POSTO(U) ME(O)

Dizem que o mundo evoluiu. Pode ser … depende do ponto de vista. Considerando a sofisticação cada vez maior da tecnologia como evolução, aparentemente não haveria dúvidas, como evoluímos! Isso é discutível, mas não vou discutir isso agora. Mas há um aspecto do mundo que não evoluiu nem um pouquinho. A cabeça do homem continua como sempre foi, pelo menos desde que temos registro do que se passa dentro dela. Se o mundo no qual vivemos mudou de tal maneira que até arriscamos dizer que ele evoluiu, o mundo que experimentamos dentro de nós continua no mesmo lugar. Mudar as coisas fora não quer dizer que elas mudem dentro. O ferro se submete facilmente aos caprichos humanos, deixa-se forjar. As ideias … bem, algumas são maleáveis e mutáveis. Mas tem algumas que não mudam de jeito nenhum. E destas as piores são as mais íntimas, exatamente aquelas que me dizem respeito, que me definem.

Por volta do ano 8 o poeta latino Ovídio deu formato literário a uma série de mitos gregos que já vinham de longa data. Entre eles está o mito de Narciso. Quando de seu nascimento seus pais consultaram o oráculo Tirésias  para saber de seu futuro. A resposta foi que ele teria vida longa desde que não visse seu próprio rosto. Obviamente seus pais providenciaram para que isso não acontecesse. Narciso cresceu belo, de uma beleza incomparável que fez com que ele se julgasse semelhante aos deuses. Ele era a paixão de muitas, humanas e ninfas, mas não se interessava por nenhuma, tão entorpecido e embriagado que estava com a própria beleza. Há um detalhe muito importante aqui. Como ele não conhecia sua própria imagem, essa beleza era puramente imaginária, construída a partir dos reflexos que lhe vinham dos outros. Uma dessas apaixonadas era a ninfa Eco, que, amargurada com a indiferença de Narciso, afastou-se para um lugar deserto onde definhou até que dela só restassem os gemidos. Em algumas versões ela transformou-se em pedra, condenada a repetir a última palavra do que os outros dizem. A deusa Nêmesis, a deusa que arruina os orgulhosos, apiedando-se das apaixonadas, decidiu fazer com que Narciso provasse de seu próprio veneno: fazê-lo apaixonar-se por um objeto que nunca correspondesse a sua paixão. Foi então que depois de uma caçada fê-lo debruçar-se em uma fonte para beber água. Ao ver aquela imagem de beleza sem par Narciso apaixonou-se perdidamente e não conseguiu mais sair dali, tentando alcançar a imagem que se dissipava ao ser tocada. E assim morreu, fascinado pela sua própria imagem, realizando a profecia de Tirésias.

É importante observar nesse mito que Narciso não sabia que a imagem que ele via no lago era sua própria face. Embora nunca tenha se apaixonado por ninguém, apaixonou-se instantaneamente por sua própria imagem. Faz sentido isso? O que o mito quer dizer com essa figura que se apaixona pela própria imagem sem saber que é sua própria imagem, consumindo-se nessa paixão? Narciso, em grego, vem do termo narke – entorpecido – donde vem também o termo narcótico.

Consideremos agora o ano 2014. Se a deusa Nêmesis estivesse nesse momento procurando lagos onde os narcisos contemporâneos pudessem ver seus próprios reflexos, certamente iria encontrá-los nos lugares menos óbvios, não nas planícies ou planaltos, mas no coração do mundo urbano. Também a superfície desses espelhos não está mais na horizontal, mas usualmente na vertical (embora hoje já possam estar em qualquer posição). São as telas, telinhas e telonas. As primeiras a invadirem os lares foram as da televisão. No começo era uma para todos, em preto e branco. Todos se reuniam em torno dela. Era uma para muitos. Muitas vezes era necessário negociar o que ver, ceder um dia, ganhar no outro. Mas ainda havia diálogo, se ria junto, se chorava junto. Gradativamente as telas foram ficando mais sofisticadas, coloridas, pequenas, portáteis. E cada um foi levando a sua para seu canto. Que beleza, cada um podia ver o que quisesse, na hora que quisesse, chorar se quisesse, rir se quisesse. E as telas foram se sofisticando mais e mais e cada um pode agora levar sua tela dentro do bolso para onde for. E com ela levar o seu canto para qualquer canto. As telas tem esse poder mágico de criar uma bolha em torno de si onde podemos dizer: enfim só!

Temos ai dois elementos fundamentais do mito de Narciso: a lagoa onde estão as imagens e o fascínio de quem as contempla, seduzido, capturado, isolado do mundo. Mas para ser fiel ao mito é preciso que essa tela seja um espelho, embora mantendo as imagens que lá desfilam. Assim conseguiríamos o efeito Narciso: contemplar a própria imagem sem reconhecê-la como tal. Como uma tela poderia se transformar em um espelho?

