1 – FREUD NEUROLOGISTA
Lá pelo ano de 1885 Freud deparou-se com o problema mente/corpo em sua prática profissional quando sua atenção foi despertada pelas afasias e pelas neuroses. Foi o trabalho teórico e clínico sobre esses duas condições que o levaram, entre 1895 e 1900 a estabelecer a psicanálise. Mas Freud já vinha estudando o lado físico da equação mente/corpo desde 1876, quando iniciou sua carreira no laboratório de fisiologia de Ernst Brüke. Ali desenvolveu pesquisas sobre as glândulas sexuais das enguias e estudou o problema das finas estruturas da medula espinhal dos peixes. Acompanha seu curso sobre a fisiologia da voz e da linguagem. Foi gradualmente subindo pela medula espinhal e tronco cerebral até o córtex e tornou-se tão atuante no Instituto de Anatomia Cerebral quanto o fora no de fisiologia. Em 1879 freqüenta os cursos de psiquiatria de Theodor Meynert. Por razões financeiras – segundo ele próprio conta em seu Estudo Autobiográfico (1925[1924]) – começou a estudar as doenças nervosas. Em 1882 abandonou a carreira teórica e ingressou no Hospital Geral como assistente clínico e ingressa no serviço de psiquiatria de Meynert. A neurologia era um disciplina ainda jovem, que apoiava-se no único método científico disponível, o método da correlação anátomo-clínica. Descobria-se que o cérebro, como todos os outros órgãos, estava sujeito a suas próprias patologias, relativas a seus tecidos peculiares e que lesões em diferentes partes do cérebro produziam diferentes sintomas clínicos. Assim o método anátomo-clínico foi posto a serviço de um novo campo de pesquisa na neurologia, a localização das faculdades psicológicas no cérebro humano. Evoquemos aqui a descoberta de Paul Broca em 1860 da área da linguagem falada e de Carl Wernicke, dez anos mais tarde, da área da compreensão da linguagem.
Foi com com esse procedimento que Freud se deparou: diagnóstico e tratamento das doenças neurológicas usando o método anátomo-clínico. E tornou-se um praticante particularmente talentoso. Em seu Estudo autobiográfico diz:
“… fui capaz de situar o local de uma lesão na medula oblonga de maneira tão exata que o anatomista patológico não teve mais informação alguma a acrescentar: fui a primeira pessoa em Viena a encaminhar um caso para autópsia com um diagnóstico de polineurite aguda. A fama de meus diagnósticos e de sua confirmação post-mortem trouxe-me uma afluência de médicos norte-americanos, perante os quais pronunciei conferências sobre os pacientes de meu departamento …” (1925[1924]/1976: 22)
Se Freud sabia perfeitamente que havia um método válido através do qual se podia identificar, com bases empíricas, as regiões cerebrais das funções mentais, porque não o utilizou quando passou para a psicanálise? Por que não demorou muito para que descobrisse seus limites. Essa mudança parece ter ocorrido após ter sido nomeado “Privatdozent” e ido a Paris para estudar com Jean-Martin Charcot na Salpêtrière. (de outubro de 1885 a fevereiro de 1886).
O fato é que este método era usado de forma algo diferente nas escolas alemã e francesa de neurologia. Na escola alemã a ênfase pendia para o lado anatômico da equação. O objetivo primordial não era apenas descrever que síndromes se correlacionavam com que lesões, mas explicar os mecanismos dos fenômenos clínicos, desenvolver uma teoria anátomo-fisiológica. O material clínico servia ao propósito de confirmar a teoria anatômica e fisiológica vigente, estava subordinado à teoria.
Já na escola francesa a ênfase recaia sobre o lado clínico da equação. Essa escola girava em torno de Charcot que considerava a principal tarefa da ciência neurológica estabelecer novos fatos clínicos. Seu objetivo primordial não era explicar os quadros, mas identificá-los, classificá-los e descrevê-los. Freud diz:
“… que repousa a principal característica do método francês de trabalhar na clínica médica. Essa forma de abordagem é, de fato, estranha ao método alemão. Para este, o quadro clínico e o tipo não desempenham qualquer papel de destaque; por outro lado, uma outra característica assume papel de relevo, e é explicada pela evolução dos clínicos alemães: uma tendência a fazer uma interpretação, com base na fisiologia, do estado clínico e da interrelação dos sintomas. A observação clínica dos franceses, indubitavelmente, ganha em auto-suficiência, no sentido de que relega a plano secundário os critérios relativos à fisiologia. … Aliás, nisso não há nenhum descaso pela fisiologia, mas uma deliberada exclusão, que é considerada vantajosa.” (1892-94:193)
O período na Salpêtrière teve influência decisiva no pensamento de Freud e, especialmente em relação a sua atitude teórica e clínica, uma virada da fisiologia mecanicista para a medicina clínica. Decisivo para essa mudança foi o encontro com um grupo de doenças – que naquela época pertenciam ao domínio da neurologia – que amplificava a diferença entre essas as abordagens francesa e alemã. Eram as neuroses, especialmente a histeria e a neurastenia, para as quais não se encontravam nas autópsias lesões demonstráveis que respondessem pela sintomatologia clínica.
Isso era um problema insolúvel para os neurologistas alemães, que, ou declaravam que as neuroses não eram temas que merecessem interesse científico sério, ou desenvolviam teorias especulativas nada convincentes. Já Charcot simplesmente procedeu à descrição das síndromes clínicas dessas neuroses como era seu hábito, já que as considerava apenas outro tópico da neuropatologia.
