O CISCO E A TRAVE

Os homens não são exatamente as criaturas mais honestas consigo próprias. Seguramente, se perguntarmos a qualquer um quem é a pessoa mais honesta que ele conheçe, muito provavelmente apontará para si próprio. No entanto, basta escutar o que essa pessoa diz de si e observar a forma como ela age para constatar que, ou ela está deliberadamente mentindo sobre si própria, ou ela não tem a menor idéia de que ela não é aquilo que ela pensa que é.

Lembro-me de como me defrontei pela primeira vez com essa constatação. Não lembro que idade tinha, talvez estivesse na puberdade ou começo da adolescência. Seguindo a tradição familiar, aos domingos todos colocávamos nossas melhores roupas e íamos à missa. Era uma cidade do interior e a missa dominical era o grande acontecimento social da semana. Lá eu via as pessoas jurarem amar o próximo, praticar a caridade, acolher os pecadores, não atirar a primeira pedra, e assim por diante. Pediam a ajuda da graça de Deus para praticar tudo isso. Me pareciam sinceramente imbuídas das melhores intenções. Acabava a missa e todos voltavam para suas vidas. E eu me espantava ao ver essas mesmas pessoas que juraram amar ao próximo se tornarem cruéis, criticando e menosprezando seus semelhantes impiedosamente. Atiravam não só a primeira pedra, mas a pedreira inteira. Eu ficava olhando aquilo e pensando: o que acontece com as pessoas? Elas não percebem que seu comportamento é francamente contraditório com as crenças que professam? Será que elas são intelectualmente deficitárias que não conseguem fazer as relações entre o que fazem e o que crêem? Por que aquilo que elas fazem não interfere naquilo que elas acreditam e vice-versa?

Além de me fazer desacreditar em manuais de auto-ajuda e em profissão de bons princípios, essa questão me acompanha desde então. Hoje vejo que meu espanto de adolescente é parente do espanto que tive ao descobrir que estamos girando, porque a Terra está girando. O problema é que nossos sentidos nos garantem que estamos parados. A certeza tão evidente que eles nos dão nos faz pensar que supor que estamos girando é uma doidice de nossa imaginação. Mas não é, nós estamos girando, imperceptivelmente nos movimentando junto com a Terra e todo o universo.

Há muito os filósofos têm questionado as certezas que advém de nossa percepção. A origem mesma do empreendimento filosófico e científico ocidental está na prática metódica da dúvida. Mas nosso senso comum não é nada filosófico, ele constrói suas teorias inteiramente baseado na experiência perceptiva. Todos nós temos um senso comum, ou seja, uma teoria compartilhada do mundo com a qual navegamos no mundo e nos entendemos com nossos semelhantes. Essa teoria abriga a grosso modo três partes: a primeira, referente ao mundo, que nos explica como ele é e como devemos agir nele; a segunda, referente aos outros, como são nossos semelhantes, como entendê-los e como agir com eles; e a terceira e mais importante, referente a nós próprios, quem somos e o que queremos.

Essa última é a parte mais importante porque sem um “eu” separado e independente do mundo e dos outros eu não existiria. Mas só me é possível enxergar o mundo e os outros a partir de “eu”. Estamos todos confinados em nossa experiência subjetiva. O mundo que tomamos por real é o mundo que nós percebemos mas não podemos saber se o mundo é assim mesmo como nós o percebemos. Supomos que alguém nos ama, ou odeia, ou admira, ou despreza. Conhecemos esses sentimentos porque nós próprios os experimentamos. Não podemos entrar no corpo do outro para saber se ele nos ama, se é amor aquilo que ele sente por nós. Na verdade nós inferimos isso a partir de seu comportamento. Como nós só podemos experimentar nossa própria vivência subjetiva, para supor que o outro tem os mesmos sentimentos que nós, observamos o que ele faz e o que ele diz. E usamos o conhecimento que obtemos de nossa experiência subjetiva para dar sentido ao que vemos e ouvimos.

Ocorre que muitas vezes o que vemos não coincide com o que ouvimos. Como no exemplo que evoquei acima, ouvimos as pessoas jurando amar o próximo e as vemos menosprezar o próximo. Como nós sabemos por experiência que amar e menosprezar não são o mesmo sentimento, pensamos que a pessoa é desonesta com relação ao que diz. E aí buscamos explicações para essa dualidade contraditória que vemos. E essas explicações podem ser muitas. Mas não vou me delongar sobre isso, pois quero apenas salientar um fato extraordinário a esse respeito. Nós vemos muito facilmente nos outros essa desonestidade, jamais em nós mesmos. Nunca aplicamos a nós mesmos os mesmos critérios que aplicamos aos outros.

  • “Mas você disse que amava o próximo e o tratou como um animal!”
  • “Não, você não está compreendendo bem.” “Você percebeu mal.” “Eu não tinha essa intenção.” “Foi um mal entendido.” etc… etc… etc…

É aquele antigo dito: Por que apontas o cisco no olho de teu irmão se não vês a trave que tens no teu?

Mantidas as devidas proporções, isso corresponde, no exemplo da Terra girando, por um lado ao saber que a Terra gira e, por outro, ao meu sentimento subjetivo de estar parado. Os outros podem ser desonestos. Eu nunca me vejo desonesto.

Afinal, se nós construímos o mundo externo a partir de nosso próprio eu, o resultado é que construímos o nosso mundo, a realidade na qual vivemos, que certamente tem laços com o mundo externo, mas que não coincide com ele. Trata-se, para cada um, de um mundo privado no centro do qual, entronados na cadeira real, estamos nós e nossas crenças fundamentais. E a mais importante e fundamental de todas essas crenças é a que diz respeito a nós mesmos. Lá nós continuamos sendo Sua Majestade, o Bebê.

