Sobre a (de)formação em psicanálise hoje – X

Chego ao último dos posts sobre a (de)formação de analistas em nossa época. Ao escrevê-los, senti-me muitas vezes como uma espécie de peça de museu. Várias sessões por semana, horas e horas de estudo e seminários, intermináveis supervisões, indagações do mais profundo do (não)ser sobre o desejo de ocupar o lugar de analista, assumir a formação permanente como compromisso pessoal, noites de sono extraviado por uma mente ocupada com questões éticas advindas da clínica… Tudo isso parece ter se tornado coisa do passado.

Hoje tudo se resolve sem “sair de casa” (o que quer dizer com o mínimo de esforço), com a profusão de lives nas redes sociais ou com cursos de formação em psicanálise EAD com habilitação clínica, com etapas teóricas e práticas, tudo online, inclusive a análise pessoal. Obtida a carteirinha de psicanalista, ou simplesmente aquela certeza interna imaginária: “eu já sei do que se trata e o que fazer”, é só colocar uma placa na porta: “fulano de tal, psicanalista”, munir-se de um computador com internet, abrir páginas nas redes sociais, fazer postagens sobre temas psicanalíticos, sobre condições psicopatológicas, e começar a receber demandas. E, claro, de vez em quando,  continuar a assistir lives de famosos para manter-se “em dia”!

Esta triste situação da psicanálise hoje, além da colaboração dada pelos próprios psicanalistas e suas instituições, também é resultado da tomada da psicanálise pelo espírito de nossa época – a modernidade líquida na expressão do sociólogo Zygmunt Baumann. O jornalista e roteirista André Barcinski chamou a degradação cultural que acompanha a modernidade líquida de infantilização da cultura. Barcinski está falando de cinema e arte, mas é triste constatar que essa infantilização também está ocorrendo em outros campos da cultura, na psicanálise inclusive. O fato é que a qualidade das produções culturais está caindo ano após ano. Em seu post de 15/01/2018, em seu blog, lista algumas razões:

“A padronização de temas e estruturas narrativas”. Já nos referimos a esse fato quando comentamos a pobreza teórica da transmissão contemporânea da psicanálise no post 8.

“A formatação do conteúdo por meio de algoritmos e pesquisas de mercado”. As peças de transmissão que ocupam as mídias sociais são cuidadosamente programadas para circular ao redor de temas de interesse geral. Como por exemplo as síndromes da moda, (como anorexia, transtorno bipolar, espectro autista (a mais recente novidade) e assim por diante), os assuntos bombásticos (amor, feminilidade, gozo, etc…), as frases de efeito (‘a mulher não existe’, ‘não há relação sexual’, etc…). Conectado com isso há sempre um autor, ou uma teoria, mais famosos, mais consumidos, mais venerados e que têm resposta para tudo. (Um exemplo eloquente disso, embora não esteja no campo específico da psicanálise, é o enorme alcance atual da chamada “constelação familiar”.) Tudo para exigir o mínimo de esforço intelectual e para aparentar o máximo de conhecimento. É triste constatar, mas o público só quer mais do mesmo. 

“O aniquilamento da crítica e sua substituição por Youtubers” tem conduzido “a uma monopolização do mercado de shows”. Assistimos hoje ao fenômeno dos influenciadores digitais psicanalíticos, que contam com centenas de fiéis seguidores. Isso tem incentivado o sempre perigoso hábito da captura pela telinha no mercado das redes sociais psicanalíticas. Mesmo nos casos honestos de uso das mídias sociais, penso que deve-se ter muita prudência com esses meios audio-visuais. Conheço colegas que optaram pela transmissão via mídias sociais, com lives periódicas onde expõem suas ideias. Não tenho nada contra a exposição oral de temas via aulas, conferências, seminários, etc… Eu mesmo fui professor durante muitos anos e ensinei temas psicanalíticos em diversos cursos de graduação, pós-graduação ou em associações privadas. Mas tenho, sim, muitas razões para condenar o fato de que esse meio auxiliar esteja virando o principal ou, em muitos casos e cada vez mais frequentemente, o único. Afinal, quem tem hoje paciência de ler? Uma formação continuada e minimamente séria exige leitura e releitura, que implicam em dedicação, esforço e tempo, de textos originais freudianos, lacanianos, kleinianos, winnicotianos, etc…, de artigos científicos que investigam conceitos específicos, de materiais conexos como textos literários, textos de outras áreas do conhecimento, etc… (Lembram da carta de Anna Freud que referi no primeiro post?) A diminuição da leitura e sua substituição por meios audio-visuais tem consequências sérias sobre nossa mente/cérebro. Pretendo falar sobre isso demoradamente em outro momento no contexto de uma discussão mais geral sobre a infantilização da cultura e o aniquilamento da crítica. Mas, antes disso, vamos nos perguntar seriamente: a psicanálise sobreviverá?

