A CONSCIÊNCIA E O APARELHO PSÍQUICO FREUDIANO
“O ponto de partida de nossa investigação é um fato sem paralelo, que desafia toda explicação ou descrição – o fato da consciência. Não obstante, quando se fala de consciência, sabemos imediatamente, e pela experiência mais pessoal, o que se quer dizer com isso.” (1940/1975:182)
Assim Freud escreve no capítulo IV de seu Esboço de Psicanálise. No entanto a psicanálise justamente se caracteriza por considerar o psíquico como sendo o que está para além da consciência, ou seja, o define como inconsciente. Sendo assim, considerar o que é a consciência na obra freudiana, como ela está caracterizada e que lugar e função ela ocupa no aparelho psíquico é de fundamental importância para compreender o pensamento freudiano. É isso que nos propomos nesse texto.
Consciência é um termo polissêmico e de uso cotidiano. Na teoria popular pode ter vários sentidos e é utilizado como sinônimo de psíquico. O mental é identificado ao consciente e não se cogita uma vida mental fora dos limites da consciência. Consciência também está associada a controle psíquico, à vontade, à razão, e é vista como fator de diferenciação entre o homem e os animais, indicando sua superioridade em relação a eles. Por muito tempo na filosofia a consciência foi vista como sinônimo de razão e considerar uma atividade racional fora dos limites da consciência era absolutamente impensável. Não há nada de errado com a visão popular da consciência, uma vez que com ela vivemos e nos relacionamos com o meio e com os outros. Mas a pesquisa científica leva a investigação para além do conhecimento gerado intuitivamente. “A consciência é um instrumento maravilhoso para ajudar-nos a focar, tomar certos tipos de decisões e discriminações e criar certos tipos de memória, mas é uma mentirosa sobre a mente.” (Turner: 1996:6) Nossa compreensão consciente é basicamente perceptiva e não corresponde ao que efetivamente se passa. Sentado na minha escrivaninha e escrevendo essas letras não sinto que estou em movimento. Mas estou. Não só eu, mas tudo ao meu redor gira comigo.
Muito mais de cem anos já se passaram desde que a psicologia com pretensões científicas iniciou suas investigações sobre a mente humana e, mesmo assim, hoje pouco sabemos acerca da consciência humana. Aprendemos muito sobre o funcionamento da mente inconsciente, embora relativamente pouco desse saber tenha se transferido para os campos da prática da psicologia. E isso acaba tendo um efeito indesejável pois, na falta de teorias consistentes, os sentidos populares são frequentemente transferidos para a prática e utilizados como conceitos norteadores das ações sem a necessária crítica. Disto resulta que o termo e a noção popular de consciência são normalmente utilizados para designar indevidamente funções cognitivas complexas. Isso ocorre também na transmissão da Psicanálise, onde pode-se observar um uso ingênuo e impreciso do termo.
A precisão teórica em relação à consciência torna-se mais necessária para os psicanalistas considerando-se que Freud utiliza este termo em relação à finalidade da análise: tornar consciente o inconsciente (Freud: 1920/1976:31). Pode-se perguntar a partir disso se a elaboração do conflito psíquico pressupõe sua conscientização e, em caso positivo, qual o papel da consciência nesta elaboração tendo em vista que um conflito é produtor de sintomas em função de seu estatuto de inconsciente. Além disso, é necessário considerar que a capacidade de produção sintomática de um conflito se deve não somente a seu estatuto inconsciente, mas principalmente a sua condição de reprimido. Isso quer dizer que há processos de pensamento no id aos quais o ego está impedido de ter acesso. Mas esse impedimento de acesso é exclusivo da consciência? Ou inclui também o conjunto de pensamentos inconscientes?
1 – A CONSCIÊNCIA COMO EXPERIÊNCIA SUBJETIVA
Como veremos ao longo deste texto há muitos aspectos que possibilitam uma aproximação entre a leitura freudiana e a visão das ciências cognitivas contemporâneas sobre a consciência. As pesquisas efetuadas em grande parte do Século XX a respeito do funcionamento mental tiveram como modelo a teoria simbólica (ou computacional) da mente, inspirada no processamento da informação. O advento da computação forneceu uma abordagem material do funcionamento mental que deu origem às ciências cognitivas: a mente calcula, pensar é calcular. Como o processamento da informação pode ocorrer em suportes materiais diversos, como o cérebro ou os circuitos de silício, não havia nenhuma necessidade de considerar a consciência como um fator relevante nas pesquisas sobre o funcionamento mental. Não é preciso consciência para pensar, nem ela é relevante nos diversos processos cognitivos. A consciência ficou fora da agenda científica.