SALVA VERITATIS

Os recentes acontecimentos em nosso país me estimularam a compartilhar aqui mais algumas reflexões que venho fazendo sobre os caminhos da civilização, passados e atuais. Elas devem muito a minha leitura de Freud e a meu afazer clínico. Para pensar os grandes grupos humanos e sua história, dois textos de Freud são fundamentais: O Futuro de uma Ilusão e O Mal Estar na Civilização. Por essa razão resolvi criar uma nova categoria e batizá-la de A civilização e suas ilusões. Mas há um pequeno texto de Freud – central no diálogo que abro com este post e que espero continue por outros mais – que contém ideias tão fascinantes que têm me servido de referência para tentar compreender os avatares da vida humana e de suas organizações sociais diante da realidade do mundo. Trata-se de Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. 

Esses acontecimentos recentes me relembraram passagens bastante ilustrativas da história do pensamento que nos ensinam muito acerca do funcionamento de nossas crenças. Dentre as várias situações semelhantes ao longo da história há uma que me parece muito pertinente e que passo a relatar.

No século XIII uma das grandes mentes da história da filosofia escrevia uma obra magna, intitulada Summa Theologica. Trata-se de São Tomas de Aquino, o pensador que reconciliou a filosofia cristã com a filosofia aristotélica. Esta última, ao ser introduzida na Europa pelos árabes, foi vista como problemática e mesmo herética num mundo dominado pela tradição platônica cristã, que subordinava a capacidade de produção de conhecimento da razão humana à fé. Os tratados aristotélicos não só versavam sobre metafísica, lógica e ética, mas também sobre física, biologia e astronomia. Buscavam o conhecimento do mundo natural baseado na observação dos fenômenos e em sua explicação pela razão. Uma magnífica metáfora desse momento foi criada por Umberto Eco em seu romance O Nome da Rosa. Não só São Tomás foi contra a corrente, aproximando a racionalidade “empírica” aristotélica à teologia cristã como produziu a mais famosa demonstração racional da existência de Deus, articulando fé e razão. Antes de sua obra tornar-se a principal referência do pensamento cristão do fim da Idade Média e uma das principais de todos os tempos, ela foi censurada em Paris em 1277.

Ocorre que esse filósofo corajoso, criativo e comprometido com a racionalidade enfrentou, já em seu tempo, um problema que viria a mudar o curso da história da humanidade alguns séculos mais tarde, a questão astronômica do centro do sistema planetário. Os conhecimentos da natureza física não podiam ser tomados independentemente de seus pressupostos metafísicos e teológicos. Ora, o modelo aristotélico da natureza partia de pressupostos teóricos derivados de sua concepção de matéria e da visão do cosmo hierárquico. Este era constituído por esferas por onde circulavam os corpos celestes cujo centro era comum e ocupado pela Terra. Esse modelo era uma exigência da visão de um cosmo harmonioso e perfeito. Ele já havia sido criticado pelos astrônomos de Alexandria, que demostraram que o modelo aristotélico não salvava os fenômenos, ou seja, não representava adequadamente o que as observações e os cálculos revelavam. Sabemos no que essa questão vai resultar nas mãos de Copérnico e Galileu: na fundação da ciência moderna com todas as consequências que isso representou para o pensamento e para a vida da humanidade.

No entanto, São Tomás defende Aristóteles contra os astrônomos de Alexandria com o seguinte argumento: os astrônomos baseavam suas hipóteses em observações e cálculos, enquanto que a doutrina aristotélica as deduzia dos primeiros princípios, sendo, portanto, mais verdadeira. A verificação empírica de uma hipótese não pode ser argumento conclusivo para aceitá-la, pois ela é limitada e imperfeita e não pode suplantar os princípios metafísicos estabelecidos racionalmente nem as verdades universais deduzidas logicamente. É mais importante salvar a verdade dos primeiros princípios do que salvar os fenômenos.

Dessa história quero salientar duas coisas. A primeira é a assunção de verdade relativa aos primeiros princípios. Isso quer dizer que as crenças básicas e fundamentais de um sistema, sobre as quais todo ele se constrói, são aceitas como verdadeiras. Para elas não há necessidade de confirmação ou verificação. São tomadas como verdadeiras por si próprias. Aceitá-las é um ato de fé, não de razão, embora elas possam sustentar todo um edifício aparentemente racional. A segunda é que os dados que venham a contradizer ou questionar a verdade dessas crenças fundamentais, sejam eles derivados da observação direta ou de argumentação lógica, são ignorados no que diz respeito a sua capacidade de atingir essas crenças fundamentais. É preciso, acima de tudo, salvar os crenças básicas. Aqui a política da avestruz é sempre muito bem vinda. Tem problemas vindos de fora? Enfia a cabeça nas crenças que eles desaparecem!

O exemplo de São Tomás de Aquino é muito ilustrativo, pois trata-se de um homem intelectualmente honesto e comprometido com a racionalidade humana. Não hesitou em incorporar o pensamento aristotélico à filosofia cristã enfrentando o status quo de seu tempo. Mas quando se tratou de questionar os primeiros princípios, agiu como um homem comum, salvando suas crenças fundamentais, pois precisava salvá-las. Era um homem de fé e o edifício da fé não podia ser abalado.

Ao dizer ‘agiu como um homem comum’ não estou menosprezando o grande São Tomás, muito menos os homens comuns. Uso esta expressão para sublinhar o fato de que essa forma de agir é ‘o comum’ do comportamento humano. Os homens têm grande apreço pelas suas crenças e um desprezo não menor pela realidade. Exemplos dessa característica humana, de não extrair as consequências dos fatos que percebe no mundo e não deixar que eles incidam sobre as próprias crenças, não faltam. Pais cujos filhos dão sinais claros de dependência química e que demoram anos para se convencer disto, muitas vezes até que a situação se mostre insustentável. Donos de empresa cujos negócios não andam bem e que, não encarando objetivamente as evidências de fracasso, cavam buracos cada vez maiores até chegar ao limite da falência. Amantes que, apesar de todas as evidências em contrário, recolhem pequenos indícios que permitem que continuem a acreditar que os amados ainda vão corresponder às suas expectativas. Populações inteiras que não conseguem questionar a imagem de seu líder idealizado, mesmo vendo sua vida piorar e as condições sociais se deteriorarem. Tudo se passa como naquela brincadeira: “me enganaram por dez anos, mas eu logo percebi!”

