A neuropsicanálise não é uma escola dentro da psicanálise, como normalmente denominam-se as inflexões doutrinais derivadas de grandes pensadores, como a escola kleiniana, lacaniana, etc… É essencialmente um fórum de debates. Trata- se de estabelecer um diálogo entre a psicanálise e as neurociências. Somente isso já é uma novidade para muitos psicanalistas e neurocientistas. Ainda vivemos uma situação em que um olha para o outro com suspeita. Os neurocientistas alegando que a psicanálise não é uma ciência e que sua teoria pertence ao passado não tendo mais relevância para os dias de hoje. Os psicanalistas, afirmando que a neurociência é simplista e reducionista, refugiam-se em seu bunker temendo que ela, com a ajuda da sociedade consumista atual, acabe por eliminar a psicanálise. Propor um diálogo implicitamente implica que ambos os lados deponham as armas e passem a tentar se entender. E esse diálogo é necessário porque estamos vivendo um momento da história do conhecimento em que ele tornou-se possível e extremamente enriquecedor, considerando que a finalidade de ambas as disciplinas é a mesma: o conhecimento científico dos fenômenos mentais. Como a psicanálise e a neurociência estudam o mesmo objeto, mas de pontos de vista diferentes, o diálogo entre essas disciplinas poderá proporcionar um ganho significativo em nosso conhecimento dos fenômenos mentais.
I – INTRODUÇÃO
1.1 – O SÉCULO XIX – a inclusão da subjetividade
Para entender porque esse é o momento da história em que esse diálogo é possível, temos que voltar um pouco para o passado e considerar alguns momentos fundamentais dessa história. Em termos científicos tudo começou no momento histórico que assistiu ao nascimento da psicologia científica, momento em que se tentou a inclusão da subjetividade no pensamento científico.
A ciência veio ao mundo no Século XVII como a ciência da natureza, dedicando-se ao estudo da física, da química e gradativamente da biologia. Os fenômenos mentais continuaram a ser objetos de estudo da filosofia e tiveram um desenvolvimento significativo paralelamente ao progresso das ciências naturais. Desde Descartes até Kant, o debate entre racionalistas e empiristas foi moldando uma concepção de mente que podemos chamar de mente representacional. Esse modelo concebe os fenômenos mentais complexos como formados por unidades simples, as idéias ou representações (vorstellung), oriundas ou não da percepção, que se combinam para formar os processos de pensamento que resultam na emissão de juízos. Uma espécie de química mental, nas palavras de J.S. Mill. Mesmo consideradas as diferenças entre racionalistas e empiristas, a grosso modo esse modelo é compartilhado por ambas as vertentes e encontrou na Crítica da Razão Pura de Kant sua expressão mais elaborada.
Já no campo das ciências biológicas, a fisiologia do sistema nervoso seguia um caminho de inúmeras descobertas. Em 1833, Marshall Hall, um médico escocês que trabalhava em Londres, introduziu o termo arco reflexo, o princípio básico da ação que conecta impressões sensoriais a atividades motoras, que observou em animais decapitados. Johannes Müller estendeu esse conceito para o funcionamento cerebral, abrindo a porta para a concepção de reflexo como a unidade básica da ação nervosa. Em 1888, Ramón y Cajal isolou as unidades básicas do sistema nervoso, os neurônios. E perto do final do Século, Luigi Galvani sugeriu que a natureza dos impulsos nervosos era elétrica. Também devemos evocar o surgimento do método anátomo-clínico desenvolvido por Paul Broca e sua famosa localização da área da linguagem e as idéias do neurologista inglês Hughlings Jackson sobre a organização hierárquica da mente. A termodinâmica também era usada para compreender o funcionamento neurobiológico. Helmholtz e Du Bois-Reymond defendiam que o comportamento é motivado e regulado por forças e energias que, de alguma maneira, repousam sobre processos físico- químicos.
Foi o casamento dessas duas vertentes que desembocou no nascimento da psicologia experimental, cuja certidão foi lavrada por Wilhelm Wundt em 1879 quando funda na Universidade de Leipzig o primeiro laboratório de psicologia, cuja finalidade era estudar os fenômenos mentais com os métodos das ciências naturais. Para salientar exatamente qual era a questão central nesse casamento evoco um caso curioso que estava presente na agenda da época, mais precisamente um erro, chamado com o nome pomposo de equação pessoal dos astrônomos. (Para maiores detalhes ver Schultz, D.P. & Schultz S. E. (2000) História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cultrix)
Era o ano de 1795. O astrônomo real da Inglaterra, Nevil Maskelyne, percebeu que seu assistente sempre registrava um intervalo menor que ele na observação do tempo que uma estrela levava para passar de um ponto a outro. Apesar dos alertas para que tomasse mais cuidado, as diferenças não só persistiram como aumentaram, chegando a oito décimos de segundo de diferença em relação às medições do astrônomo real. O infeliz assistente foi dispensado. Vinte anos mais tarde um astrônomo alemão de nome Wilhelm Bessel, retomou o caso e suspeitou que os erros do assistente de Maskelyne fossem por diferenças individuais advindas de fatores pessoais sob os quais não se tem controle. Se isso fosse correto, essas diferenças apareceriam na experiência de qualquer astrônomo. Testou suas hipóteses e constatou que esses desacordos eram corriqueiros, mesmo entre astrônomos experientes.