A partir da década de 70 a teoria computacional da mente começa a ser questionada com pesquisas oriundas de áreas diversas, como a psicologia cognitiva, a semântica cognitiva, a neurociência afetiva, entre outras (ver Gardner (1996), Lakoff (1990), Facaunier e Turner (2002), LeDoux (2001), Thá (1997)). A mente desencarnada, modelada no funcionamento dos computadores, deu lugar à consideração dos processos mentais humanos como relacionados e dependentes do corpo e do cérebro, logo impensáveis sem sua dimensão afetiva. Com o retorno da encarnação da mente no corpo a questão da consciência volta a interessar os teóricos. Coloca-se então a questão de como o cérebro/mente pode gerar processos conscientes. A consciência deve ser distinguida das diferentes atividades cognitivas como percepção, pensamento, linguagem, memória, sendo uma característica que não necessariamente está presente. A noção de que a maioria das funções mentais operam inconscientemente e não necessitam da consciência para operar é hoje tão evidente que a questão da consciência se inverteu: para que ela serve? para que se precisa dela? E se colocou a questão fundamental, que ecoa a citação freudiana que abre esse texto: como processos cerebrais podem gerar experiências conscientes, ou seja, experiências subjetivas? Veremos na sequência que convém distinguir experiência consciente e experiência subjetiva.
A consciência, de fato, é uma experiência subjetiva, a experiência consciente. Não é uma coisa, não é uma entidade, não é algo que existe como um objeto material, ela é uma experiência e permanece durante o tempo que dura essa experiência. Não se pode apontar a consciência como se aponta um objeto qualquer, ela é experimentada. Pode-se apontar um cachorro, seu pelo, seus olhos, suas patas, mas não sua consciência. Pode-se supor que um cachorro tenha consciência. Mas essa suposição é baseada na experiência de um ser consciente. E essa experiência é privada. A experiência da minha consciência é somente minha, não posso partilhá-la com ninguém, assim como não posso experienciar a consciência de ninguém. Supomos que os outros tem o mesmo tipo de experiência subjetiva consciente que nós, mas isso é uma suposição baseada na semelhança que percebemos entre nós e os outros. Thomas Nagel no seu famoso artigo What is it like to be a bat? refere-se ao caráter imediato, indescritível e instransponível da experiência consciente. (ver Teixeira (2000: 93) Não posso saber o que é ser um morcego pois não posso me transpor na perspectiva de mundo que um morcego tem. Só posso imaginar o que é ser um morcego. Mas tudo o que eu imaginar estará restrito à minha experiência e aos recursos de minha própria mente.
Consideremos os aspectos qualitativos envolvidos em nossas percepções e representações. A filosofia da mente contemporânea chama-os de qualia, as qualidades secundárias que existem somente em nossa experiência. O vermelho que você vê é o mesmo vermelho que eu vejo? Como transmitir a alguém o gosto do sal? O toque amadeirado do Carménère é sentido da mesma forma pelos apreciadores de vinho? Como soa o violino para cada uma das pessoas de uma platéia? O referente dessas expressões é uma qualidade subjetiva experimentada, logo privada. Só é possível compartilhar o gosto do sal com alguém que também tem essa mesma experiência. Ou seja, a descrição de um qualia pressupõe uma experiência comum compartilhada por ao menos dois indivíduos. Imagine explicar para um alienígena, que nunca o experimentou, o gosto do sal. Mas o compartilhamento só é possível através da mediação de imagens ou de descrições proposicionais. Não é a experiência que é compartilhada, mas sua representação e descrição. A experiência em si permanece privada.
A experiência consciente está ligada ao estado de vigília, portanto à percepção. Quando a vigília desaparece, como no sono ou em estados como o de coma, a consciência desaparece também. Ela pode voltar durante o sono, nos sonhos, mas sempre ligada à percepção. Além disso a experiência consciente é seletiva, o que quer dizer que apenas parte dos processos cognitivos que estão ocorrendo em um momento dado podem tornar-se conscientes. Apenas algumas atividades mentais são acompanhadas de consciência e tipicamente temos consciência do resultado de uma seqüência de processamento, mas não da seqüência em si mesma.
Dessa forma não se deve confundir o processamento cognitivo da informação nem correlatos neurais (eventos cerebrais) com a experiência consciente, que é fenomenológica. Kosslyn e Koening, em Wet mind (1995) a comparam à luz produzida por uma lâmpada incandescente e o filamento metálico aquecido dentro do foco. O filamento gera a luz, mas esta não se confunde com ele.
Mas nossa subjetividade não pode ser reduzida à experiência subjetiva vivida pela consciência. Há processos subjetivos que provocam todos os efeitos na vida que não são experimentados conscientemente, apenas seus efeitos. Consideremos os sintomas neuróticos, por exemplo, os pensamentos obsessivos que geram os sintomas obsessivos-compulsivos. O neurótico sente seus efeitos, executa perplexo seus comandos, dedica sua vida a cumprir os rituais, mas não sabe nada do que esta pensando nem mesmo que esses sintomas estão sendo gerados por seus processos de pensamento. Ou o exemplo da mulher histérica que vomita, evocado por Freud em Alguns comentários sobre o conceito de inconsciente na psicanálise (1914/2004). “…ela pode estar fazendo-o em consequência da idéia de que esteja grávida. Entretanto, ela não esta ciente dessa idéia…” (85) A consciência é do efeito, mas os processos de pensamento que os geram evidentemente fazem parte da subjetividade. Logo, a subjetividade vai muito mais além da experiência consciente. Essa é uma das grandes lições que aprendemos com Freud.