Mas os homens comuns, assim como São Tomás de Aquino, têm toda razão em agir assim. Estão defendendo seu mundo com unhas e dentes. O fato é que o mundo é um lugar incerto para o homem viver e sobreviver. Sua ambiguidade é uma ameaça à nossa necessidade de ocupar um lugar seguro, o que significa garantir um repertório limitado de estados sensórios. Isso inclui desde as variações de temperatura que podemos suportar até a quantidade de ansiedade com que respondemos às ameaças. Freud referia-se a esse fato, em Mais além do princípio do prazer, como o escudo protetor com que revestimos nosso espaço individual e que permite que do mundo externo apenas colhamos amostras. Com essas amostras construímos o nosso mundo, a realidade na qual vivemos, que certamente tem laços com o mundo externo, mas que não coincide com ele. Trata-se, para cada um, de um mundo privado no centro do qual, entronados na cadeira real, estamos nós e nossas crenças fundamentais. Melhor dizendo, essas crenças são essa cadeira na qual nos sustentamos. Mais ou menos como o modelo aristotélico da natureza: um cosmo harmonioso, cujo centro nós ocupamos, com os eventos e objetos do mundo girando em torno de nós, cujas órbitas se dispõem segundo a significação que elas têm em relação ao centro. Quanto mais distantes do centro menos significativos são os fatos e mais passíveis de mudança nossas crenças em relação a eles. Quanto mais perto do centro menos disposição nós temos de acolher as contradições.

Todo esse nosso mundo ganha sentido a partir do centro, ou seja, de nossas crenças fundamentais. Se elas são abaladas, o mundo se desfaz, o trono desaparece e nós somos lançados ao mais absoluto buraco negro do desamparo, experimentando a angústia existencial que os filósofos existencialistas tão bem descreveram em suas obras. Sim, é o nosso ser que está em jogo. Se nosso mundo se desmorona, nosso ser vai junto, como muito bem concluiu Descartes.

Sendo assim, temos as melhores razões para defender esse nosso mundo. São Tomás tinha toda razão, com a grandeza de admitir que estava fazendo o que tinha que ser feito. Como São Tomás, nós temos algumas ferramentas que cremos eficazes para protejer nosso mundo. Falaremos delas em ocasiões futuras. Mas há dois problemas insuperáveis diante dos quais nossas armas são inócuas. O primeiro é que o mundo não dá nenhuma bola para nossas fronteiras e as invade a seu bel-prazer, sem aviso prévio. Construimos nosso mundo, mas o mundo externo continua sendo um lugar instável e inóspito onde estamos fadados a viver. O segundo, e o mais grave, é que o mundo externo não está apenas “fora”, está no mais íntimo de nós e costuma se manifestar no nosso corpo. Contra este o escudo protetor não funciona.

Por isso as estratégias de reforçar esse nosso eu sentado no trono, no qual reconhecemos nosso ser, são ilusórias. Sabemos qual o futuro das ilusões. Há muito tempo a sabedoria popular já nos alerta: “a esperança é a última que morre”. Mas, como diz o dito, um dia ela morre. Resta saber se, até o dia dessa morte, viveremos reforçando nossas defesas e cristalizando cada vez mais nossas crenças ou aprendendo a correr riscos, reconhecendo as contradições, duvidando de nossas certezas.

Para concluir, evoco aqui a lição socrática: a dúvida é a nossa melhor companheira. Ela abre caminhos, permite que vislumbremos novos horizontes, está a serviço de Eros. As certezas paralisam, matam a criatividade, apagam a luz, estão a serviço da discórdia.

SÁBIOS IMAGINÁRIOS

No diálogo Fedro de Platão, Sócrates, comentando a invenção da escrita pelo deus egípcio Thoth, inventor também de muitas outras artes, conta que, quando ele foi apresentar suas invenções a Tamuz, o deus que governava todo o Egito naquele tempo, ao apresentar-lhe a escrita disse: “Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória: portanto, com a escrita inventei também um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.” A resposta que ouviu o surpreendeu: “Grande artista Thoth! Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. … Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando exteriormente e por meio de sinais e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.

Essas palavras Platão põe na boca de Sócrates que, por sua vez, põe na boca de Tamuz. Mas a seguir Sócrates, que nunca escreveu nada, elabora a opinião do deus egípcio: “O uso da escrita, Fedro, tem um inconveniente que se assemelha à pintura. Também as figuras pintadas tem a atitude de pessoas vivas, mas se alguém as interrogar conservar-se-ão gravemente caladas. O mesmo sucede com os discursos. Falam das coisas como se as conhecessem, mas quando alguém quer informar-se sobre qualquer ponto do assunto exposto, eles se limitam a repetir sempre a mesma coisa. Uma vez escrito, um discurso sai a vagar por toda parte, não só entre os conhecedores mas também entre os que o não entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem não serve.’

Aparte a impressionante atualidade do texto (principalmente do que salientei em negrito), ele coloca sobre a mesa uma questão crucial. Muitos comentaristas se referem a essa passagem socrática – digo socrática e não platônica pois Platão não seguiu a orientação de Tamuz e mesmo de Sócrates nesse ponto, pois escreveu seus diálogos – e muitos – para apontar que o vaticínio sobre a escrita não se concretizou. A humanidade tem escrito, e muito, e registrado suas ideias nesse formato e nem por isso sua sabedoria tornou-se imaginária. Felizmente. A escrita não acabou com o saber, muito pelo contrário, ao acumulá-lo tornou-o fecundo e criativo.