Freud levou para seu trabalho clínico essa nova visão aprendida na França e as consequências teóricas desse tempo estão registradas na vasta bibliografia produzida por Freud nessa época, salientando-se o livro sobre as afasias de 1891. Ao passar das estruturas anatômicas às funções nervosas até encontrar o problema neurológico típico da localização de uma função psíquica, no caso a linguagem, concluiu que o método anátomo-clínico era totalmente incapaz de acomodar os atributos essenciais da atividade mental. Ele nunca mudou esse ponto de vista e há várias referências a isso ao longo de sua obra. Kaplan-Solms e Solms (2005:36) observam que Freud chegou a essa conclusão no estudo de uma lesão orgânica definida, a afasia. Há uma ruptura, não com a neurologia ou com a base nervosa do psiquismo, mas com uma tradição teórica de investigação, a tradição localizacionista. Nesse momento de seu desenvolvimento científico Freud, assim como muitos de seus contemporâneos, não distinguia absolutamente entre psicologia e fisiologia. As neuroses não eram transtornos não físicos, puramente psíquicos, mas sim transtornos não anatômicos, não localizáveis, transtornos fisiológicos. A psicologia era simplesmente a fisiologia do córtex cerebral (Kaplan-Solms e Solms, 2005: 32). Vejamos:
“A histeria é uma neurose no sentido mais estrito da palavra – quer dizer, não só não foram achadas alterações perceptíveis no sistema nervoso, nessa doença, como também não se espera que qualquer refinamento das técnicas de anatomia venha a revelar alguma dessas alterações. A histeria baseia-se total e inteiramente em modificações fisiológicas do sistema nervoso; sua essência deve ser expressa em uma fórmula que leve em consideração as condições de excitabilidade nas diferentes partes do sistema nervoso. Uma fórmula fisiopatológica deste tipo, no entanto, ainda não foi descoberta; por enquanto devemos contentar-nos em definir as neuroses de um modo puramente nosográfico, pela totalidade dos sintomas que ela apresenta …” (1888/1977: 79)
Vale a pena situar aqui essa posição freudiana no amplo debate que ocorria na época referente às relações entre as disciplinas científicas. Como referimos anteriormente, Freud estudou com Brücke, aliado intelectual de Helmholtz. Em 1874 Brücke publica suas conferências sobre fisiologia, no espírito fisicalista de Helmholtz e de seu grupo. Seguiam a orientação de Auguste Comte que afirmava que para entender os fenômenos complexos é necessário analisá-los em seus elementos simples e então explicar o todo pela síntese das características de seus componentes. Assim as disciplinas científicas eram encaradas de um ponto de vista hierárquico, sendo que a anatomia e a fisiologia eram consideradas mais básicas que a psicologia. Com Brücke Freud conheceu o lado reducionista da questão, ou seja, a idéia de que os fenômenos psicológicos deveriam ser explicados com elementos puramente fisiológicos. Emile Du Bois-Reymond expõe essa atitude:
Brücke e eu prometemos num juramento solene colocar no centro essa verdade: “não há outras forças, a não ser as físicas e químicas comuns, ativas no organismo”. Naqueles casos que nesse momento não possam ser explicados por essas forças devemos encontrar a maneira específica ou forma de sua ação por meio do método físico matemático ou assumir novas forças com igual dignidade às forças físicas e químicas inerentes à matéria, redutíveis às forças de atração e repulsão. (citado em Kitcher, 1995: 18)
Mas essa não era a opinião de J. S. Mill, que Freud conhecia muito bem. (A convite do filósofo Theodor Gomperz, que coordenava a edição alemã de John Stuart Mill, traduz quatro ensaios deste autor sobre a questão operária, a emancipação das mulheres, o socialismo e Platão). Mill considerava que é altamente provável que um estado mental tenha um estado nervoso como seu antecedente e causa proximal. Mas, já que nada sabemos dos estados nervosos, devemos estudar os estados mentais diretamente. Uma vez que naquele momento Mill considerava que não era possível deduzir as leis mentais das leis fisiológicas, a psicologia deveria ser estudada como uma ciência distinta e separada. As leis da psicologia devem ser estabelecidas através de observações e experimentos, mas a relação da psicologia com a fisiologia nunca deve ser desprezada ou desvalorizada. A psicologia deve ser informada pela fisiologia mas nunca reduzida a ela.
Outra influência sobre Freud foi de Franz Brentano. Em 1876, na época em que estava no laboratório de Brück, assiste às aulas de Brentano que ministrava um curso teórico sobre o conceito de consciência. Enquanto dava esse curso Brentano publicou Psicologia desde um ponto de vista empírico. Adotava também o ponto de vista de que as disciplinas que lidam com fenômenos mais simples desenvolvem-se primeiro e são as bases das mais complexas, como a relação entre a fisiologia e a psicologia, e esta como base do estudo do caráter (etologia) e das ciências sociais. Embora concordasse com Mill de que as leis psicológicas não são as mais básicas e devem estar suportadas nas leis da fisiologia, resistia ao fato de que a psicologia deveria ser estudada fisiologicamente. Por exemplo, nenhuma lei da física pode ser deduzida dos princípios da matemática assim como as leis biológicas não podem ser deduzidas das leis químicas. Assim, apesar da dependência ontológica da psicologia da fisiologia, aquela não é explanatória ou epistemologicamente dependente desta.
Outro nome extremamente relevante para o pensamento freudiano nesse debate é o de Wilhelm Wundt. Considerado por muitos como a última pessoa que dominava todo o conhecimento humano disponível, defendia que há uma dependência da psicologia da anatomia e da fisiologia. Observou que os fisiologistas há tempos dependem da psicologia, uma vez que seu raciocínio vai da psicologia para a fisiologia: a idéia de que células corticais específicas representavam idéias específicas e a busca por fibras de associação no córtex derivam das leis psicológicas da associação. Como observara Wundt, “ … muito do raciocínio de Meynert ia da psicologia para a fisiologia: a procura por fibras de associação no córtex deve-se ao fato da veracidade das leis de associação, segundo a psicologia”. (Kitcher, 1995:18) Mas a psicologia acabava de voltar-se para a fisiologia e Wundt pretendia promover esse intercâmbio. Assim, o objetivo de sua psicologia fisiológica era determinar como os processos fisiológicos afetam os objetos da psicologia. Anatomia e fisiologia são ontologicamente mais básicas que a psicologia e os princípios desta devem estar em conformidade com os daquelas. Mas os fenômenos psicológicos complexos não podem ser explicados fisiologicamente. Assim ambas as ciências tem que aprender uma com a outra pois é importante para a psicologia entender as determinações entre estados fisiológicos e estados de consciência e para a fisiologia oferecer hipóteses sobre o cérebro com base em determinados sintomas mentais. Além do método experimental Wundt (assim como Mill) defendia outras fontes de conhecimento da vida mental: linguagem, mitos, costumes, estudos de psicologia infantil e de animais. Em seu ponto de vista a psicologia étnica (völkerpsychologie) seria a principal fonte de informações sobre a psicologia geral dos processos mentais complexos.