Tem muitos homens e mulheres por ai que andam mal de vida amorosa. Alguns enfrentam sérios problemas e são profundamente infelizes no casamento. Seu dia é conflituoso, penoso, angustiante. Mas à noite, diante da telinha, eles e elas se transformam. Suas penas viram louros, sua resignação, grandeza, a vítima transforma-se em herói. Aquele homem espezinhado desaparece. Em seu lugar surge o homem ideal que sabe escutar as mulheres, compreender seus problemas, dizer as palavras certas na hora certa, o príncipe salvador que todas sonham encontrar. Ou aquelas mulheres que se sentem oprimidas pelo casamento, condenadas ao trabalho doméstico. Transformam-se em grandes intelectuais, em fascinantes sedutoras, em mães compreensivas, em mulheres acolhedoras e tolerantes. Ou aqueles jovens que enfrentam dificuldades sexuais, inseguros com seus próprios recursos e com sua própria potência, que encontram nas salas de chat a oportunidade de liberar seus impulsos sexuais, encontrar ‘parceiras ou parceiros’ com quem podem se satisfazer repetidas vezes sem percalços, mostrando a imagem que corresponde a seu ideal. Na telinha é possível transformar um pênis regular num grande falo ou reduzir para medidas de modelo um corpo gordo. Mágicas do mundo virtual.

O problema é no trabalho? Não tem problema, tem os games. Lá posso massacrar o chefe, eliminar hordas de colegas impertinentes, salvar princesas oprimidas ou tornar-me o magnata das finanças. O pequeno eu real espezinhado transmutado no grande eu virtual herói. Lembrete: jogos viciam como drogas.

As redes sociais oferecem um instrumento extraordinário para ficar longe dos outros e bem perto de si próprio. Estou viajando, fotografo e posto-me. Pensei uma besteira qualquer, posto-me. Vibrei com o lance da partida, posto-me. Estou de bode domingo de tarde, posto-me. Estou na balada, posto-me. Vou num restaurante da moda, posto-me. Estou num evento social, posto-me. Estou com o abdome sarado, posto-me. Tirei uma foto nova da cachorrinha, posto-me. Vamos falar sério, é para os outros que essas idiossincrasias são postadas? Mesmo que reajam a elas, com likes, nisso não há nenhum laço social, a não ser o aplauso ao espetáculo que o eu está dando. É ele que está em cena, é ele quem contemplamos nesse espelho mágico.

O outro que está na telinha, o outro que responde like, não é o outro mesmo, é o espelho do próprio eu, não do eu real, mas do eu ideal, a imagem que amamos acima de tudo. É a estonteante beleza imaginária do eu ideal que contemplamos na imagem do outro. Exatamente como Narciso. A virtude do mito é escancarar a verdade dessa contemplação. Narciso não deixa dúvida de que o que ele ama nessa imagem é a si próprio.

Mas há outra verdade escancarada nesse mito. É o caráter mortífero dessa contemplação. Além do desfecho do mito, o afogamento de Narciso, há o estado de narcose apontado pela origem do nome. Essa narcose provocada pela imersão na virtualidade não está distante da narcose provocada pelas substâncias químicas. O fato é que o corpo entra em estado de torpor, como se de alguma maneira estivesse anestesiado do mundo e das mazelas da vida. O mundo está reduzido à bolha criada em torno da telinha que, como a casca de um ovo, isola seu interior completamente do mundo exterior. E o sujeito encontra-se mergulhado nesse ovo, morto para a vida que acontece fora da casca. Só resta a vida que se passa no espelho do mundo virtual. E ai o sujeito esta só, fascinado pela própria imagem, apaixonado por seu eu imaginário. Narciso contemporâneo. Póstumo.

4 comentários sobre “POSTO(U) ME(O)

  1. Belo texto meu caro amigo, Dr Fábio Thá. Bom para pensar.
    Há o que não muda e o que não pára de mudar. O que não muda é a insistência pulsional de retorno à completude perdida, causa do desamparo existencial – a pulsão é regressiva. É próprio da pulsão, que na falta do objeto nunca existente e para sempre perdido (objeto a de Lacan) inventemos, criemos, mais e mais objetos que, não sendo jamais o suposto objeto perdido, os descartemos (é um dos grandes problemas da humanidade: não sabemos o que fazer com nossos lixos consequentes do que chamamos EVOLUÇÃO!) E assim vamos descartando tudo, objetos e pessoas (narciso acha feio tudo o que não é espelho, disse o poeta Caetano Veloso) até que entendemos que não há nada no espelho, trata-se apenas um lugar vazio.
    Jorge Sesarino

  2. Bom Dia compadre e amigo! Belíssima ilustração de nossa sociedade atual através do mito de Narciso.
    René Descartes afirmou que “À exceção de nossos pensamentos não há nada de tão absoluto em nosso poder.”
    A mecânica da sociedade atual nos envolve em uma engrenagem além do controle individual para obrigatoriamente ser diante do coletivo. Essa engrenagem domina o ser fazendo-o crer que pode ser único, um maravilhoso Narciso no meio da multidão através da exposição de seu pensamento sobre o “ver a si” e , se não se vê perfeito pode se fazer perfeito, e estar de acordo com o que a engrenagem determina.
    Vou me valer da frase do comentário do sr. Jorge Sesarino:” até que entendemos que não há nada no espelho…

  3. Caro Amigo Fábio, Parabéns pela idéia e iniciativa do Blog e pela sua contribuição muita rica nos textos e questionamentos. Precisamos melhorar a qualidade dos nossos Pensamentos, Palavras e Ações para que possamos Evoluir nos desvinculando deste Universo Virtual, que nos afasta do Sol, da Luz, da Velocidade, da Realidade e das Pessoas Verdadeiras, pois estas ferramentas estão sempre estrategicamente colocadas como redes ou armadilhas, para que possamos nos espelhar muito mais no Outro do que em Nós mesmos, afastando-nos constantemente do nosso Ser e da nossa Individualidade. Salve o Diogenes que ainda vive hoje e sempre nos questionando….

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