Mas não me parece que o verdadeiro risco que Sócrates aponta ao levantar a questão da escrita seja o de registrar as ideias por escrito ou por qualquer outro meio externo. Tamuz faz uma diferença entre memória e recordação. O registro escrito não é um auxiliar da memória, mas da recordação, vale dizer, guarda informações mas não instrução. Cheios de informação os homens acreditam-se sábios, mas são sábios imaginários, pois continuam ignorantes. O inconveniente apontado por Sócrates é que o texto escrito não fala, é incapaz de dialogar. Não pode ir além do que está dito, não responde a nenhuma dúvida, não argumenta além do que já está escrito, repete sempre a mesma coisa. Contém informações, mas não reflexão. Usando as palavras do texto, não instrui nem estimula a memória, já que a possibilidade de uso da memória é fundamental para a reflexão.

O diálogo desemboca nesse assunto imediatamente após tratar da diferença entre retórica e dialética. Na retórica o objetivo é o uso do discurso para convencer, para apresentar um saber que seja aceito pelo ouvinte como verdade e que desestimule a discussão crítica. Já a dialética socrática é o discurso que oscila entre afirmação e contradição, questionando crenças já estabelecidas e mergulhando no exercício da dúvida à procura da verdade. Na retórica a suposta verdade já está aprisionada no saber apresentado e todo o movimento é convencer o ouvinte dela. Na dialética a verdade é o que é buscado pelo exercício crítico do saber. Essa é a diferença apontada na discussão sobre a escrita, entre memória e recordação e entre instrução e ignorância. Um escrito, vagando por toda a parte e tomado como verdade, transmite uma aparência de sabedoria, enchendo os sábios imaginários de informações, mas não de sabedoria. Ora, sabedoria não é estar cheio de conhecimento, é poder pensar criticamente sobre ele, refletir, usar a capacidade racional para considerar as ideias, ponderá-las, negá-las, submetê-las à reflexão crítica. Os diálogos platônicos, notadamente os socráticos, são um exemplo vivo dessa prática da razão. Não é à toa que Sócrates resumia seu saber na famosa sentença: Só sei que nada sei.

Naquela época a escrita era algo bastante elitizado. Os textos eram manuscritos em papiros e certamente o domínio da língua escrita era coisa de poucos e os que podiam receber informações sem instrução através deles eram já membros de uma classe de ‘letrados’. A popularização da língua escrita só se deu muitos séculos depois com a invenção da imprensa em 1439 pelo gráfico alemão Johannes Gutenberg. Sem dúvida, essa invenção foi um fator importantíssimo para esse momento fundamental da história da humanidade que foi o Renascimento e dali até o final do período moderno, no apagar das luzes do Século XIX, o registro escrito adquiriu um status nobre, determinando inclusive o padrão da língua culta. Desempenhou uma função ímpar, que, contrariamente à opinião socrática, foi fundamental para o desenvolvimento do conhecimento humano, estimulando a crítica e o debate das ideias. Sem a escrita certamente não teríamos a filosofia, a ciência e as artes que conhecemos hoje.

Mas a disseminação desenfreada e sem limites dos meios de comunicação – e aqui me refiro tanto aos veículos tradicionais como jornais, revistas, rádios, televisões quanto à diversidade de veículos digitais como os sites, redes sociais, canais de comunicação como o Whatsapp, etc… – mudou esse status nobre do escrito. O suporte digital, talvez pelas suas características de coisa efêmera, contribuiu para descaracterizar a tal ponto a nobreza da escrita, não apenas violando suas regras com a imposição cacofônica da língua falada ditada pela pressa, mas liberando a escrita de toda a crítica pessoal prévia; pode-se escrever o que se quer, na hora que se quer e propor a  leitura a quem se quer. Hoje a escrita, ou o que sobrou dela, está disseminada feito mato, cresce em cada esquina, mais precisamente, em cada bolso. A facilidade de acesso (o dispositivo está sempre à mão, na mesa de trabalho, no bolso), o amplo alcance de divulgação proporcionados pelos meios digitais de suporte da escrita e pressa de escrever, aliados à notória superficialidade desses tempos dominados pelo divino mercado, têm tido efeitos nefastos sobre a relação das pessoas com os textos. Podemos identificar pelo menos dois. O primeiro diz respeito à quantidade: as pessoas estão cheias de informação, encontram-na imediatamente, são incessantemente bombardeadas com informações. O segundo, à qualidade: essas informações podem ser quaisquer, não têm critérios, podem vir de onde vier que, uma vez publicadas, tem todas o mesmo status. E essas duas características invadiram também os meios de comunicação não digitais. Hoje na tv, ou no rádio, ou no jornal, ou nas revistas, se pode dizer o que se quiser, sem a mínima noção de crítica. E tudo tem que ser muito curto, informativo, pois ninguém mais tem paciência de ler. Mas essa mudança no status do escrito é talvez um caso particular de uma mudança muito mais geral que atinge os padrões cultos, tanto da língua quanto do comportamento social. As pessoas se comportam hoje nos ambientes formais como se estivessem em casa, conversando com familiares e amigos na sala de estar.

Mas quais são as consequências disso para a sabedoria das pessoas? Receber toneladas de informações sem instrução inibe a capacidade de pensar, não ensina a argumentar e não desenvolve o senso crítico. Como os homens são seres narcísicos por natureza, “se consideram homens de grande saber embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.”