Vemos ai aparecer o papel do observador humano, com suas características pessoais influenciando sua percepção. Esse fato introduzia um fator puramente subjetivo na atividade perceptiva. Relacionava os processos psicológicos da sensação e da percepção com seus mecanismos fisiológicos. Abria-se a porta para a investigação experimental dos fenômenos psicológicos. Os primeiros a passar por essa porta foram Hermann von Helmholtz, Ernst Weber, Gustav Theodor Fechner e Wilhelm Wundt. Desses nos interessa aqui especialmente Fechner.
Reza a lenda que em 22 de outubro de 1850 Fechner acordou e, ainda na cama, vislumbrou que a lei que governa o vínculo entre o corpo e a mente poderia ser estabelecida a partir da relação quantitativa entre a sensação mental e o estímulo material. Enquanto o estímulo material aumenta em uma série geométrica a sensação mental reponde em uma série aritmética. Por exemplo, se acrescermos uma sineta a outra que já está tocando teremos uma sensação auditiva de acréscimo maior se essa sineta for acrescentada a 10 que já estão tocando. Como resultado de uma série de experimentos, onde usou o limiar deferencial (não absoluto) da sensibilidade, pode estabelecer a fórmula matemática dessa lei: S = KlogR onde S é a sensação, R a magnitude do estímulo e K uma constante. Trata-se da conhecida lei de Fechner. Isso significa que a qualidade da sensação mental depende da quantidade do estímulo material.
Trago esse conhecido exemplo para mostrar como a questão mente/corpo era a principal pauta da agenda desses pioneiros. Quando do casamento da filosofia com a fisiologia não foi somente o método que foi importado dessa última, mas principalmente o lado corpo da questão da relação mente/corpo. Tanto é que a obra magna de Wundt intitula-se Princípios de Psicologia Fisiológica. (1873/74).
Isso tudo para lembrar que Freud comungava dessa tradição. Refere-se a ele como o “grande Fechner” (Freud, S. (1900) Interpretação de sonhos, Ed. Standard Brasileira, vol. V. Rio: Imago, pag 572) nas linhas iniciais da apresentação de seu primeiro modelo do aparelho psíquico, quando credita a ele a idéia de que a cena de ação dos sonhos é diferente daquela da vida de vigília. Também é dessa tradição a idéia fundamental da teoria psicanalítica de que todos os impulsos conscientes estão relacionados com o prazer e a dor que, por sua vez estão relacionados com as condições de estabilidade e instabilidade do sistema nervoso. Essa idéia pode ser encontrada em Fechner e Helmholtz. (Para uma abordagem bastante abrangente das influências que Freud recebeu dos pensadores dessa época ver Kitcher, P. (1995) Freud’s dream. A Complete Interdisciplinary Science of Mind. Cambridge: MIT press)
Freud não só comungava dessa tradição, que lhe forneceu muitos dos mais importantes pressupostos teóricos, como encontrou-se com a questão mente/corpo em sua própria atividade científica. Veremos isso mais adiante. Lembro aqui que Lacan refere-se ao pertencimento de Freud a essa tradição em La science et la vérité.
“Nós dizemos, contrariamente àquilo que se alega de uma pretensa ruptura de Freud com o cientificismo de seu tempo, que é esse mesmo cientificismo que designamos em sua fidelidade aos ideais de um Brücke, eles próprios transmitidos pelo pacto no qual um Helmholtz e um Du Bois-Reymond devotaram-se a fazer entrar a fisiologia e as funções do pensamento, consideradas como ai incluídas, nos termos matematicamente determinados da termodinâmica, que chegou a seu acabamento quase completo naqueles tempos, que conduziu Freud, como seus escritos nos demonstram, a abrir a via que desde sempre leva seu nome.” (Lacan, J. (1966) Ecrits. Paris: Ed. Du Seuil. pag. 857. O pacto ao qual Lacan se refere foi feito por quatro jovens cientistas (entre os quais Helmholtz) num juramento solene, assinado com o próprio sangue, que afirmava que as únicas forças ativas no organismo são as forças físico-químicas comuns.)
O que aconteceu com essa psicologia experimental que procurava entender as leis que governam as relações mente/corpo?