2 – QUALIDADES PSÍQUICAS
Esta questão, tão contemporânea, é debatida por Freud ao longo de toda sua obra. No que diz respeito especificamente ao termo consciência seu tratamento por Freud como qualidade é claro já desde o Projeto (1950[1985]/1977), quando atribui a um tipo especial de neurônio, os neurônios w a percepção das qualidades psíquicas, característica central da consciência. Mas será em A interpretação de sonhos (1900/1972), já com um modelo mental consistente, que Freud apresentará a consciência como adscrita ao sistema perceptual, o sistema Pcpt-Cs. “Mas que papel sobra para ser desempenhado em nosso esquema pela consciência, que era outrora tão onipotente e ocultava tudo o mais da vista? Apenas o de um órgão dos sentidos para a percepção das qualidades psíquicas.” (1900/1972: 654)
Esse debate culmina no Esboço de Psicanálise (1940/1975) onde não só a consciência mas também a inconsciência são consideradas como qualidades psíquicas. A consciência é uma qualidade e não uma instância psíquica. A discussão entre instância e qualidade percorre toda a obra de Freud e um momento fundamental desse debate metapsicológico ocorre em O Ego e o Id (1923/1976), onde Freud se mostra incomodado com a ambiguidade do termo inconsciente. No primeiro capítulo retoma sua primeira tópica do aparelho psíquico, na qual distinguia três termos descritivos da situação dos processos mentais: consciente, pré-consciente e inconsciente. Quanto à consciência, é muito claro: “… a psicanálise não pode situar a essência do psíquico na consciência, mas é obrigada a encarar esta como uma qualidade do psíquico, que pode achar-se presente em acréscimo a outras qualidades, ou estar ausente.” (1923/1976: 25) O pré-consciente é o inconsciente no sentido descritivo, ou seja, o grande conjunto dos processos de pensamento que tem acesso à consciência. Seria o que atualmente é chamado de conhecimento declarativo, o conhecimento de fatos que podem ser enunciados proposicionalmente ou evocados imageticamente, composto pelas representações oriundas da percepção em todas as modalidades dos sentidos. (conf. Sternberg R.J., 2008:221ss) Nesse grande conjunto do pré-consciente identifica um subconjunto no qual as idéias não podem tornar-se conscientes espontaneamente pois estão sob a pressão da repressão. Esse é o inconsciente dinâmico ou o inconsciente freudiano propriamente dito. “… restringimos o termo inconsciente ao reprimido dinamicamente inconsciente, de maneira que temos agora três termos, consciente (Cs.), pré-consciente (Pcs.) e inconsciente (Ics.), cujo sentido não é mais puramente descritivo.” (1923/1976: 27)
Mas Freud não esta satisfeito com esta ambiguidade do termo inconsciente:
“Podemos agora trabalhar comodamente com nossos três termos, Cs., Pcs. e Ics., enquanto não esquecermos que, no sentido descritivo, há dois tipos de inconsciente, mas, no sentido dinâmico, apenas um. Para fins de exposição, esta distinção pode ser ignorada em alguns casos; noutros, porém ela é, naturalmente, indispensável. Ao mesmo tempo, acostumamo-nos mais ou menos com essa ambiguidade do inconsciente e nos demos muito bem com ela. Até onde posso ver, é impossível evitar esta ambiguidade; a distinção entre consciente e inconsciente é, em última análise, uma questão de percepção, à qual deve ser respondido ‘sim’ ou ‘não’, e o próprio ato da percepção nada nos diz da razão por que uma coisa é ou não percebida.” (1923/1976:28)
Certamente esta ambiguidade foi uma das razões, entre outras, que levou Freud a introduzir a segunda tópica. Como se pode ver há apenas um passo na direção de considerar os três termos como qualidades do psíquico e não instâncias ou propriedades das representações. E esse passo é dado em seguida e claramente explicitado no Esboço de Psicanálise:
“Atribuímos, assim, três qualidades aos processos psíquicos: eles são conscientes, pré-conscientes ou inconscientes. A divisão entre as três classes de material que possui estas qualidades não é absoluta nem permanente. O que é pré-consciente se torna consciente, como vimos, sem qualquer assistência de nossa parte; o que é inconsciente pode, através de nossos esforços, vir a ser consciente…” (1940/1975:185)
O restante desse capítulo é dedicado a determinar as relações existentes entre as qualidades psíquicas e as instâncias do aparelho psíquico.
Embora a relação entre qualidades e instâncias não seja absoluta nem permanente, Freud aproxima a qualidade da pré-consciência ao eu e da inconsciência ao id. “Id e inconsciente acham-se tão intimamente ligados quanto ego e pré-consciente; na verdade, no primeiro caso, a vinculação é ainda mais exclusiva.” (1940/1975:188) Porque?