Recentemente o célebre escritor italiano Umberto Eco causou polêmica ao afirmar em cerimônia na Universidade de Torino que a internet dá voz a uma multidão de imbecis. Em entrevista à revista Veja (edição 2432 de 01/07/15) explicou o que quiz dizer: “O sujeito pode ser um excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende.” E chama a imprensa escrita à responsabilidade de dedicar espaço à análise das informações, passando-as pela peneira e separando o joio do trigo. Mas como a imprensa poderia fazer isso se ela própria já embarcou na nau dos imbecis? Há exceções, felizmente, mas infelizmente para poucos leitores. Resta a escola. “Sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar informações. O problema é que nem mesmo os professores estão preparados para isso.” Ele diz isso da Itália. Do Brasil posso dizer pois vivi muitos anos labutando no meio acadêmico. E posso dizer que mesmo que os professores estejam preparados para desenvolver o senso crítico e ‘ensinar os alunos a pensar’, tropeçam num problema que tem se agravado ao longo dos anos. Pois essa mudança nos padrões sociais que tem gradativamente eliminado os contextos e comportamentos formais atinge também as instituições que deveriam ser os templos do respeito, da formalidade e do culto à sabedoria, as escolas, desde a fundamental até as universitárias. Os professores não lidam mais com alunos, mas com clientes. E, sabe como é, clientes tem que ser agradados e encantados, o que resulta na fórmula cada vez mais disseminada: esforço mínimo e nota máxima.

Nosso mundo está produzindo uma geração de “desagradáveis companheiros”, de “sábios imaginários” ou de “imbecis” nas palavras de Umberto Eco? Não fui muito feliz na escolha das palavras da pergunta acima, não é de todo exato supor que nossos tempos estejam produzindo uma geração de imbecis. De fato todos somos imbecis. Faz parte da natureza humana ser imbecil, considerar-se um grande sábio quando na verdade esse saber não passa de ilusão. A gente sabe alguma coisa sobre poucas coisas, mas gostamos de apregoar que sabemos muito sobre qualquer coisa. É preciso combater a imbecilidade com boas doses de humildade para que possamos realmente saber alguma coisinha. Mas a civilização não pode estimular essa imbecilidade. Seu dever de civilização é questioná-la, criticá-la, limitá-la, confrontá-la com a humildade. E ela deve fazer isso para sua própria sobrevivência. Mas parece que estamos hoje muito empenhados em fazer o contrário. Talvez desenvolver a imbecilidade, a sabedoria imaginária seja uma excelente estratégia mercadológica, venda muito.  Quanto a isso a profecia socrática parece ter se realizado.

O MERCADO É MEU PASTOR. NADA ME FALTARÁ

Immanuel Kant nasceu em 22 de abril de 1729 em Königsberg na Prússia e tornou-se professor catedrático da Universidade dessa cidade, não casou e nem teve filhos. Faleceu a 12 de fevereiro de 1804 sem jamais ter saído da cidade. Sua vida, no dizer de um de seus biógrafos, passou como o mais regular dos verbos regulares. Todas as suas atividades tinham uma hora determinada. Quando Kant, num casaco cinzento, bengala na mão, surgia à porta de sua casa e dirigia-se para uma pequena avenida de tílias, que ainda é chamada de “Passeio do Filósofo”, os vizinhos sabiam que eram exatamente três e meia. Esse homem, em 1781, publicou uma das obras filosóficas mais importantes de todos os tempos, a Crítica da Razão Pura, que surpreendeu e perturbou o mundo filosófico. E, em 1788, outra obra de referência para toda e qualquer discussão sobre ética e moral: a Crítica da Razão Prática.

Johannes Brahms (1833-1897), que deu ao mundo algumas das mais belas páginas musicais, na opinião de alguns críticos, é um modelo do que um compositor maduro deve ser. Vivendo em pleno romantismo, mas aficcionado pelo rigor da forma clássica, conseguiu reestabelecer a sinfonia clássica em tempos em que Wagner proclamava que ela estava contida no drama musical. De fato tornou-se um supremo blend dos dois. Como Kant, Brahms era um homem extremamente metódico e devotado a rotinas. Acordava ao amanhecer, tomava uma caneca de café bem forte e fumava seu charuto, igualmente forte, tocava uma fuga de Bach ou um exercício de contraponto no piano para por a máquina em movimento e compunha todo o resto da manhã. Em seguida ia sempre à mesma taverna em Viena (The red hedgehog em português o hedgehog vermelho. Hedgehog parece um ouriço ou um porco espinho, é o Sonic), recusando-se a comer ou beber em qualquer outro lugar.

Felizmente Kant viveu há 300 anos atrás e Brahms há mais de 200 – numa época em que pensar era uma atividade das mais nobres – e puderam completar suas obras usufruindo de toda a esquisitice que lhes era necessária para trabalhar e criar. Nos dias de hoje provavelmente essas esquisitices chamariam a atenção dos vizinhos que, em vez de acertar os relógios, chamariam o psiquiatra. O diagnóstico de TOC certamente seria atribuído e um novo ritual passaria a fazer parte da rotina diária: a hora da medicação.

“Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenha a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.” Esse desabafo é de ninguém menos que Allen Frances – o psiquiatra americano que dirigiu o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM) até sua quarta edição  – em entrevista para o jornal espanhol El País, quando do lançamento de seu livro sobre o assunto Saving Normal, uma espécie de reposta à edição de número 5 desse manual que ampliou enormemente a lista de doenças mentais. (Essa entrevista pode ser acessada em: http://psibr.com.br/noticias/ex-coordenador-do-dsm-sobre-a-biblia-da-psiquiatria-transformamos-problemas-cotidianos-em-transtornos-mentais)

Os que trabalham em saúde mental sabem do que ele está falando e costumam ver essa situação no cotidiano de sua atividade. O DSM, que visava a ser apenas um documento de referência para o diagnóstico e tratamento das doenças mentais, tornou-se uma espécie de bíblia da saúde mental tendo difundido síndromes que se tornaram populares e, em função da quantidade de diagnósticos imprecisos, aumentam assustadoramente as estatísticas das depressões, bipolaridades, déficits de atenção e hiperatividade, e assim por diante. Ninguém mais fica de luto por um ser querido que morreu ou pela perda de um amor, está deprimido e deve ser medicado.  Ninguém mais tem as habituais oscilações de humor que a vida nos impõe, é bipolar e deve ser medicado. As crianças não tem mais dificuldades normais de aprendizagem ou professores incompetentes, sofrem de déficit de atenção e hiperatividade e devem ser medicadas.