Lacan coloca uma questão como essa em 1956, na conclusão de seu texto sobre a situação da psicanálise. Ali nota que, apesar de todas as “forças de dissociação às quais esta submetida a herança freudiana”, ela tem sobrevivido através da IPA. Em sua opinião isso se dá em função da “virtude que atribuímos ao significante puro”, ou seja, mesmo que ninguém se entenda sobre a significação dos conceitos freudianos, eles sobrevivem graças à sua qualidade formal de significantes. (pág. 486) Por exemplo: ninguém sabe ao certo o conteúdo dos conceitos de Id, Ego e Superego, mas, ao utilizá-los, juntamente com o restante do jargão psicanalítico, a comunidade dos analistas mantém viva a metapsicologia freudiana. É como o branco do vestido de noiva. As noivas de hoje em dia não sabem, ou não estão interessadas em saber, por que as nubentes devem usar roupas brancas e por que elas próprias deverão usar o branco em suas núpcias. Mas não podem casar sem estarem vestidas de branco, o que perpetua uma tradição cujo significado ninguém sabe ao certo ou realmente se importa com ele.

Lacan evoca, como metáfora da sobrevivência da psicanálise no seio da Associação Internacional, o conto de Edgar Allan Poe A verdade sobre o caso do sr. Valdemar. Este conto relata a história de um homem, o Sr. Valdemar, que foi hipnotizado exatamente na hora de sua morte. O hipnotizador, que é o narrador da história, desejava investigar se o processo hipnótico conseguiria deter, e por quanto tempo, o avanço da morte. O Sr. Valdemar foi escolhido a dedo para tal experimento e o que resultou foi que ele assiste a sua morte, embora seu cadáver, hipnotizado, se mantenha intacto e imune à dissolução física. O cadáver não só se mantinha como testemunhava com uma voz que parecia vir de alguma caverna profunda nas entranhas da terra: “Eu estive dormindo… e agora… agora… estou morto.” O corpo de um morto, do qual a vida já partiu, conservado “vivo”. Diz Lacan: “Tal metaforicamente, em seu ser coletivo, a associação criada por Freud sobreviveria, mas aqui é a voz que a sustenta, que vem de um morto”. (pág. 486) Ou seja, a psicanálise sobrevive como este cadáver hipnotizado sustentado pela teoria criada por Freud repetida à exaustão ritualística sem que ninguém, como as noivas de branco, saiba exatamente por que está fazendo o que faz e dizendo o que diz. Depois de tudo o que já dissemos nessa série, podemos afirmar que qualquer semelhança com o que acontece com a psicanálise de hoje não é mera coincidência, salvo pelo número crescente de cadáveres mantidos vivos sem que haja vida inteligente dentro deles.

No calor do debate sobre a análise leiga, Freud escreveu: “Só quero sentir-me seguro de que a terapia não destruirá a ciência.” Essa frase de Freud, ouvida à luz do que acontece hoje, parece a advertência de um profeta. Se observarmos de perto, veremos que todos os apelos midiáticos do que se chama de psicanálise hoje envolvem diretamente promessas terapêuticas, promessas de felicidade, promessas de como conquistar o bem estar, promessas de um google maps para transitar pelas tortuosas vias da realidade. Exatamente na contramão da doutrina freudiana. É um risco real para a Psicanálise perder aquilo que ela tem de verdadeiramente próprio, a atividade investigativa sobre seu singular objeto de estudo, sobre o qual todo seu edifício teórico e clínico está edificado: a verdrangung, (traduzida por repressão ou recalque). Quem já leu A história do movimento psicanalítico sabe que Freud escreveu no primeiro capítulo que esta foi sua descoberta fundamental.