Antes de tudo é muito importante ter claro que as qualidades da pré-consciência e da inconsciência devem ser consideradas apenas como indicações da diferença entre as instâncias e não como sua essência. Para Freud os estados psicóticos são uma demonstração de que o que é normalmente inconsciente pode tornar-se consciente, até de maneira espontânea. Coisa que também ocorre com o material que é utilizado para a formação de sonhos. Assim a identificação pura e simples do ego com o consciente e do id com o inconsciente, além de não corresponder ao pensamento freudiano é equivocada.
Consideremos a questão dos afetos. Os processos conscientes que Freud atribui ao interior do organismo, os sentimentos e emoções, que são imediatamente conscientes e nunca inconscientes, são do eu ou do id? Se os processos do id fossem identificados com processos afetivos a qualidade de inconsciente dos processos do id seria contraditória. Esse ponto de vista exporia uma contradição no texto freudiano, que Mark Solms explora em seu texto The Conscious Id (2013). Solms argumenta que Freud foi levado a atribuir a consciência ao eu e a inconsciência ao id pelo conhecimento neurológico da época que atribuía, como ainda hoje o faz, a consciência ao córtex. No entanto as evidências atuais mostram que a consciência não é puramente cortical, mas primordialmente ligada ao tronco encefálico, que abrigaria os processos pulsionais e afetivos que Freud localizava no id.
Solms faz uma diferenciação entre dois aspectos da representação do corpo. O primeiro refere-se aos mapas corticais que consistem em projeções dos receptores sensórios e motores que compõe o corpo exterior (external body) e que é fundamentalmente representado como um objeto. Já o corpo interior (internal body) consiste na representação do aspecto interior do corpo, seu meio interno e autônomo. Essas estruturas situam-se em torno do tronco cerebral. Esse sistema gera um aspecto da consciência que é mais básico que o gerado pelo corpo exterior e é um pré-requisito para esse. Consiste na consciência de estados subjetivos e não de objetos. É o sujeito da percepção, a consciência de uma subjetividade em primeira pessoa. “Acima de tudo, os estados fenomenológicos do corpo-como-sujeito são experimentados afetivamente. Os afetos não emanam das modalidades sensórias externas. Afetos são estados do sujeito.” Solms conclui que os afetos podem ser considerados como uma modalidade sensória introceptiva. “O afeto é uma propriedade intrínseca do cérebro. Esta propriedade é expressa em emoções, e emoções são, antes de tudo, formas peremptórias de descarga motora.” (Solms, 2013: 7)
Uma vez que as estruturas do corpo exterior estão associadas ao ego freudiano e as do corpo interior ao id freudiano, e como a forma de consciência gerada pelo corpo interior é mais básica e fundamental que a consciência do ego, as coisas seriam exatamente ao contrário do que Freud postulou, a qualidade da consciência pertence ao id e da inconsciência ao eu.
No texto de Freud afetos são processos de descarga, como os processos motores. Deve-se distinguir entre afeto e energia. Já tratei longamente desse assunto no capítulo 5 de Categorias conceituais da subjetividade (2007). Basta lembrar aqui que o termo catexia traduz o termo alemão besetzung, que significa aproximadamente investimento. “O verbo besetzen evoca a imagem de um espalhamento que preenche, ocupa e bloqueia espaços.” (Hans, 1996:89) Embora Freud inicialmente usasse de forma equivalente os termos afeto e energia, em O Inconsciente (1915/2006), a propósito da discussão da mecânica do recalque, os distingue claramente: “Toda diferença origina-se no fato de que idéias consistem em cargas investidas – basicamente traços de lembranças – ao passo que os afetos e sentimentos correspondem a processos de descarga cujas manifestações finais são percebidas como sensações.” (1915/2006: 30)
Como processos de descarga, as informações que os afetos trazem dos estados internos do corpo atingem a percepção, dai tornarem-se conscientes.
“No entanto, desde que essas sensações (como as chamamos em contraste com as percepções conscientes) emanam também dos órgãos terminais e desde que encaramos todas elas como prolongamentos ou ramificações da camada cortical, continuamos a poder manter a afirmação feita acima … [o processo de algo tornar-se consciente está, acima de tudo, ligado às percepções que nossos órgãos sensoriais recebem do mundo externo]. A única distinção seria que, em relação aos órgãos terminais de sensação e sentimento, o próprio corpo tomaria o lugar do mundo externo.” (1940/1975: 187).
Constatemos de passagem que, de forma bastante coerente com as teorias atuais, Freud atribuía a primeira forma de consciência ao corpo interior. Por exemplo, ao descrever o papel da consciência na passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade em Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico diz: “A consciência, além de captar as qualidades de prazer-desprazer, as únicas que interessavam até então, aprendeu também a captar as qualidades sensoriais.” (1911/2004: 66)
Embora a abordagem de M. Solms seja bastante pertinente e coerente com o texto freudiano é preciso distinguir entre processos do id e a percepção consciente dos estados afetivos gerados por eles, da mesma forma que distinguimos acima entre as manifestações conscientes dos sintomas neuróticos e os processos de pensamento inconscientes que os geram. Os estados afetivos são resultados dos processos que ocorrem no id e não os processos em si próprios. Da mesma forma que acontece, por exemplo, com a linguagem oral, temos consciência do resultado do processamento linguístico, a sequência de palavras que estamos emitindo. No entanto, todo o processamento necessário para que essa emissão esteja gramaticalmente correta, semanticamente adequada e pragmaticamente relevante nem de longe nos chega à consciência. Não devemos confundir o efeito com o processamento.