2 – A CRÍTICA AO LOCALIZACIONISMO
Em 1891, ano em que instalou seu consultório na Berggasse em Viena, Freud publica Sobre a concepção das Afasias. Este é um texto de grande interesse para nós que estamos investigando as origens da psicanálise nas neurociências. Ele pode ser visto como o testemunho do abandono da teoria localizacionista das funções mentais através da crítica à teoria vigente sobre as afasias. Mas há muito mais nesse texto. Ele entrelaça uma discussão clínica que fundamenta a crítica ao localizacionismo com uma revisão da doutrina corticocêntrica de Meynert sobre o sistema nervoso, o que permite a proposta de uma nova visão funcional do sistema nervoso, que seria desenvolvida posteriormente pela chamada escola dinâmica de neurologia comportamental que teve entre seus teóricos proeminentes o neurologista soviético Luria. (conf. Kaplan-Solms & Solms, 2005, cap. 2) Além disso podemos vislumbrar claramente a estrutura da ponte que permitirá a Freud dar o passo para a formulação de uma teoria puramente psicológica sem abandonar a neurologia.
A teoria vigente sobre a afasia estava contida nos trabalhos de Wernicke e Lichtheim que continham duas hipóteses que Freud discutirá e refutará ao longo do texto. A primeira distingue dois tipos de afasia, uma delas causada pela destruição dos centros (a afasia motora, decorrente de lesão na área de Broca, e a afasia sensorial, cuja lesão está na área de Wernicke), e a afasia de condução que atinge os sistemas de fibras de conexão entre esses dois sítios corticais. A segunda hipótese versava sobre a relação mútua entre os centros. Essas duas hipóteses estavam fundamentadas na teoria localizacionista que perpassava toda a nova neuropatologia da época: a localização das funções era possível apenas para as funções mais elementares, os sistemas de associação entre essas áreas não era localizável. As áreas eram formadas por neurônios que registram a impressão dos estímulos recebidos, um para um. Essas imagens mnêmicas, sendo sonoras, formavam o centro sensorial da linguagem (a área de Wernicke) e, sendo motoras, o centro motor (a área de Broca). Em uma longa e abrangente discussão clínica, Freud mostra que essa teoria não corresponde aos fatos. Esses sugerem que o substrato fisiológico da atividade psíquica da linguagem não deve ser procurada nessa ou naquela parte do cérebro mas em processos que abarcam o cérebro em toda a sua extensão. “… conseguimos explicar uma forma clinicamente observada de distúrbio da linguagem, não pela interrupção localizada de uma via, mas pela suposição de uma modificação do estado funcional.” (Freud, 1891/2014: 54) Freud lembra que Wernicke e Lichtheim também recorrem a fatores funcionais para a explicação dos transtornos da linguagem, mas sem abandonar as localizações anatômicas.
“Uma redução da excitabilidade em um centro, pode-se objetar inicialmente, não precisa ser explicada por uma lesão, ela nos parece um estado puramente “funcional”. Isso está correto e pode haver estados semelhantes à afasia motora transcortical que tenham surgido como consequência apenas de um dano funcional, sem lesão orgânica.” (1891/2014: 55)
Cita então um caso relatado por Grashey. Tratava-se de um homem de 27 anos que sofreu uma fratura craniana em consequência da queda de uma escada. Ficou quase totalmente surdo do ouvido direito, perdeu o olfato e o paladar, com o olho direito só enxergava movimentos das mãos e ficou com a visão do olho esquerdo prejudicada. Além disso apresentou um distúrbio da linguagem imediatamente após o acidente na forma de uma surdez verbal. Quando Grashey o observou, tinha recuperado a capacidade de falar, “… utilizava todas as partes indiferentes do discurso sem dificuldades, inclusive alguns verbos e adjetivos, encontrava no fluxo do discurso também alguns substantivos, mas estagnava com a maioria deles, recorrendo a paráfrases. Ele reconhecia todo objeto que conhecera antes de adoecer, mas nunca se lembrava de seus nomes. Sua compreensão da linguagem estava intacta.” (1891/2014: 61) Grashey explicou o distúrbio de seu paciente a partir do dano geral da percepção, sem precisar supor uma lesão localizada:
““Vê-se, portanto”, conclui Grashey, “que por meio de um mesmo distúrbio a transição das imagens de objeto para as imagens acústicas é alterada, mas a transição das imagens acústicas para as imagens do objeto não é alterada.” Nós acrescentamos: sem suposição de uma lesão em qualquer via ou centro.” (1891/2014: 66)
Essa discussão conduz Freud, no capítulo 5, à discussão da teoria de Meynert do sistema nervoso, já que Wernicke atesta que sua teoria das afasias é uma aplicação dela. A doutrina de Meynert é córtico-cêntrica. Todo o restante do cérebro é um apêndice e um órgão auxiliar ao córtex e o corpo uma espécie de armadura para as antenas e tentáculos do córtex. Isso lhe permite registrar as imagens do mundo e agir sobre ele. Nessa teoria o corpo está projetado no córtex, ou seja, reproduzido ponto a ponto por intermédio das vias nervosas, gerando uma imagem completa e topograficamente semelhante.