Allen Frances chama essa tendência de medicalização da vida e não tem pudores em indicar seus mentores. “Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.”

Mas, cuidado. Não vamos demonizar a indústria farmacêutica. Pois ela não está fazendo nada além de jogar o jogo do mercado. Se olharmos ao redor, veremos que essa medicalização da vida vai muito mais longe e está gradativamente tomando conta de toda a vida. Você vai comer? Não sem antes consultar os experts que vão te dizer o que é saudável, o que está cheio de gordura, quantas toxinas tem naquela salchicha, quais os malefícios do gluten, o potencial tóxico da lactose, o que engorda, o que emagrece, o que faz bem para o fígado, para os intestinos, para o coração, para a pele, … socorro!!!! Eu só queria comer alguma coisa!!!! Você vai transar? Não esqueça de consultar os especialistas sobre como excitar o parceiro, como não passar dos limites, como dar prazer ao outro, como ser aquele homem, ou aquela mulher, na cama … Você vai ter filhos? Os experts vão te ensinar a cuidar de seu bebê, a entender todos os seus diferentes tipos de choro, o que fazer quando ele chorar de cólica, como ser uma mãe não neurotizante, como ser um pai participativo …. Vai decorar a casa? Ah, nesse caso os experts vão produzir o melhor projeto para sua sala, para sua cozinha, para seu quarto, ditando cores, móveis, tendências, conceitos!

Em todos os jornais, em todas as revistas, em todas as emissoras de TV, por toda a internet estão os experts de prontidão para nos ensinar como viver. Assim a medicalização da vida é um caso particular de uma tendência muito mais abrangente; vou chamá-la de normatização mercadológica da vida. O que comer, o que desejar, o que querer, o que evitar, como se relacionar, como cuidar do corpo, como amar, e assim por diante, tudo isso hoje está nas mãos dos experts, cujos ensinamentos nos são transmitidos pelos canais de comunicação como se fossem a mais absoluta verdade e a mais recente conquista da ciência. O problema é que, de ciência há muito pouco nessas informações. O fato é que uma observação científica, limitada a um determinado campo de estudos e normalmente aplicável a uma amostragem restrita, muitas vezes dependente de testes e experimentações, é elevada pela mídia ao patamar de verdade última. E vendida pelo mercado como verdade última. E comprada avidamente pelas pessoas como verdade última.

Lembro que, quando eu dava aulas na faculdade de Psicologia, apelidei de síndrome da segunda feira o fenômeno que acometia os alunos todas as segundas feiras, quando inevitavelmente perguntavam: “o Sr. viu a reportagem sobre o cérebro no Fantástico ontem?” Evidentemente que nós, pobres professores de Psicologia, lutando para que nossos alunos se decidissem a ler os secos manuais de nossa disciplina, deveríamos parecer a eles peças de museu diante do charme apelativo das reportagens do Fantástico sobre o cérebro. Mas eu me consolava dizendo a eles que todo o esforço de estar ali nos bancos de escola era supérfluo, pois bastava ler as reportagens de uma revista de grande circulação para saber tudo o que se necessitava sobre a ciência da Psicologia. Em uma das capas dessa revista fomos informados que a ciência desvendara o mistério da feminilidade !!!!!!

O fato é que, se o mercado ocupa avidamente esse lugar de ditar normas de comportamento, é porque as pessoas necessitam disso, de um Guide Michelin (o famoso precursor e equivalente francês dos guias de viagem, como o Guia Quatro Rodas) para trafegar pela existência. A vida é muito complexa e incerta, o que somos e queremos é sempre um enigma, o que faz as pessoas buscarem direções, regras e normas. Quem fazia esse papel era a cultura. Os costumes e ritos culturais normatizavam as relações de seus membros com as coisas e com os outros. Mas a globalização está fazendo com que as culturas desapareçam, e com elas seus costumes e ritos. Não são mais as tradições culturais que norteiam a vida das famílias, desde o pão que se come, da roupa se usa, até o respeito e a atenção que se deve dar aos outros. As pessoas que ainda agem desta forma não apenas tem que tolerar a sensação subjetiva de sentir-se meio esquisitas, como suportar o olhar muitas vezes condenatório dos outros pela audácia de exibir uma incômoda diferença. Um exemplo desse ocaso cultural é o lugar dos idosos na sociedade. De membros do respeitável conselho de anciões a quem os mais novos procuravam sempre que necessitavam de conselhos passaram ser vistos como objetos privilegiados dos cuidados do mercado: tornaram-se alvos dos imperativos da  ‘qualidade de vida’ na terceira idade. Tem que ter ‘qualidade de vida’ na terceira idade.

‘Qualidade de vida’, ou ‘bem estar’ é o nome atual do termo um tanto desgastado ‘felicidade’. É isso que todo mundo quer, claro. Como conseguir? Esse é a árdua questão. Mas é exatamente esse segredo que o mercado afirma que possui. O Guide Michelin orientado pelo conhecimento “científico” mais atual, que é o conhecimento mais conhecimento de todos os conhecimentos. Com esse pressuposto fica fácil ditar as normas de como ser, do que desejar e de como se comportar, pois todos acabam jogando seu jogo, vendendo ou comprando, cada um ocupando seu lugar nesse imenso rebanho de consumidores. Todos conduzidos pela mão invisível de seu pastor.