A noção do por que os processos do id são tipicamente inconscientes pode ser apreciada na seguinte discussão do início do capítulo II de O Ego e o Id:
Todas as percepções que são recebidas de fora (percepções sensórias) e de dentro – o que chamamos de sensações e sentimentos – são Cs. desde o início. Mas, e aqueles processos internos que podemos – grosseira e inexatamente – resumir sob o nome de processos de pensamento? Eles representam deslocamentos de energia mental que são efetuados em algum lugar no interior do aparelho, à medida em que essa energia progride em seu caminho no sentido da ação. … Em outro lugar já sugeri que a diferença real entre uma idéia (pensamento) do Ics. ou do Pcs. consiste nisto: que a primeira é efetuada em algum material que permanece desconhecido, enquanto que a última (a do Pcs.) é, além disso, colocada em vinculação com representações verbais. Esta é a primeira tentativa de indicar marcas distinguidoras entre os dois sistemas, o Pcs. e o Ics., além de sua relação com a consciência. A pergunta ‘Como uma coisa se torna consciente?’ seria assim mais vantajosamente enunciada: ‘Como uma coisa se torna pré-consciente?’ E a resposta seria: ‘Vinculando-se às representações verbais que lhe são correspondentes’. (1923/1976:32-33)
Na sequência do texto Freud atribui à linguagem a possibilidade de que processos de pensamento se tornem objeto da consciência. Isso se dá por sua ligação com as representações verbais que, “por serem resíduos de lembranças foram antes percepções e, como todos os resíduos menêmicos podem tornar-se conscientes de novo.” (1923/1976:33)
A tradicional distinção entre representação, o conteúdo dos processos psíquicos, e pensamento, o processamento desse conteúdo, ou seja, a forma dos processos psíquicos, rendeu muitas e muitas paginas na discussão epistemológica desde os primórdios da filosofia, inclusive presidindo o nascimento da lógica aristotélica. No contexto teórico de sua época, que Freud conhecia muito bem, (evoca-o brevemente no capítulo VII de A Interpretação de Sonhos (1900/1972: 654)), aparece com clareza no debate histórico em que a escola de Würzburg, liderada por Oswald Külpe, envolveu-se com a escola de Leipzig, liderada por Wundt, sobre a questão do “pensamento sem imagens”. Külpe e seus colegas não consideravam que se pudesse reduzir o pensamento ao conteúdo perceptivo da consciência, defendendo que os processos de pensamento são fundamentalmente inconscientes. August Messer, por exemplo, via a consciência como a parte visível de um iceberg, com a grande maioria dos processos de pensamento ocorrendo abaixo da superfície perceptiva consciente. Wundt não era exatamente contra essa idéia, mas sim que se pudesse estudar esses processos através do método experimental introspectivo. Considerava que as virtudes desse método deveriam restringir-se ao estudo dos processos perceptivos. (ver Gardner, 1996, 117ss)
Ora, processos de pensamento são relações entre representações, relações chamadas de lógicas, como pertinência a uma categoria (a conjunção lógica denotada pelo artigo ‘e’), exclusão de uma categoria (a disjunção lógica denotada pelo ‘ou’ exclusivo), causa e efeito (denotada pelos preposições ‘se…então’), e assim por diante. Ora, a linguagem dispõe de palavras para nomear essas relações, o que permite que os processos de pensamento possam ser percebidos conscientemente. Os processos do ego já estão ligados à linguagem, mas os processos do id precisam ser traduzidos para atingirem a consciência. Ou seja, o que é inconsciente no id são seus processos de pensamento, mas seus efeitos, os afetos por eles gerados, são imediatamente conscientes. Voltaremos a esse ponto na parte 3.
Esse ponto de vista permite entender porque para Freud o delírio psicótico manifesta o inconsciente a céu aberto. Ora o delírio consiste de processos de pensamento (regidos pelo processo primário) que seguem suas próprias leis independentemente de suas relações com a realidade (com as restrições do processo secundário). Isso acontece da mesma forma nos sonhos. No caso dos sintomas neuróticos a incidência do processo secundário e do teste da realidade, mantém os processos que os geram reprimidos. No caso dos sintomas obsessivos evocados acima, eles implicam na crença animista de que o simples desejo pode gerar consequências na realidade por si só, sem passar pela ação. Como no caso do homem dos ratos, o fato dele desejar inconscientemente a morte de seu pai equivale ao parricídio. Essa crença inconsciente não deixa de ser uma peça delirante, mas não aparece como tal na consciência, como o faz nos delírios psicóticos. É necessário o processo analítico de tradução.