Mas, diz Freud, novos conhecimentos da anatomia cerebral corrigem essa concepção, rejeitando essa hipótese de projeção do corpo no córtex. Como há uma redução das fibras projetoras na medula espinhal, um elemento da substância cinzenta superior não pode corresponder a uma unidade periférica, mas a várias. Assim a reprodução do corpo no córtex não se dá por projeção, mas por representação. O corpo não está projetado mas representado. Por exemplo:
“… uma fibra do nervo ótico dirige uma impressão retiniana até o colículo quadrigêmeo frontal, no qual ela encontra um término temporário, e em seu lugar uma outra fibra parte da substância do gânglio até o córtex occipital. Na substância do colículo quadrigêmeo, porém, ocorreu a ligação da impressão retiniana com uma percepção do movimento do músculo ocular; assim, é bastante provável que as novas fibras entre o colículo quadrigêmeo e o córtex occipital não transmitam mais uma impressão retiniana, mas uma combinação de uma ou mais dessas impressões com as percepções de movimentos. Essa modificação do significado das fibras deve ser ainda mais complicada para os sistemas de condução da sensibilidade da pele e dos músculos.” (1891/2014: 87)
Ora, essa noção fisiológica de representação permite fazer a ponte com a psicologia: nessa a representação é algo elementar e distinguível em sua relação com outras representações já que as representações estão sempre ligadas com outras representações pelo processo da associação. Como Freud recusou a projeção (que não deixa de ser uma noção de localização, a cada sensação corresponde uma localização neuronal), qual seria o correlato fisiológico da representação psíquica?
“Aparentemente nada em repouso, mas algo que tenha a natureza de um processo. Esse processo tolera a localização, ele parte de um ponto especial do córtex cerebral e se expande, a partir dele, para todo o córtex ou ao longo de caminhos especiais. Quando esse processo se completa, ele deixa uma modificação no córtex cerebral afetado por ele, a possibilidade da lembrança. É bastante duvidoso que essa modificação também corresponda a algo psíquico; nossa consciência não indica nada que justifique o nome de “imagem mnêmica latente” do lado psíquico. Porém, sempre que esse mesmo estado do córtex for estimulado de novo, o psíquico ressurge como imagem mnêmica.” (1891/2014: 92)
Note-se que, de acordo com esse ponto de vista, no correlato fisiológico da representação não é possível distinguir a parte correspondente à sensação e a parte correspondente à associação. São, na verdade, dois nomes para um processo homogêneo e indivisível. Esses conceitos estão aplicados à teoria que Freud vai apresentar em seguida da linguagem e das afasias.
A palavra é uma representação, que Freud chama de representação de palavra. Ela é a unidade da função da linguagem. Como qualquer representação ela é um complexo, composto por elementos acústicos, visuais, cinestésicos. Ela adquire seu sentido ligando-se à representação de objeto, que também é um complexo, com elementos visuais, tácteis, acústicos, etc… A ligação entre a representação de palavra e a representação de objeto se faz pelos elementos mais representativos desses complexos, a imagem acústica, no caso da palavra e a imagem visual, no caso do objeto. E aqui Freud cita explicitamente J. S. Mill:
“Nós deduzimos com base na filosofia que a representação de objeto não contém mais nada além disso, que a aparência de uma “coisa”, cujas diversas “características” são denotadas pelas impressões sensoriais, só passa a existir pelo fato de nós, ao listarmos as impressões sensoriais obtidas de um objeto, acrescentarmos a possibilidade de uma grande série de novas impressões na mesma cadeia de associações.” (1891/2014: 121)
Freud refere aqui o Sistema de lógica e Um exame da filosofia de Sir William Hamilton. Esta referência em particular vem de um trecho de Um exame da filosofia de Sir. W.H. em que Mill está discutindo o advento de nossa noção da exterioridade dos objetos dos sentidos. Há nela muito pouco de sensações presentes e muito de “uma variedade incontável de possibilidades de sensação – natadamente o todo daquelas que a observação passada me diz que eu poderia, sob quaisquer circunstâncias suponíveis experienciar nesse momento…” (Mill, 1974:260) Ou seja, a representação da percepção presente nunca está sozinha mas ativa imediatamente uma rede de pertencimento arquivada na memória ao mesmo tempo que um conjunto de possibilidades.
Mas será que é possível se diferenciar, no correlato fisiológico da sensação, a parte da “sensação” da parte da “associação”? Aparentemente, não. “Sensação” e “associação” são dois nomes que damos a visões diferentes do mesmo processo. Nós sabemos, no entanto, que ambos os nomes foram abstraídos de um processo homogêneo e indivisível. Não podemos ter uma sensação sem associá-la imediatamente. Mesmo que as separemos com exatidão em termos conceituais, na verdade as duas estão ligadas a um único processo que, iniciando-se em um ponto do córtex, se difunde por todo ele.” (1891/2014: 92)
Vemos claramente como um fato fisiológico, a noção de representação cortical do corpo, permite a Freud estabelecer o laço com um fato psicológico, a noção de representação (vorstellung), ou seja, idéia. A filosofia associacionista permite a Freud considerar de um ponto de vista psicológico o que na fisiologia corresponderia a impressão e associação. Como psicologia e fisiologia estão desta forma correlacionadas é possível passar a uma descrição puramente psicológica.
“A cadeia dos processos fisiológicos no sistema nervoso provavelmente não tem uma relação de causalidade com os processos psíquicos. Os processos fisiológicos não terminam simplesmente onde os psíquicos se iniciaram. Na verdade, a cadeia fisiológica continua, só que cada membro da mesma (ou alguns membros individuais) corresponde, a partir de um dado momento, a um fenômeno psíquico. Com isso, o processo psíquico é um processo paralelo ao fisiológico (“a dependent concomitant”).” (1891/2014: 90)
Kaplan-Solms e Solms, (2005: 35) observam que Freud registra nesse trabalho duas observações fundamentais e de grandes consequências futuras. Em primeiro lugar que as faculdades psíquicas se alteravam conforme suas próprias leis de funcionamento e não de acordo com as leis da anatomia cerebral. Por essa razão as síndromes psicológicas deviam ser descritas e explicadas em seus próprios termos psíquicos. Em segundo lugar observou que as faculdades psíquicas não são destruídas por lesões localizadas no cérebro. Ao contrário, são distorcidas e modificadas dinamicamente, o que revela uma interdependência mútua com outras faculdades. Ou seja, os processos psíquicos tem suas próprias leis e surgem de inter-relações de forças existentes entre funções componentes mais elementares. São produtos de sistemas funcionais dinâmicos. Devem ser concebidos como distribuídos entre os elementos estáticos do sistema nervoso e não localizados em centros anatômicos separados.