FAZ DE CONTA QUE É VERDADE

Um tio de quem gosto muito, e que foi um dos pioneiros na atividade de marketing (embora naquela época isso se chamava ‘propaganda’) na terra dos pinheirais, um belo dia me disse de maneira muito enfática: “Eu não suporto ver televisão hoje em dia. As propagandas, … é tudo mentira. Tudo pela metade do preço: mentira; o carro mais moderno: mentira; o banco que faz mais por você: mentira; tudo mentira.

Outro tio, de quem gosto muito também, contou-me a seguinte ousadia, que ele se deu ao luxo de cometer, como um desabafo, do alto de seus, digamos, cinquenta anos de experiência no mesmo tipo de atividade, um misto de administrativa e educacional. Como de hábito nas empresas brasileiras contemporâneas, os funcionários mais graduados passaram um fim de semana em um hotel retirado elaborando aqueles planejamentos que nunca saem do papel. Entre os itens a serem produzidos estava a missão da empresa. Como trata-se de uma empresa educacional, obviamente a missão estava recheada de afirmações cheias de respeito aos clientes. Coisas como: “respeitar a dignidade das pessoas favorecendo o seu desenvolvimento como cidadão livre”, e assim por diante. Logo cartazes com o texto da missão da empresa estavam espalhados por todo canto, inclusive na sala do diretor. Ocorreu que algum tempo depois disso um novo diretor veio assumir a condução da empresa. Quando meu tio foi recebido em sua sala apontou para o cartaz com a missão e disse: “O senhor está vendo o que está escrito ali? Tudo mentira”.

As situações descritas nas anedotas acima são extremamente comuns. Perturbadoramente comuns. Quem de nós já não passou por situações desse tipo? Por exemplo, ler no site de uma empresa de serviços que seu primeiro compromisso é com a satisfação do cliente para descobrir, depois de contratado o serviço, que esta é a última preocupação da empresa, se é que é preocupação. Ou escutar de um atendente ao telefone: “vou verificar e já retorno a ligação” … e nunca retorna.

Há um suposto básico na comunicação humana de que o que dizemos corresponde à verdade do que acreditamos ser um estado de coisas. Imaginem o que seria do mundo se o ônibus que diz que vai para tal bairro não fosse para este bairro. Ou se não acreditássemos no amigo que diz que tal hora estará em tal lugar. Não só supomos que o que os outros dizem corresponde à verdade do que eles acreditam como acreditamos que o que nós dizemos corresponde à verdade do que acreditamos. Evidentemente não se trata da verdade de fato, mas do que acreditamos ser verdade.

O respeitado linguista inglês Paul Grice, lá pelos anos 60, pensando a respeito da produção de sentido na comunicação humana, estabeleceu o princípio da cooperação, um conjunto de normas implícitas que governam as interações entre os seres humanos. Essas normas na teoria griceana são formuladas como quatro máximas conversacionais e uma delas, a máxima da qualidade, diz justamente respeito à verdade implicada nas trocas cooperativas. Ela diz: ‘procure que sua contribuição conversacional seja o mais verdadeira possível. Não afirme o que você acredita ser falso e não afirme nada de que você não tenha evidências adequadas para acreditar em sua veracidade’.

Será que as máximas de Grice já não valem mais hoje em dia, já estão superadas pela sociedade moderna? Evidentemente que não é o caso. Acreditar que o que digo é verdadeiro e acreditar que o outro está sinceramente me dizendo a verdade do que acredita é a cola que mantém o pouco de união que os homens conseguem para viver em sociedade. É claro que os homens não são esses anjinhos e sabemos que nós não somos exatamente verdadeiros conosco próprios. Mas em certo nível de convívio social nos obrigamos a ser verdadeiros. Tomemos como exemplo a desorganização da relação que ocorre quando há uma desconfiança da desobediência desse princípio em um casal, onde há dúvidas quanto à fidelidade do parceiro.

Mas para o mercado esse suposto parece já estar superado. Não é mais questão de ser verdadeiro, mas de conquistar o cliente. Encantar o cliente é a palavra de ordem que costuma-se ouvir nos treinamentos empresariais. Para vender vale tudo, seja lá o que se estiver vendendo: apartamentos, diplomas, salsichas, carros, votos. Mas há algo muito perverso nisso, pois, para conquistar o cliente, tem-se que dar a impressão de ser verdadeiro. O suposto continua, não como um imperativo ao qual devemos nos submeter e que constrange e restringe a comunicação, mas ele é utilizado para convencer. E aí ele vira um faz de conta. Faço de conta que isso é verdade, embora saiba que não é. Será que quem anuncia acredita que é? Será que quem escuta acredita que é? Será que as pessoas se tornaram tão crédulas e ingênuas a ponto de acreditar que comprando tal apartamento estão comprando a felicidade, ou que comendo tal hambúrguer estão comendo o melhor hambúrguer do mundo?

Aqui reencontramos a velha e conhecida característica do ser humano de abrigar vários sistemas de crença diferentes, até contraditórios, sem que um interfira no outro. Num dos mais importantes desses sistemas – nossa vida de fantasia – nós continuamos acreditando em Papai Noel, embora em outro desses sistemas (que anda meio desprestigiado ultimamente) nós saibamos que ele é fruto da imaginação e uma projeção de nossos desejos. Não tem um Papai Noel escondido naquela latinha de cerveja que promete o assédio das mulheres mais bonitas do pedaço, ou naquele sapato capaz de transformar a usuária numa dessas mulheres de incomparável elegância, ou naquele carro que promete encher seu dono de potência e adrenalina, ou naquele frasco de desodorante que transformará seu usuário num homem fatal, e assim por diante.