Em resumo, as qualidades psíquicas não são o critério seguro para distinguir o ego e o id. “Se as coisas são assim, qual é a verdadeira natureza do estado que é relevado no id pela qualidade de ser inconsciente e, no ego, pela de ser pré-consciente, e em que consiste a diferença entre eles?” (1940/1975:189) Resposta de Freud: não sabemos, mas a resposta deve ser procurada na dinâmica da energia psíquica, nas suas duas formas de ocorrência, livremente móvel e ligada, e na hipercatexia, que faz a síntese entre processos diferentes e incide sobre a transformação de uma na outra. “De qualquer modo, atemo-nos firmemente à opinião de que a distinção entre o estado inconsciente e o pré-consciente reside em relações dinâmicas desse tipo …” (1940/1975: 189).
Notemos ainda que, na citação acima, Freud refere-se à distinção entre o estado revelado pelas qualidades de inconsciente e pré-consciente. Esta visando a algo além das qualidades. Toma a qualidade como indicação da origem de um dado processo mental. De fato essa diferença é expressa através dos pontos de vista, descritivo e dinâmico. As qualidades psíquicas, como dados fenomenológicos são abordadas pelo ponto de vista descritivo. O inconsciente como estado diz respeito ao ponto de vista dinâmico, quer dizer, o recalcado e o id como um todo. O que define os processos do id, do qual o recalcado aparece como sub-conjunto nos textos posteriores a 1920, é a dinâmica da energia psíquica, vale dizer, o modo de processamento e a forma da descarga.
No texto Algumas observações sobre o conceito de inconsciente na Psicanálise (1914/2004) Freud explicita três significados do termo inconsciente para a psicanálise. O primeiro é o inconsciente no sentido geral dos processos mentais, chamado de pré-consciente (Pcs.), o segundo o inconsciente reprimido (Ics.), o inconsciente freudiano propriamente dito e o terceiro o inconsciente como signo. “Atualmente sabemos que a inconsciência é muito mais do que uma característica: é um sinal, uma marca reveladora de que tal processo compartilha a mesma natureza de certa categoria psíquica.” (1912/2004: 89) Assim a qualidade inconsciente de um processo mental é signo de uma categoria psíquica, que neste texto recebe o nome de “o inconsciente”, ainda que Freud esteja ciente da ambiguidade desse termo, o que o leva a propor que se designe pelas letras Ubw, mas que finalmente receberá o nome de id, do qual o reprimido constituirá um sub-conjunto. É a essa característica de signo das qualidades psíquicas que Freud retorna no Esboço.
Assim ego e id não se definem por qualidades psíquicas mas por pertencerem a diferentes categorias psíquicas que são definidas pelas diferentes formas de processamento da energia catexial. Assim, para considerar a diferença entre os processos no ego e no id devemos voltar-nos para os diferentes fluxos da energia mental propostos pelos dois processos mentais, o primário e o secundário. Em seu texto, Solms salienta que Freud considerava esse o seu mais profundo insight. (Solms, 2013:18)
3 – A FUNÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Ao chegar aqui podemos tratar de uma questão fundamental a respeito da consciência: definida como qualidade ela é somente fenômeno acessório, um epifenômeno? Ou ela tem alguma função para a vida humana e, porque não dizer, para o pensamento humano? Para que ela serve? Na maior parte do tempo estamos conscientes dos conteúdos da consciência, mas não da consciência ela própria. Enquanto vivemos estamos capturados pelos objetos que ocupam nossa percepção e pela nossa relação com eles. Quando estamos atravessando uma rua, por exemplo, nossa atenção consciente está no espaço da rua e da calçada, nos carros que estão vindo, na distância e velocidade deles, etc…
Imaginemos agora a seguinte situação: vamos atravessar uma avenida movimentada e estamos atentos ao sinal de pedestres que está a nossa frente. Decidimos atravessar a rua e … ouvimos a freada de um carro muito próxima à nossa esquerda. Nos damos conta de que quase fomos atropelados! Nesse momento nossa consciência da situação se realiza como experiência subjetiva em primeira pessoa: eu estou aqui e quase fui atropelado … o que fiz? … não vi o sinal? … mas como se estava prestando atenção! Costumamos chamar essa repentina ocorrência de tomada de consciência. Kosslyn e Koening (1995) vêem nessas situações exemplos da principal função da consciência: uma checagem da normalidade do funcionamento mental através da percepção de uma dissonância ou desequilíbrio. As situações de dissonância indicam um funcionamento anormal do aparelho psíquico e convocam a atenção para avaliar o que está errado ou anormal. Comparam o funcionamento mental com um instrumento musical soando acordes consonantes. Se repentinamente o som é dissonante, a atenção é convocada para avaliar o que está errado. A percepção dessas qualidades, harmonia ou dissonância, é própria da consciência e sua função é “suspender” o automatismo do funcionamento mental diante de anormalidades, conduzindo a atenção para elas. Essa função provavelmente tem sido fundamental para a sobrevivência da espécie humana e para o desenvolvimento da cultura e pela transformação da natureza promovida pelo homem.