Uma última observação a respeito desse texto. Quando Freud se refere a Hughlings Jackson “… a cujas opiniões eu recorri em quase todas as observações supra para contestar a teoria localizatória…” (1891/2014: 98), faz uma referência à diferença entre linguagem emocional e linguagem intelectual, no caso de afásicos motores em que permanecem restos de linguagem, como imprecações. Cita dois casos, como o caso de um homem que devia sua afasia a uma briga na qual perdera a consciência em consequência de uma pancada na cabeça e só conseguia dizer: I want protection, ou o caso de um contador atingido pela doença após ter concluído um trabalho exaustivo no qual permaneceu um estranho resto: list complete.
“Eu gostaria de explicar a conservação dessa última modificação pela sua intensidade, se ela ocorre em um momento de grande excitação interna. Eu me lembro que duas vezes acreditei estar correndo risco de vida, sendo que essa percepção, nas duas vezes, ocorreu repentinamente. Em ambos os casos, eu pensei: “Agora é o teu fim”, e enquanto minha fala interna normalmente acontecia apenas com imagens acústicas indistintas e sensações labiais um pouco mais intensas, eu ouvi, em perigo, essas palavras como se alguém as estivesse gritando em meu ouvido, e concomitantemente vi-as como se estivessem impressas em um pedaço de papel esvoaçante.” (1891/2014: 100)
Veremos no que segue que essa incidência de um momento de grande excitação interna que deixa um resto de linguagem conservado revela uma associação entre um elemento emocional intenso e um fenômeno simultâneo que se conserva. Essa associação será trabalhada por Freud como produtora de símbolos e utilizada na explicação de fenômenos conversivos.
“Freud elabora uma teoria funcional sobre a afasia, tendo como pano de fundo a fisiologia funcional de Hughlings Jackson, e recorrendo ao modelo de psicologia empírica proposto por Stuart Mill”. (Gabbi Jr., 2003: 11) Recusa o localizacionismo, mas não a neurologia, e seu recurso à psicologia não é uma ruptura com essa, mas uma continuidade. Como diz Garcia-Roza:
“Separar o aspecto psicológico do anatômico não significa separar o aspecto psicológico do neurológico, mas, ao contrário, o que Freud pretende deixar claro é que não há esquema psicológico sem um esquema neurológico, ou , ainda, que seu esquema psicológico é um esquema neurológico. … O que Freud está recusando não é o neurológico, mas o anatômico entendido em termos de localizações elementares. O termo “psicológico” com o qual ele qualifica seu esquema (“esquema psicológico da representação-palavra”) indica que a ênfase recairá sobre a representação (vorstellung) e sobre as associações entre representações.” (2014: 192)
3 – EM BUSCA DO ELO ENTRE FISIOLOGIA E PSICOLOGIA
Se observarmos a produção teórica de Freud de 1886 a 1895 podemos constatar que estava trabalhando concomitantemente nas duas vertentes, a da fisiologia do sistema nervoso e na busca de uma explicação para as neuroses, doenças que encontrava diariamente em sua prática clínica. Se, teoricamente a teoria da representação foi o que lhe permitiu passar de uma descrição fisiológica para uma descrição psicológica, o fato clínico fundamental para essa passagem foi a explicação dos sintomas histéricos conversivos. Em termos metodológicos Freud passava da utilização dos métodos tradicionais de tratamento dessas condições (a cura de repouso, a faradização geral, etc…) para a utilização da hipnose, sugestiva inicialmente e ab-reativa posteriormente. A hipnose foi seu principal instrumento de pesquisa nessa época.
No verão de 1889 esteve em Nancy estudando com Bernheim e traduziu para o alemão seu livro De la Suggestion et de ses applications à la thérapeutique. No prefácio que escreveu a ele observa que Bernheim transpôs o problema da hipnose inteiramente para a esfera da psicologia propondo a sugestão como a chave para sua compreensão. No entanto, nesse prefácio Freud discorda que essa visão possa ser aplicada em sua totalidade, desconhecendo o lado fisiológico dos fenômenos hipnóticos. Enquanto a corrente liderada por Bernheim advoga que todos os fenômenos hipnóticos seriam fenômenos psíquicos efeitos de sugestões, a outra corrente, sustenta a opinião de que pelo menos algumas das manifestações do hipnotismo se baseiam em fenômenos fisiológicos, “… ou seja, em deslocamentos da excitabilidade no sistema nervoso, que ocorrem sem a participação daquelas partes do mesmo que operam com a consciência: …” (1888[1888-91]/1977: 120) O ponto central de controvérsia é o “grande hipnotismo” que Charcot praticava com pacientes histéricos hipnotizados. Neste texto Freud foca particularmente nos sintomas histéricos e não vê dificuldade em provar a “objetividade” da sintomatologia histérica, no sentido de que os sintomas estão livres da suspeita de terem-se originado na sugestão e tem sua origem em relações fisiológicas normais. Mas, no que diz respeito à discussão entre as duas escolas, explicita sua posição:
Esta não é a ocasião apropriada para efetuar uma detalhada justificação da sintomatologia da histeria; mas podemos aceitar a afirmação de que, na sua essência, essa sintomatologia é de natureza real, objetiva: não é forjada pela sugestão da parte do observador. Isto não significa negar que seja psíquico o mecanismo das manifestações histéricas: não podemos, porém atribuir seu mecanismo simplesmente à sugestão proveniente do médico. (1888[1888-91]/1977: 122)
Isso quer dizer que o psíquico, identificado à consciência, não se reduz aos fenômenos sugestivos conscientes. Não é porque os fenômenos histéricos tem origem nos deslocamentos de excitabilidade do sistema nervoso, que não incluem consciência, deixam de ser também psíquicos. Ora, a sugestão não pode ultrapassar a consciência, no sentido de produzir algo que possa não estar contido nela. Como podemos ver Freud está incluindo em sua definição de psíquico fenômenos que ocorrem além da consciência, como as conversões histéricas, juntamente com os mecanismos que formam seu suporte fisiológico. E clama por investigação:
…a divisão dos fenômenos hipnóticos em dois títulos, o dos fenômenos fisiológicos e o dos fenômenos psíquicos, deixa muito a desejar: precisa-se urgentemente de um elo que ponha em conexão as duas espécies de fenômenos. (1888[1888-91]/1977: 125)
Freud vai buscar na compreensão do sintoma histérico a possibilidade de encontrar esse elo. Diz que a sintomatologia da histeria sugere um mecanismo psíquico, mas que não é necessariamente a sugestão. Faz então uma uma distinção entre sugestão psíquica (aquela dada explicitamente pelo hipnotizador, como uma ordem), sugestão indireta (dada pelo hipnotizador, mas não de forma explícita) e auto-sugestão. E é na última que vai procurar o mecanismo produtor de sintomas histéricos. As auto-sugestões são objetivas, independentes de eventuais sugestões e …
“… revelam uma conexão entre diferentes estados de inervação ou excitação no sistema nervoso. São as auto-sugestões dessa natureza que levam à produção de paralisias histéricas espontâneas, e é uma tendência para tais auto-sugestões, mais do que a sugestionabilidade em relação ao médico, que caracteriza a histeria. (1888[1888-91]/1977: 127)
Esse mecanismo nomeado aqui como auto-sugestão será detalhadamente investigado em um texto publicado em 1893 mas que Freud começou na mesma época que este: Alguns pontos para o estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas (1893[1888-1893]/1977). Como veremos a seguir ali ele é investigado com relação ao conceito charcotiano de lesão funcional ou dinâmica. A idéia da “conexão entre diferentes estados de inervação ou excitação no sistema nervoso”, nomeada aqui como auto-sugestão, florescerá na teoria da simbolização que Freud desenvolverá daqui para a frente, exposta na parte II de seu Projeto (1950[1895]/2003) e fundamental na postulação do caráter simbólico do sintoma histérico nos Estudos sobre a Histeria (1893-1895/1974).
