Quem tem e-mail ou circula pela internet certamente já recebeu ou viu aquele monte de ilustrações onde aparecem pessoas em situações sociais – numa mesa de restaurante, numa reunião de amigos num parque, dentro do carro, etc… – em que todas estão olhando e manipulando seus celulares ou tablets. Esses dias recebi um desses no qual as pessoas eram crianças em situações muito sugestivas, uma delas bastante simbólica: os brinquedos com expressão muito amuada indo embora enquanto a menina estava mergulhada em seu tablet, totalmente indiferente ao que acontecia a sua volta. O e-mail trazia como título: “Para onde vamos? Está certo?” Uma boa pergunta cuja resposta é incerta, embora eu ache que os brinquedos sabem muito bem para onde estão indo !!!
CON … SUMIDOR
Nós vivemos tempos curiosos. Desde que o homem se conhece como tal suas organizações culturais já lhe forneceram várias formas coletivas de identificação, indicando maneiras de como ele deve conceber-se, ou seja, compreender o que ele é. Acompanhando a linha do tempo constatamos que estes padrões identificatórios vão descendo gradativamente do céu para a terra, e nesta para o indivíduo. A sociedade contemporânea gira em torno da mercadoria, nome genérico para a variedade de bens que são oferecidos nesse mercado global que virou o planeta. O que sustenta a cadeia produtiva que culmina na mercadoria é seu ponto final. O homem consumidor, também chamado de cliente, o padrão ao qual todos nos identificamos.
SEREI EU UM DIA DESCARTÁVEL TAMBÉM?
Fazer tipologia sempre foi uma tentação da razão. Afinal, nós não conseguimos viver se não colocarmos o mundo dentro de categorias, classificando todos as coisas que vemos diante de nós. Não vou resistir a essa tentação e vou também fazer classificações. O homem contemporâneo é tão curioso que classificar seus diferentes aspectos em determinados tipos gerais pode ser um agradável exercício do pensamento.
Sabemos que vivemos uma vida dupla, embora frequentemente não nos agrade saber disso. Um de nós vive como um Adão expulso do paraíso: cumprindo seus deveres, acordando cedo, suando para ganhar seu dinheirinho, aguentando chefes irritados, parceiros queixosos, etc… etc… etc… Outro de nós continua vivendo no paraíso em sua fantasia, o que não quer absolutamente dizer que essa vida não seja real, ela é tão real como a outra, para muitos a verdadeira vida. Essas fantasias tem muitas maneiras sutis de inserirem-se na vida concreta. Nossa sociedade atual, dominada pelo consumo e pela escandalosa oferta de bens, tornou-se especialista em fornecer meios de concretizar fantasias sem corromper seu estatuto de fantasias. E isso acabou gerando identificações à padrões aos quais as pessoas aderem para sentirem-se pertencentes e usufrutuárias do que há de mais moderno e atual na sociedade. Fora disso não há felicidade !!!
Vamos começar por um desses tipos gerais, o homem descartável e procurar a fantasia que nele se realiza.