Freud observou um aspecto correlato dessa função de checagem da consciência com o objetivo de preservação do equilíbrio homeostático. No capítulo metapsicológico da Interpretação de Sonhos (1900/1972) identifica a fonte das informações que chegam à experiência consciente:
“A consciência, que examinamos à luz de um órgão dos sentidos para a apreensão de qualidades psíquicas, é capaz, na vida de vigília, de receber excitações oriundas de duas direções: do sistema perceptivo, da periferia do aparelho e excitações de prazer e desprazer que mostram ser quase a única qualidade psíquica que se liga a transposições de energia no interior do aparelho.” (1900/1972: 612)
Ou seja, as informações que originam-se do mundo externo tornam-se conscientes através do sistema perceptual bem como as informações que originam-se do interior do organismo, que tornam-se conscientes como sentimentos de prazer e desprazer.
Mas, como vimos acima, há uma terceira fonte de informações que atingem a consciência humana.
“Processos conscientes na periferia do ego e tudo o mais no ego inconsciente – esse seria o estado de coisas mais simples que poderíamos imaginar. E tal pode ser de fato o estado que predomina nos animais. Nos homens, porém, há uma complicação adicional, através da qual os processos internos do ego podem adquirir também a qualidade de consciência. Este o trabalho da função da fala…” (1940/1975: 187)
Vimos acima que Freud ligou a consciência dos processos de pensamento às representações de palavra, já que a qualidade da consciência é possível uma vez que a palavra tem representação fonética, a imagem acústica. Assim não apenas as representações de coisa (representações visuais, auditivas, tácteis, etc… que formarão os objetos percebidos) mas as relações entre elas, os processos de pensamentos, podem chegar à consciência através da linguagem que dispõe de termos para representar relações. Dessa forma a consciência considerada até então um órgão sensorial somente para percepções tornou-se também um órgão sensorial para uma parte de nossos processos de pensamento.
Para compreender como isso funciona é necessário considerar a função da atenção.
“O tornar-se consciente acha-se ligado à aplicação de uma função psíquica especial, a da atenção, função que, segundo parece, só se acha disponível numa quantidade específica … O curso de nossas reflexões conscientes nos mostra que seguimos um caminho especial em nossa aplicação da atenção.” (1900/1972: 631)
Uma sequência de pensamentos rejeitada ou da qual a atenção foi desviada pode continuar sem a assistência da consciência. Freud constatou isso no estudo dos sonhos, já que um pensamento que foi ativado durante o dia, em seguida esquecido, torna-se, à noite, o fator desencadeante de um sonho. Os atos falhos são também exemplos claros de sequências de pensamento que se desdobram totalmente inobservadas pela consciência. (ver Thá, 2001)
A atenção está relacionada com a distribuição da energia psíquica. Uma determinada quantidade de catexia é deslocada ao longo dos caminhos associativos selecionados por uma idéia intencional. Essa sequência de idéias encontra-se ativada. Uma sequência de pensamentos desprezada (desativada) é aquela que não recebeu essa catexia, está, portanto, em repouso. Já uma sequência suprimida ou repudiada é aquela da qual essa catexia foi retirada, permanecendo, portanto, inibida. Uma sequência de pensamentos capaz de atrair a atenção da consciência para si, recebe uma hipercatexia. Essa sequência de pensamentos está “mais ativada” que as outras, que continuam no pré-consciente, e a consciência se liga a ela. Isso quer dizer que essa sequência de pensamentos, além das catexias normais, recebeu o reforço da catexia de sua ligação com as representações de palavra obtendo o acesso à consciência através da qualidade psíquica dessas últimas.
Isso leva Freud a considerar a questão fundamental da distribuição das catexias na constituição dos dois princípios do funcionamento mental. Ora, as liberações de prazer e desprazer regulam automaticamente o curso dos processos catexiais segundo o processo primário, levando-os à descarga pelos caminhos mais curtos. Para tornar o curso das idéias menos dependente do desprazer, o sistema perceptual precisava adquirir qualidades que pudessem atrair a consciência para os processos de pensamento o que se dá através do sistema mnemônico de símbolos lingüísticos, como descrito acima. Foi possível, a partir dai, a implantação do processo secundário, do adiamento da descarga e da atividade do pensar.
“Por conseguinte, o pensamento tem de visar a libertar-se cada vez mais da regulação exclusiva pelo princípio do desprazer e a restringir o desenvolvimento do afeto na atividade do pensamento ao mínimo exigido para agir como sinal. A consecução desta maior delicadeza de funcionamento é visada através de uma nova hipercatexia, ocasionada pela consciência.” (1900/1972: 641)
Freud descreve a interferência da consciência na distribuição da catexia da seguinte forma. A percepção dirige a catexia da atenção pelos circuitos ativados pelo input. A percepção das qualidades de prazer e desprazer associadas a essa distribuição catexial permite ao órgão sensorial do sistema Cs. influenciar a descarga das catexias, introduzindo nelas uma regulagem mais discriminadora, capaz mesmo de opor-se à automática, capacitando o aparelho psíquico a funcionar mesmo quando o circuito catexial está liberando desprazer. Assim o funcionamento do processo primário é suspenso dando lugar ao processamento secundário. Evidentemente isso é possível pois a “dura realidade da vida” mostrou ao aparelho psíquico que a descarga conduzida pelo processo primário conduz a uma satisfação alucinatória, que evidentemente não resolve a necessidade. É necessário suspender a descarga para chegar ao objeto buscado, obtendo o que Freud chamava de identidade de pensamento em oposição à identidade perceptiva do processo primário. Para isso é necessário que a catexia passe por outros caminhos que levem em conta a realidade conduzindo finalmente à descarga motora, ou seja à ação adequada.