Freud, como vimos no trabalho sobre as afasias, encarava as ligações entre as idéias regidas pelas leis da associação como expressões psíquicas dos deslocamentos de energia no cérebro. Portanto, ao construir as leis psíquicas dos fenômenos mentais estava ao mesmo tempo construindo as possibilidades dos caminhos da excitação na fisiologia cerebral. Se os processos psíquicos ocorrem no córtex, os processos que ocorrem na substância subcortical seriam puramente fisiológicos. Mas Freud está questionando isso e incluindo a dimensão subcortical na esfera das determinações do psíquico.
Poder-se-ia, ademais questionar se todos os fenômenos da hipnose têm que passar, em algum lugar, pela esfera psíquica; em outras palavras – pois a questão não pode ter outro sentido – se as mudanças na excitabilidade, ocorrentes na hipnose, invariavelmente afetam apenas a região do córtex cerebral. … Não se justifica estabelecer tal contraste, como aqui se faz, entre o córtex cerebral e o resto do sistema nervoso; é improvável que tão profunda modificação funcional no córtex do cérebro possa ocorrer sem vir acompanhada de mudanças importantes na excitabilidade das demais partes do cérebro. Não temos critério algum que nos possibilite estabelecer uma distinção exata entre um processo psíquico e um processo fisiológico, entre um ato que ocorre no córtex cerebral e um que ocorre na substância subcortical; isso porque a ‘consciência’, o que quer que isto seja, não está ligada a toda atividade do córtex cerebral, e não está sempre ligada em igual grau a alguma de suas atividades em particular; não é algo que esteja em conexão com alguma região do sistema nervoso.” (1888[1888-91]/1977: 128/129)
Não podemos ver aí o germe do caminho que levará à postulação dos dois processos de pensamento? Se não justifica estabelecer o contraste entre o córtex e o resto do sistema nervoso, o processo psíquico pode ser estendido para o restante do sistema nervoso, incluindo processos subcorticais na dimensão psíquica. Caminho aberto para a postulação de um processo psíquico primário. Além disso a posição de Freud no que diz respeito à redução e identificação do psíquico ao consciente aparece claramente já aqui. Além de processos psíquicos que ocorrem fora dos domínios da consciência, não se pode localizá-la em alguma região específica do sistema nervoso.
Na opinião de Kitcher o associacionismo foi fundamental na construção da metapsicologia freudiana. “Como muitos antes e depois dele, Freud nunca duvidou da verdade do associacionismo”.(1995:31) Ela foi a teoria do lado psicológico da equação que possibilitou a Freud construir a ponte que lhe permitiu passar da descrição dos fenômenos fundamentada em conceitos da esfera fisiológica para uma descrição exclusivamente psíquica. Pois as associações psíquicas entre as representações tem seus correspondentes fisiológicos e são possíveis em função deles:
As sugestões indiretas ou as auto-sugestões, por conseguinte, podem ser descritas igualmente como fenômenos fisiológicos ou como psíquicos, e o termo ‘sugestão’ tem o mesmo significado que o recíproco despertar de estados psíquicos segundo a lei de associação. … Essa vinculação, essa capacidade de associar elementos faz parte da natureza do sistema nervoso e não advém de alguma ação arbitrária do médico; não pode ocorrer a não ser que esteja baseada em modificações ocorridas na excitabilidade das correspondentes regiões cerebrais, na inervação dos centros vasomotores, etc…, e apresenta igualmente um aspecto psicológico e um aspecto fisiológico. (1888[1888-91]/1977: 127/128)
Ao voltar de Paris em 1886 Freud fixa consultório em Viena e com o aumento da experiência clínica foi gradualmente afastando-se de Charcot, e da necessidade de ancorar a descrição em bases fisiológicas, e começa a desenvolver um ponto de vista próprio, passando a formular suas descobertas num discurso puramente psicológico, segundo as orientações de Mill, Brentano, Wundt e Hughlings Jakson. Vimos que isso se deu por duas vias convergentes: as observações clínicas minuciosas dos sintomas histéricos e o estudo das afasias.
Ainda em Paris, sua atenção havia sido atraída para as paralisias histéricas e lá ele traçou com Charcot um plano para um estudo comparativo entre essas e as paralisias orgânicas.
