os intestinos, para o coração, para a pele, … socorro!!!! Eu só queria comer alguma coisa!!!! Você vai transar? Não esqueça de consultar os especialistas sobre como excitar o parceiro, como não passar dos limites, como dar prazer ao outro, como ser aquele homem, ou aquela mulher, na cama … Você vai ter filhos? Os experts vão te ensinar a cuidar de seu bebê, a entender todos os seus diferentes tipos de choro, o que fazer quando ele chorar de cólica, como ser uma mãe não neurotizante, como ser um pai participativo …. Vai decorar a casa? Ah, nesse caso os experts vão produzir o melhor projeto para sua sala, para sua cozinha, para seu quarto, ditando cores, móveis, tendências, conceitos!

Em todos os jornais, em todas as revistas, em todas as emissoras de TV, por toda a internet estão os experts de prontidão para nos ensinar como viver. Assim a medicalização da vida é um caso particular de uma tendência muito mais abrangente; vou chamá-la de normatização mercadológica da vida. O que comer, o que desejar, o que querer, o que evitar, como se relacionar, como cuidar do corpo, como amar, e assim por diante, tudo isso hoje está nas mãos dos experts, cujos ensinamentos nos são transmitidos pelos canais de comunicação como se fossem a mais absoluta verdade e a mais recente conquista da ciência. O problema é que, de ciência há muito pouco nessas informações. O fato é que uma observação científica, limitada a um determinado campo de estudos e normalmente aplicável a uma amostragem restrita, muitas vezes dependente de testes e experimentações, é elevada pela mídia ao patamar de verdade última. E vendida pelo mercado como verdade última. E comprada avidamente pelas pessoas como verdade última.

Lembro que, quando eu dava aulas na faculdade de Psicologia, apelidei de síndrome da segunda feira o fenômeno que acometia os alunos todas as segundas feiras, quando inevitavelmente perguntavam: “o Sr. viu a reportagem sobre o cérebro no Fantástico ontem?” Evidentemente que nós, pobres professores de Psicologia, lutando para que nossos alunos se decidissem a ler os secos manuais de nossa disciplina, deveríamos parecer a eles peças de museu diante do charme apelativo das reportagens do Fantástico sobre o cérebro. Mas eu me consolava dizendo a eles que todo o esforço de estar ali nos bancos de escola era supérfluo, pois bastava ler as reportagens de uma revista de grande circulação para saber tudo o que se necessitava sobre a ciência da Psicologia. Em uma das capas dessa revista fomos informados que a ciência desvendara o mistério da feminilidade !!!!!!

O fato é que, se o mercado ocupa avidamente esse lugar de ditar normas de comportamento, é porque as pessoas necessitam disso, de um Guide Michelin (o famoso precursor e equivalente francês dos guias de viagem, como o Guia Quatro Rodas) para trafegar pela existência. A vida é muito complexa e incerta, o que somos e queremos é sempre um enigma, o que faz as pessoas buscarem direções, regras e normas. Quem fazia esse papel era a cultura. Os costumes e ritos culturais normatizavam as relações de seus membros com as coisas e com os outros. Mas a globalização está fazendo com que as culturas desapareçam, e com elas seus costumes e ritos. Não são mais as tradições culturais que norteiam a vida das famílias, desde o pão que se come, da roupa se usa, até o respeito e a atenção que se deve dar aos outros. As pessoas que ainda agem desta forma não apenas tem que tolerar a sensação subjetiva de sentir-se meio esquisitas, como suportar o olhar muitas vezes condenatório dos outros pela audácia de exibir uma incômoda diferença. Um exemplo desse ocaso cultural é o lugar dos idosos na sociedade. De membros do respeitável conselho de anciões a quem os mais novos procuravam sempre que necessitavam de conselhos passaram ser vistos como objetos privilegiados dos cuidados do mercado: tornaram-se alvos dos imperativos da  ‘qualidade de vida’ na terceira idade. Tem que ter ‘qualidade de vida’ na terceira idade.

‘Qualidade de vida’, ou ‘bem estar’ é o nome atual do termo um tanto desgastado ‘felicidade’. É isso que todo mundo quer, claro. Como conseguir? Esse é a árdua questão. Mas é exatamente esse segredo que o mercado afirma que possui. O Guide Michelin orientado pelo conhecimento “científico” mais atual, que é o conhecimento mais conhecimento de todos os conhecimentos. Com esse pressuposto fica fácil ditar as normas de como ser, do que desejar e de como se comportar, pois todos acabam jogando seu jogo, vendendo ou comprando, cada um ocupando seu lugar nesse imenso rebanho de consumidores. Todos conduzidos pela mão invisível de seu pastor.

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