Pela argumentação de Freud, a transformação que se efetua na catexia livre para a catexia ligada tem o desprazer como gatilho. O sinal de desprazer chegando ao sistema perceptual e sendo sentido pela consciência é o que conduz à transformação do processo catexial. Assim a consciência do desprazer é um sinal de fundamental importância na transformação dos processos do id em processos egóicos, pela necessidade de modificação na forma de descarga da catexia. Solms aponta essa função da consciência relacionando-a com os estados subjetivos experimentados afetivamente.
“Esses estados são designados para representar o valor biológico das mutáveis condições internas (ex. fome, excitação sexual). Quando as condições internas favorecem o sucesso reprodutivo e de sobrevivência, eles sentem “bem”; quando não eles sentem “mau”. É para isso que evidentemente os estados conscientes são. Os sentimentos conscientes informam o sujeito quão bem ele esta indo. Nesse nível do cérebro a consciência está intimamente ligada com a homeostase.” (Solms, 2013: 7)
No texto A Negativa (1925/2007) Freud articula os dois modos de funcionamento com a atividade intelectual do julgamento. A atividade do processo primário corresponde ao julgamento de atribuição executada pelo Eu-prazer, que decide se uma coisa é boa ou má, se deve ser introjetada dentro do ego ou expelida para fora dele. A atividade do processo secundário corresponde ao julgamento de existência executada pelo Eu-real-definitivo. Trata-se de saber se algo que está presente no aparelho psíquico sob a forma de uma representação pode ser reencontrada na esfera da percepção, ou seja, na realidade.
“A experiência ensinou à psique que não é somente importante saber se uma coisa (objeto de satisfação) possui uma qualidade ‘boa’, isto é, se merece ser acolhida no Eu, mas, também, se ela esta presente no mundo externo, de modo a que seja possível apoderar-se dela conforme surja a necessidade para tal.” (1925/2007: 149)
Essas idéias ecoam as formas de satisfação definidas por Freud na Interpretação de Sonhos. O processo primário busca a identidade alucinatória do objeto de satisfação enquanto que o processo secundário a identidade de pensamento. Ora, a identidade de pensamento é o teste de realidade, ou seja, certificar-se que o objeto de satisfação também existe na percepção, que é o único acesso à realidade, ao que está fora do aparelho psíquico. Para certificar-se disso é necessário interromper a identidade alucinatória, tolerando o desprazer provocado pela suspensão da descarga, e percorrer os caminhos do pensamento, até que a ação motora possa ser determinada pelo ego.
Se é certo que a consciência é um efeito, esse efeito tem uma função nobre e fundamental para a espécie humana: sua possibilidade de interferir no curso dos processos mentais de forma a interferir em seu funcionamento, visando à preservação do equilíbrio homeostático. Ao sinal de desprazer a atenção é convocada para avaliar o que está errado, suspendendo o automatismo do funcionamento mental. A função da Cs., de influenciar a fluxo da catexia pela percepção das qualidades de prazer/desprazer, combinada com a possibilidade do acesso consciente aos processos de pensamento via linguagem, possibilitaram o que há de mais específico e próprio ao psiquismo humano. Isso permite que, ao ter consciência de seus pensamentos, o ego possa exercer a função regulatória sobre o fluxo da cataxia também sobre o próprio processo secundário. Já que pensamento é ação interiorizada e torna-se ensaio para a ação, isso dota o homem da capacidade contrafatual.
“O valor da hipercatexia que é estabelecido nas quantidades móveis pela influência reguladora do órgão sensorial da Cs. não pode ser melhor ilustrado em seu aspecto teleológico que pelo fato de sua criação de uma nova série de qualidades e, consequentemente, de um novo processo de regulação que constitui a superioridade do homem sobre os animais.” (1900/1972: 655)
Talvez a característica distintiva do mundo humano seja a resultante da atuação da consciência sobre o processo primário através da consciência afetiva e sobre o processo secundário através da consciência linguística. Ambas parecem ser o caminho para o verdadeiro mundo humano, o universo de mundos possíveis, as diversas maneiras que o mundo poderá ser no futuro, como poderia ter sido no passado, ou poderia ser no presente. Esses mundos possíveis são o que comumente chamamos de sonhos, planos, hipóteses, ficções, etc… São os produtos de nossa capacidade para a fantasia, não só no sentido de criá-la mas de vivenciá-la, como mostra nossa histérica que vomitava porque julgava que estava grávida. É com ela que nós mergulhamos no mundo do sentido, criando histórias, inventando idéias, imaginando mundos alternativos e mudando o mundo atual. E, principalmente, dando sentido a nossas vidas.
REFERÊNCIAS
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