Freud foi, antes de tudo, um cientista, um homem das luzes. A posição marginal em relação à ciência nunca foi desejada por Freud, que sempre lutou para que a psicanálise permanecesse dentro da comunidade científica. Para isso é fundamental que os psicanalistas não se alienem das discussões científicas de sua época, disponham-se ao diálogo e exponham-se à critica. Mais importante ainda é que não encarem sua teoria como um corpo dogmático de saber, mas a vejam como um andaime na construção do edifício teórico sobre esse objeto que nos ocupa: corpo/mente. Isso vai contra a tendência dos grupos organizados (e, como vimos, com os analistas não é diferente) de fecharem-se em seus próprios muros e congelar sua doutrina em dogmas inquestionáveis. 

Pelo que sei, depois de Freud, por duas vezes na história a psicanálise abriu-se ao debate científico de sua época. A primeira vez foi nos anos 50, quando Jacques Lacan promoveu sua aproximação com o formalismo, que na época se anunciava como a grande ferramenta para compreender os processos mentais. Mas sabemos que o formalismo encontrou seus limites e também o que aconteceu com a herança lacaniana.

A segunda vez começou nos anos 90, quando alguns neurocientistas e alguns psicanalistas propuseram-se a construir pontes entre suas disciplinas, e prossegue de vento em popa. Cito dois marcos de referência nesse esforço conjunto. O primeiro, a publicação de dois artigos, em 1998 e 1999, no American Journal of Psychiatry, pelo neurocientista Eric  Kandel, ganhador do prêmio Nobel de Medicina em 2000 por seu trabalho sobre a transmissão de sinais entre células nervosas do cérebro humano, onde ele defende que a psicanálise oferece aos neurocientistas o ponto de partida mais apropriado para suas pesquisas e oferece um número de sugestões de tópicos de pesquisa de relevância, assim como suporta a ideia mesma de pesquisa em psicanálise. O segundo é a fundação em julho de 2000 da Associação Internacional de Neuropsicanálise como um grande forum de debates entre a neurociência e a psicanálise. Esses 20 anos assistiram a um grande progresso nos estudos sobre a memória, sobre a teoria do apego, sobre a concepção das pulsões na neurociência afetiva e, no âmbito da neurociência computacional, o surgimento do princípio da livre energia de Friston (2010), que tem demonstrado grande consiliência com conceitos psicanalíticos e grande potencial como um princípio metapsicológico unificador para uma teoria da mente/cérebro. (De vez em quando me pego cogitando o que Lacan, com suas tendências formais e matemáticas, diria desse princípio.)

Agora podemos repetir a pergunta: o espírito freudiano sobreviverá? e ter para ela uma resposta mais otimista. Diria que sim, mas não no corpo morto onde as redes sociais e os mestres de plantão apregoam que ele está. Ele está vivo nessa junção entre o divã, o laboratório e as teorias computacionais. Em 1926, em A questão da análise leiga, Freud escreveu: “Em vista da íntima conexão entre o que distinguimos como físico e mental, podemos olhar para a frente, para o dia em que os caminhos do conhecimento e, esperemos, da influência estarão abertos, levando da biologia e da química orgânica ao campo dos fenômenos neuróticos. Esse dia ainda parece distante, e no presente essas enfermidades são inacessíveis para nós a partir da direção da medicina …” (231) Esses caminhos estão, hoje, abertos e sendo trilhados.

É pela via do debate crítico na busca pela verdade que poderemos deixar esse cadáver morrer e dar nossa voz ao legado de nossos pais mortos, não deixando que a “terapêutica” destrua a ciência.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje IX

Que conclusões podemos extrair da história das instituições analíticas e dos esforços para equacionar a formação descrita nos posts anteriores? Certamente muitas, mas vou elencar cinco que merecem reflexão.

1 – Introduzo a primeira lembrando o motivo que esteve na origem dos primeiros encontros dos analistas na sala de espera de Freud no outono de 1902. Motivado por um incômodo problema neurótico, Stekel procurou Freud, recebeu ajuda analítica e sugeriu o convite aos quatro médicos próximos para os encontros das quartas feiras, com o objetivo de discutir as ideias freudianas. Este foi o início do que viria a ser a Associação Internacional. Ou seja, a pedra fundamental da congregação dos analistas está assentada sobre a neurose. Não na neurose dos outros, mas na própria neurose. Não devemos esquecer nunca de nossas origens: somos recrutados nas fileiras daqueles que, por razões que são sempre pessoais, têm dificuldades em lidar com a vida. Ninguém vai despender grandes quantidades de tempo e dinheiro, enfrentar angústias e desilusões, rever dolorosamente sua própria imagem narcísica, se não for motivado por um importante sofrimento psíquico. Afinal, o processo analítico vai na contramão da inércia do autoengano. Ninguém procura uma análise “para ser analista”. Se esta for a demanda inicial, deverá ser submetida ao questionamento analítico como qualquer outra demanda trazida ao consultório.