Em outros posts desse blog falamos dessa nossa vida de fantasia mostrando como ela encontra uma “realidade” no mundo virtual. Mas é para ela que esses modernos sacerdotes do mercado, os marketeiros, falam. Atualmente tudo se faz com marketing. Desde vender margarina, divulgar os efeitos benéficos de tal ou tal alimento, vender bens materiais, divulgar pseudo descobertas científicas, encher os bancos das igrejas a eleger políticos. Não é casual que a primeira reunião de um famoso político depois das manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil em meados do ano passado foi com o marketeiro do partido. “Nós vendemos sonhos” me disse uma vez um corretor de imóveis.

Quando as pessoas consomem, elas consomem sonhos. Quando elas compram, compram sonhos. Enquanto eles duram, tudo parece se encher de esperança e encantamento. Mas a vida, no mundo real, continua a mesma. E é com ela que nós temos que nos ver. Quando nos perdemos e somos surpreendidos pela noite, podemos cantar alto no escuro para negar nossos próprios temores. Mas continuaremos não enxergando um palmo diante no nariz.

O MÁGICO NÚMERO SETE

Não, não se assustem. Apesar do termo mágico esse título não pretende evocar nada de místico, oculto ou transcendental. Simplesmente empresta o nome de um artigo científico de George A. Miller que propõe a asserção de que a capacidade da memória humana de curto prazo limita-se a aproximadamente sete itens a cada vez. Há sete lugares ali, se entra um novo item, outro tem que sair. Evoquei esse trabalho em função do resultado do jogo da semifinal da copa do mundo de 2014 entre Brasil e Alemanha. E deixo aqui meu agradecimento aos alemães por terem me animado a compartilhar algumas reflexões, um pouco dispersas e prematuras, que exponho a seguir. E isso é tudo quanto ao número sete. Na verdade só evoquei o artigo de George Miller para poder tomar emprestado seu título. Continuar lendo

POSTO(U) ME(O)

Dizem que o mundo evoluiu. Pode ser … depende do ponto de vista. Considerando a sofisticação cada vez maior da tecnologia como evolução, aparentemente não haveria dúvidas, como evoluímos! Isso é discutível, mas não vou discutir isso agora. Mas há um aspecto do mundo que não evoluiu nem um pouquinho. A cabeça do homem continua como sempre foi, pelo menos desde que temos registro do que se passa dentro dela. Se o mundo no qual vivemos mudou de tal maneira que até arriscamos dizer que ele evoluiu, o mundo que experimentamos dentro de nós continua no mesmo lugar. Mudar as coisas fora não quer dizer que elas mudem dentro. O ferro se submete facilmente aos caprichos humanos, deixa-se forjar. As ideias … bem, algumas são maleáveis e mutáveis. Mas tem algumas que não mudam de jeito nenhum. E destas as piores são as mais íntimas, exatamente aquelas que me dizem respeito, que me definem.

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PARAÍSOS VIRTUAIS

Quem tem e-mail ou circula pela internet certamente já recebeu ou viu aquele monte de ilustrações onde aparecem pessoas em situações sociais – numa mesa de restaurante, numa reunião de amigos num parque, dentro do carro, etc… – em que todas estão olhando e manipulando seus celulares ou tablets. Esses dias recebi um desses no qual as pessoas eram crianças em situações muito sugestivas, uma delas bastante simbólica: os brinquedos com expressão muito amuada indo embora enquanto a menina estava mergulhada em seu tablet, totalmente indiferente ao que acontecia a sua volta. O e-mail trazia como título: “Para onde vamos? Está certo?” Uma boa pergunta cuja resposta é incerta, embora eu ache que os brinquedos sabem muito bem para onde estão indo !!!

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CON … SUMIDOR

Nós vivemos tempos curiosos. Desde que o homem se conhece como tal suas organizações culturais já lhe forneceram várias formas coletivas de identificação, indicando maneiras de como ele deve conceber-se, ou seja, compreender o que ele é. Acompanhando a linha do tempo constatamos que estes padrões identificatórios vão descendo gradativamente do céu para a terra, e nesta para o indivíduo. A sociedade contemporânea gira em torno da mercadoria, nome genérico para a variedade de bens que são oferecidos nesse mercado global que virou o planeta. O que sustenta a cadeia produtiva que culmina na mercadoria é seu ponto final. O homem consumidor, também chamado de cliente, o padrão ao qual todos nos identificamos.

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SEREI EU UM DIA DESCARTÁVEL TAMBÉM?

Fazer tipologia sempre foi uma tentação da razão. Afinal, nós não conseguimos viver se não colocarmos o mundo dentro de categorias, classificando todos as coisas que vemos diante de nós. Não vou resistir a essa tentação e vou também fazer classificações. O homem contemporâneo é tão curioso que classificar seus diferentes aspectos em determinados tipos gerais pode ser um agradável exercício do pensamento.

Sabemos que vivemos uma vida dupla, embora frequentemente não nos agrade saber disso. Um de nós vive como um Adão expulso do paraíso: cumprindo seus deveres, acordando cedo, suando para ganhar seu dinheirinho, aguentando chefes irritados, parceiros queixosos, etc… etc… etc… Outro de nós continua vivendo no paraíso em sua fantasia, o que não quer absolutamente dizer que essa vida não seja real, ela é tão real como a outra, para muitos a verdadeira vida. Essas fantasias tem muitas maneiras sutis de inserirem-se na vida concreta. Nossa sociedade atual, dominada pelo consumo e pela escandalosa oferta de bens, tornou-se especialista em fornecer meios de concretizar fantasias sem corromper seu estatuto de fantasias. E isso acabou gerando identificações à padrões aos quais as pessoas aderem para sentirem-se pertencentes e usufrutuárias do que há de mais moderno e atual na sociedade. Fora disso não há felicidade !!!

Vamos começar por um desses tipos gerais, o homem descartável e procurar a fantasia que nele se realiza.

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