“Desejava estabelecer a tese de que na histeria as paralisias e anestesias das várias partes do corpo se acham demarcadas de acordo com a idéia popular dos seus limites e não em conformidade com fatos anatômicos. Ele concordou com esse ponto de vista, mas foi fácil ver que na realidade não teve qualquer interesse especial em penetrar mais profundamente na psicologia das neuroses. Quando tudo já havia sido dito e feito, foi a partir da anatomia patológica que seu trabalho havia começado.” (1925[1924]/1976: 25)
O texto resultante Alguns pontos para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas, foi publicado em francês nos Arquives Neurologiques em 26 de julho de 1893 (Freud, 1893 [1888-1893]/1977). Mas a composição desse artigo é bastante espalhada no tempo. Segundo J. Strachey as três primeiras partes, uma discussão neurológica, foram escritas em 1888, ou mesmo em 1886, no período do retorno de Freud a Viena após sua estadia em Paris. Mas a quarta parte provavelmente data de 1893, quando Freud já preparava com Breuer a Comunicação preliminar (Freud, 1940-41[1892]/1977). Esse pequeno texto torna-se assim uma referência privilegiada onde podemos observar a passagem da discussão neurológica para a discussão psicológica.
Nele Freud analisa cuidadosamente as diferenças entre as paralisias orgânicas e histéricas. Dois dois tipos identificados de paralisias orgânicas, as paralisias periférico-medulares, que Freud chama de em projeção e as paralisias cerebrais, que chama de em representação, aproxima as paralisias histéricas das cerebrais em representação, mas com a ressalva de que elas envolvem um tipo especial de representação já que as paralisias histéricas não seguem os padrões das orgânicas, seja em relação à delimitação das regiões afetadas, seja na intensidade da afecção. Lembremos como Freud forja o termo de representação a partir da crítica à noção meynertiana de projeção, no texto das afasias. Fisiologicamente falando indica o modo de representação do corpo no cérebro, como as informações motoras e sensoriais estão representadas no córtex. Psicologicamente falando são as unidades dos fenômenos psíquicos, as idéias. E como, em ambos os domínios, ele é inseparável do termo associação.
As características das paralisias orgânicas são dadas pelos fatos da anatomia. Há um estreito paralelismo entre as características clínicas dos sintomas e a estrutura anatômica do sistema nervoso. As lesões cerebrais nas paralisias orgânicas são localizáveis e correspondem a regiões anatômicas específicas. A natureza da lesão não é relevante nas paralisias orgânicas, mas sim sua localização e sua extensão anatômica. Como nas paralisias histéricas os fatos anatômicos não são respeitados e não há correspondência entre os sintomas clínicos e a anatomia do sistema nervoso, a questão para a natureza da lesão se torna relevante. Para explicar isso Charcot propõe a noção de lesão cortical dinâmica ou funcional. Não haveria modificação tecidual detectável post mortem, mas tratar-se-ia de uma lesão transitória, como a causada por um edema, por exemplo. Mas, Freud argumenta que mesmo nessa hipótese, as paralisias compartilhariam as características das lesões orgânicas, uma vez que regiões anatômicas específicas estariam sendo afetadas. Chega assim à conclusão de que a lesão histérica é independente da anatomia, se comporta como se a anatomia não existisse. Na verdade, percebe Freud, ela não é de forma alguma caótica ou caprichosa, mas segue uma outra regra:
Ela toma os órgãos pelo sentido comum, popular, dos nomes que eles têm: a perna é a perna até sua inserção no quadril, o braço é o membro superior tal como aparece visível sob a roupa. Não há motivo para acrescentar à paralisia do braço a paralisia da face. Um histérico que não consegue falar, não tem motivo para esquecer que compreende a fala, de vez que a afasia motora e a surdez para a palavra não estão correlacionadas entre si, na concepção popular, e assim por diante. (1893 [1888-1893]/1977: 234)
A partir dai Freud elabora a passagem do nível fisiológico para o nível psicológico na conceitualização dessa lesão dinâmica ou funcional. Estamos na quarta parte desse texto que foi escrita em 1893. Para isso monta um raciocínio com quatro premissas e uma conclusão:
1 – Na lesão funcional (ou dinâmica) trata-se de uma modificação de uma propriedade funcional, o que não implica que haja lesão orgânica concomitante.
2 – Nas paralisias e anestesias histéricas o que esta em jogo é a concepção, ou a idéia (vorstellung), popular dos órgãos e do corpo em geral, e não seu reflexo anatômico.
3 – A lesão é, portanto, uma modificação na idéia, por exemplo, na idéia de braço.
4 – Essa modificação consiste em que a idéia em questão (a idéia de braço) não consegue entrar em associação com as outras idéias constituintes do ego.
Logo, a lesão é “ … a abolição da acessibilidade associativa da concepção de braço.” O resultado é que a idéia de braço fica excluída das operações associativas do ego. “O braço comporta-se como se não existisse para as operações da associação. … Mas tenho que demonstrar que esta consegue estar inacessível sem estar destruída e sem estar lesado seu substrato material (o tecido nervoso da região correspondente do córtex)”. (1893 [1888-1893]/1977: 236)
O associacionismo permite a Freud passar da fisiologia para a psicologia e apresentar uma descrição psicológica que de certa forma recobre sua base fisiológica. Isso permite passar à elaboração de uma teoria simbólica. Em primeiro lugar apresenta três situações análogas aos sintomas conversivos. O de um homem que não queria lavar sua mão porque ela tinha sido tocada pelo Rei; o costume de quebrar a taça com que se brindou aos recém casados; o costume de certas tribos que queimavam todos os pertences (incluindo as mulheres) de seu chefe morto. Isso mostra que a carga de afeto (affektbetrag) ligada à primeira associação com um objeto tende a isolar esse objeto de novas associações, tornando a idéia do primeiro objeto inacessível. Assim como a mão que o Rei tocou, “Se, numa associação, a concepção de braço está envolvida com uma grande quantidade de afeto, essa concepção será inacessível ao livre jogo das outras associações.” (1893 [1888-1893]/1977: 237) Enquanto essa quantidade de afeto persistir o braço continuará paralisado, pois não perderá sua carga afetiva por meio do trabalho psíquico apropriado.