1.2 – O SÉCULO XX – a exclusão da subjetividade
Infelizmente sua vida foi curta. Nos primeiros banhos nessa criança recém-nascida, ao jogar fora a água suja da bacia jogou-se a criança junto. Há muitos fatores em jogo, mas, no que toca especificamente a questão mente/corpo dois são especialmente relevantes: o comportamentalismo e o formalismo. Ambos abrigam-se no grande guarda chuva do objetivismo que dominou a weltanshaung científica do Século XX.
Vou apresentar essa tese fundamental através de um de seus maiores nomes. Gottlob Frege, o lógico que estabeleceu o cálculo proposicional, dedicou-se também ao problema semântico das linguagens naturais, e, em um texto intitulado Sobre o sentido e a referência, distingue três níveis no significado das expressões linguísticas: a referência (bedeutung), o sentido (sinn) e a representação (vorstellung):
“Se a referência de um sinal é um objeto sensorialmente perceptível, minha representação é uma imagem interna, emersa das lembranças de impressões sensíveis passadas e das atividades, internas e externas, que realizei. Essa imagem interna está frequentemente saturada de emoções; a claridade de suas diversas partes varia e oscila. Até num mesmo homem, nem sempre a mesma representação está associada ao mesmo sentido. A representação é subjetiva; a representação de um homem não é a mesma de outro. Disto resulta uma variedade de diferenças nas representações associadas ao mesmo sentido. Um pintor, um cavaleiro e um zoólogo provavelmente associarão representações muito diferentes ao nome “Bucephalus”. A representação, por tal razão difere essencialmente do sentido de um sinal, o qual pode ser a propriedade comum de muitos, e portanto, não é uma parte ou modo da mente individual; pois dificilmente se poderá negar que a humanidade possui um tesouro comum de pensamentos, que é transmitido de uma geração para outra.” (Frege, G. (1892/1978) Sobre o sentido e a referência. in Lógica e filosofia da linguagem. SP: Cultrix/Edusp, pag. 59-86)
Nesse parágrafo distingue claramente três níveis ontológicos: a referência (nível 1) de um nome é o próprio objeto designado, o nível físico dos objetos do mundo sensorialmente perceptíveis; a representação (nível 2) que se tem dele é inteiramente subjetiva, um nível mental que contém as representações e imagens; entre ambos está o sentido (nível 3) que não é subjetivo como a representação e também não é o próprio objeto representado (nível 3), é o nível do pensamento, onde estão os sentidos, os conceitos, as proposições, a linguagem, as funções. É importante salientar que para Frege tanto a referência quanto a representação só são atingidos através do sentido. Ele é o primeiro nível que acessamos, e que indicará sua referência e evocará uma representação.
Muito bem. Se queremos fazer ciência temos que excluir o nível das representações, pois ele é inteiramente subjetivo, pessoal, singular e depende da vida pessoal. Não é possível produzir um conhecimento objetivo, que possa ser partilhado e testado por quem quer que seja, que possa ser formulado matematicamente com representações subjetivas, tão evanescentes quanto as nuvens. Logo, é necessário excluir a subjetividade (o psiquismo, o chamado nível mental) da investigação. Esse foi o motivo central para o abandono do método de investigação adotado pelos pais da psicologia (o método introspectivo), pois ele incluía avaliações subjetivas nos procedimentos experimentais.
Esse ponto de vista espalhou-se como fogo na palha pelo continente europeu, influenciando todas as chamadas ciências humanas. A linguística estrutural de F. de Saussure foi pioneira nessa tradição que iria influenciar profundamente o pensamento francês. Com o desenvolvimento da lógica simbólica, das máquinas algorítmicas de Turing, implementadas em computadores reais, originou a famosa teoria simbólica da mente, na qual pensar é calcular, ou seja, a mente pode ser vista como uma linguagem formal, cujo funcionamento é desprovido de significado. A partir dos anos 50 deu origem à primeira geração da psicologia cognitiva. Também nessa época chegou até a psicanálise, através da leitura estruturalista de J. Lacan.
Do outro lado do mundo, na América, o objetivismo gerou o comportamentalismo de Watson e Skinner, tendo chegado também à linguística com Bloomfield. A mente não existe como objeto de estudo, apenas o comportamento. Todos sabemos no que isso deu. O fato é que a mente subjetiva, recém chegada ao campo da psicologia, foi rapidamente excluída da empreitada científica. (Para uma abordagem mais completa sobre o formalismo ver Thá, F. (2007) Categorias Conceituais da Subjetividade. São Paulo: Annablume)
Já as ciências biológicas, como a neurociência, a psicofarmacologia, a genética, etc… seguiram seu caminho de objetividade investigando o cérebro e progredindo exponencialmente em termos metodológicos com toda a parafernália fornecida pelo desenvolvimento da tecnologia.
A psicanálise, apesar dos pesares e de seu esfacelamento em inúmeras escolas, foi o campo onde a mente subjetiva continuou a existir, com suas emoções, seus medos, seus desejos e suas alegrias. As duas vertentes que haviam se encontrado no ocaso do Século XIX, estavam irremediavelmente separadas. O corpo, objeto de investigação da neurociência seguia um caminho paralelo à realidade viva da mente. Foi a era da mente seca.
3 – O Século XXI – o retorno da subjetividade
O objetivismo reinante no Século XX chegou a seu limite nos seus últimos anos. As várias disciplinas do campo multidisciplinar das ciências cognitivas começaram a produzir evidências de que a mente subjetiva não podia ser considerada como um puro processador formal de informações nem excluída da consideração causal dos comportamentos humanos. Mais ainda, não se podia conceber uma mente humana fora do corpo humano. Este é relevante para compreender os fenômenos mentais, mais que relevante, essencial. Entramos na era da mente molhada, no dizer de S. Kosslyn.
Na psicologia cognitiva a imagética mental e os trabalhos sobre raciocínio e tomada de decisão vieram mostrar que o pensamento humano não se assenta sobre um processamento algorítmico sequencial, mas inclui a imaginação, depende da experiência subjetiva, assenta-se sobre estratégias heurísticas muito pouco racionais. Na linguística as abordagens lógico-formais encontraram seu limite no tratamento semântico das linguagens naturais, abrindo espaço para a influência do corpo e da experiência na formação dos significados e até na determinação sintática. Na inteligência artificial o processamento serial encontrou seu limite na simulação dos mais básicos processos cognitivos humanos, como a percepção, abrindo espaço para novas concepções sobre o processamento da informação. Na neurociência surgiram estudos em diversas árias (estudos de neuroimagem, de animais, de neuropsicologia experimental, de psicologia experimental, além de estudos teóricos e em inteligência artificial) que começaram a incluir aspectos subjetivos que mostraram que as emoções e o corpo são altamente relevantes para a compreensão do funcionamento cerebral.
Como resultado a psicanálise foi convocada de volta às fileiras da ciência. e desde os anos 90 há uma crescente troca entre psicanalistas e neurocientistas. Nesse ponto são de fundamental importância a publicação de dois artigos de Eric Kandel, ganhador do prêmio Nobel de Medicina em 2000 por seu trabalho sobre a transmissão de sinais entre células nervosas do cérebro humano. A convite do American Journal of Psychiatry ele publicou dois artigos: em 1998, A new intelectual framework for psychiatry e em 1999, Biology and the future o psychoanalysis: A new intelectual framework for psychiatry. Neles Kandel nota que “psychoanalysis still represents the most coherent and intellectually satisfying view of the mind that we have” (1999, p. 505). Defende que a psicanálise oferece aos neurocientistas o ponto de partida mais apropriado para suas pesquisas e oferece um número de sugestões de tópicos de pesquisa de relevância, assim como suporta a idéia mesma de pesquisa em psicanálise. Além disso sugere uma fusão da psicanálise com a neurociência, como o “ novo melhor modelo intelectual para a psiquiatria”.
Um nome chave nesse diálogo é Mark Solms que desde os anos 80 vem produzindo conhecimento nesse campo. Tentando identificar um modelo de funcionamento cerebral que acomode a natureza psicodinâmica do funcionamento mental, iniciou pelo estudo neuropsicológico dos sonhos e seguiu com estudos clínicos de pacientes neurológicos.
Finalmente gostaria de considerar duas objeções que os psicanalistas costumam fazer a esse diálogo. A primeira delas é que na psicanálise trata-se do mental, não do orgânico. Caímos aqui na velha questão mente/corpo. Isso exige uma posição clara nessa questão que muitos psicanalistas estão longe de assumir conscientemente. O fato é que, sendo freudianos, a posição que o diálogo adota é a de um monismo ontológico combinado com um dualismo epistemológico. A segunda objeção é que na psicanálise lidamos com o pessoal, com a produção singular de significados de uma vida particular e não com conhecimentos universais como ocorre com a ciência. Esses esquecem que Freud não hesitou em criar uma metapsicologia, ou seja, um modelo universal de funcionamento do aparelho mental, a partir de suas observações clínicas individuais.
“Essa tensão entre os reinos subjetivo e objetivo, entre análise e ciência e a consideração de campos como a psicanálise e a filosofia não é uma consequência de conhecimento científico insuficiente ou de desenvolvimentos profissionais, mas uma característica fundamental da condição humana.” (Fotopoulou, A. (2012) The history and progress of neuropsychoanalysis. in Fotopoulou, A., Pfaff, D & Conway, M. A. From the Couch to the Lab. Trends in Psychodynamic Neuroscience. Oxford: Oxford University Press )