Por conseguinte, a concepção do braço existe no substrato material, mas não está acessível às associações e impulsos conscientes, porque a totalidade de sua afinidade associativa está, por assim dizer, impregnada de uma associação subconsciente com a lembrança do evento, o trauma, que produziu a paralisia. (1893 [1888-1893]/1977: 237)
Vemos aqui como a auto-sugestão (“conexão entre diferentes estados de inervação ou excitação no sistema nervoso”) é reconfigurada em termos de inacessibilidade associativa. A lesão funcional é uma lesão associativa. Nesse momento Freud explica essa situação pela permanência da carga afetiva na representação. Essa teoria, formulada juntamente com Breuer e apresentada em Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação Preliminar (1893), a parte I dos Estudos sobre a Histeria (1893-1895/1974), adscreve a impossibilidade desse afeto ser eliminado pelos meios psíquicos habituais à qualidade traumática dessa representação, à “… fixação dessa concepção numa associação inconsciente com a lembrança do trauma;” (1893 [1888-1893]/1977: 239).
Mas essa teoria traumática estava sendo nesse momento mesmo substituída pela teoria da defesa. (Freud (1894/1976) A razão da inacessibilidade não é primariamente o afeto retido, mas a impossibilidade de lidar com a incompatibilidade ideativa produzida pela idéia “traumática” o que desencadeia a repressão, ou seja, o isolamento associativo dessa idéia. A retenção do afeto na lembrança traumática é consequência da repressão e esta, por sua vez, é uma forma de lidar com o conflito psíquico decorrente da incompatibilidade ideativa.
Foi assim que Freud, tomando o sintoma conversivo da histeria como paradigmático da forma como os processos psíquicos/fisiológicos se organizam, elaborando uma teoria simbólica da formação de sintomas com base na associação psíquica, e levando em consideração o fato clínico do conflito psíquico, como ninguém antes o fizera, como base de sua teoria da defesa, generaliza essas conclusões ao campo das funções mentais superiores fundando a psicanálise e construindo seu primeiro modelo de aparelho psíquico (cap. VII de A Interpretação de Sonhos), derivado ponto a ponto de seu modelo neuro-energético elaborado no Projeto.
Se Freud rejeitou o localizacionismo da neurologia clássica alemã, conservou seus outros aprendizados como neurologista. Como apontam Kaplan-Solms & Solms, continuou adepto do método clínico da escola francesa, com sua ênfase no estudo cuidadoso de casos singulares, continuou a explicar os fenômenos clínicos em termos de forças e energia e continuou a acreditar que essas forças e energias eram, finalmente, representáveis de alguma forma como processos físico-químicos. (2005: 38-39) Seu programa científico em sua subsequente vida psicanalítica está em continuidade com seu primeiro trabalho de neurocientista.
Como a neurologia de sua época não podia lhe fornecer os subsídios necessários para dar conta das doenças funcionais como as neuroses, Freud resolveu dedicar-se à construção de um modelo psicológico que pudesse fornecer uma explicação coerente da clínica das neuroses. Passou do extremo físico ao extremo psíquico da equação mente/corpo. Em vez de tentar explicar os sintomas neuróticos correlacionando-os a um dano hipotético em uma ou outra região anatômica, passou a investigar a estrutura psicológica interna das síndromes e explicou-as com referência a um sistema funcional que ele descreveu como estando dinamicamente representado entre os elementos do cérebro.
“A pesquisa tem dado provas irrefutáveis de que a atividade mental está vinculada à função do cérebro, de uma forma como não o está com nenhum outro órgão. Estamos avançando um passo além – não sabemos o quanto – com a descoberta da importância inigualável das diferentes partes do cérebro e de suas relações especiais com outras partes específicas do corpo e com atividades específicas. Mas qualquer tentativa de ir adiante para descobrir a localização dos processos mentais, todo o empenho em pensar em idéias como armazenadas em células nervosas e em excitações como viajando através de fibras nervosas fracassou completamente … Há aqui um hiato que não pode ser preenchido atualmente, nem é essa uma das tarefas da psicologia. Nossa topografia psíquica não tem, presentemente, nada a ver com a anatomia; tem referência não com locais anatômicos, mas com regiões do aparato mental, onde quer que possam estar situadas no corpo. A esse respeito, nosso trabalho é livre e pode proceder de acordo com seus próprios requerimentos. Será útil, no entanto, lembrar-nos de que tal como estão as coisas nossas hipóteses tendem a ser nada mais do que ilustrações gráficas.” (1915:174)
REFERÊNCIAS
Freud, S. (1888[1888-91]/1977) Prefácio à tradução de Suggestion de Bernheim. Ed. Standard Brasileira, vol. I. Rio: Imago
Freud, S. (1891/2014) Sobre a concepção das afasias. in Afasias, Freud e seus interlocutores. Rio: Zahar.
Freud, S. (1893[1888-1893]/1977) Alguns pontos para o estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas. Ed. Standard Brasileira, vol. I. Rio: Imago
Freud, S. (1893-1895/1974) Estudos sobre a Histeria. Ed. Standard Brasileira, vol II. Rio: Imago
Freud, S. (1894/1976) As neuropsicoses de defesa. Ed. Standard Brasileira, vol III. Rio: Imago
Freud, S. (1915/1974) O inconsciente. Ed. Standard Brasileira, vol. XIV, Rio: Imago
Freud, S. (1950[1895]/2003) Projeto de uma Psicologia Científica. in Gabbi Jr. O. F. (2003) Notas a Projeto de uma Psicologia. As origens utilitaristas da Psicanálise. Rio: Imago
Freud, S. (1940-41[1892]/1977) Esboços para a “Comunicação Preliminar” de 1893. Ed. Standard Brasileira, vol. I. Rio: Imago
Gabbi Jr. O. F. (2003) Notas a Projeto de uma Psicologia. As origens utilitaristas da Psicanálise. Rio: Imago.
Garcia-Roza, L.A. (2014) As afasias de 1891, in Afasias, Freud e seus interlocutores. Rio: Zahar.
Kaplan-Solms, K. & Solms, M. (2005) Estudos clínicos em Neuro-Psicanálise. Introdução a uma Neuropsicologia profunda. São Paulo: Editora Lemos
Kitcher, P. (1995) Freud’s dream. A Complete Interdisciplinary Science of Mind. Cambridge: MIT press