2 – O segundo ponto é que, no coração mesmo da recém nascida associação oficial da psicanálise freudiana, ardia um conflito narcísico. Os judeus vienenses sentiam-se preteridos por Freud diante dos suíços arianos. Lembremos que, em 1910, quando a IPA foi fundada no Congresso de Nuremberg, Freud designou Jung presidente, pelas razões que já discutimos (post 5), e que a sede da sociedade foi transferida de Viena para Zurique. Isso despertou os protestos da ala vienense que teve que ser apaziguada por Freud. Esse foi apenas um episódio de um conflito que se estendeu ao longo dos anos. Conflitos como esse têm marcado a história da psicanálise. Mas não têm nada de especial. São típicos das organizações humanas. O que mantém os grupos coesos é a projeção do ódio nos grupos rivais. Os grupos analíticos não são exceção. Talvez na nossa idealização dos analistas pensássemos que eles deveriam estar pelo menos advertidos desse fenômeno e, em vez de passar ao ato, passar às palavras. Mais uma de nossas doces ilusões. Vale a pena registrar a opinião de Freud acerca desses conflitos. Em resposta à Maedar, que afirmou que as diferenças científicas entre os vienenses e os suíços resultavam de os primeiros serem judeus e os segundos arianos, disse: “Certamente há grandes diferenças entre o espírito judeu e o ariano. Podemos observar isso diariamente. Daí haveria seguramente, aqui e ali, diferenças de ponto de vista sobre a vida e a arte. Mas não deveria haver algo como ciência ariana ou judia. Os resultados na ciência devem ser idênticos, embora a apresentação deles possa variar. Se essas diferenças se refletem na apreensão das relações objetivas da ciência, algo deve estar errado.” (Jones, 157)

3 – Essa opinião de Freud leva ao terceiro aspecto que quero sublinhar. Trata-se da lição que podemos extrair das diferentes reações de Freud e de Lacan diante dos desvios à teoria psicanalítica. Freud diante das dissensões de Jung e de Adler, que transformaram a psicanálise de acordo com suas próprias crenças, o que resultou, nos meios acadêmicos, nas “três escolas de psicanálise”; Lacan diante da psicologização imaginária da psicanálise “oficial” da sua época. Freud escreveu um livro, a História do movimento psicanalítico, onde afirmou que mais do que qualquer outro tinha o direito de saber o que era e o que não era psicanálise. Afinal de contas, era seu criador. Nesse livro passa o primeiro capítulo contando a história das descobertas teóricas fundamentais da psicanálise e explicando seus conceitos fundamentais. No segundo e em parte do terceiro, sua história institucional. Mas na grande parte do terceiro capítulo discute com profundidade as teorias de Adler e de Jung. Essa discussão ocupa aproximadamente 25% do livro. Numa obra sobre a história do movimento psicanalítico, Freud dedica 1/4 de seu tempo para explicar por que as teorias de Adler e Jung não são psicanálise. Lacan escreveu um artigo, Situação da Psicanálise e formação do analista, em 1956 onde também discute teoricamente as teorias vigentes e sua resposta teórica a elas: a primazia do simbólico e a necessidade de uma leitura formalista. No entanto, a grande diferença entre Freud e Lacan está no estilo. Enquanto o estilo freudiano é o de um debate crítico argumentativo entre posições teóricas divergentes, o estilo lacaniano é satírico e mordaz. Como Lacan afirma que ele sabe o que é a verdadeira psicanálise, faz questão de expor, sem nenhum pudor, seu desprezo pelas ideias equivocadas e por aqueles que as defendem. Não é à toa que na Ata de fundação da Escola Freudiana de Paris escreve: “Este título, em minha intenção, representa o organismo onde deve cumprir-se um trabalho – que, no campo aberto por Freud, restaura a lâmina cortante de sua verdade …” (Outros Escritos, 235). Os fatos mostram que o trabalho dessa lâmina cortante foi a eliminação de tudo que considera-se desvio (não necessariamente que de fato o seja), o que resultou numa espécie de sacralização de uma suposta leitura verdadeira da obra de Freud e Lacan (o Antigo e Novo Testamentos). É claro que essa lâmina não paira no ar, está na mão de um leitor que “sabe ler”. E um leitor que “sabe ler” ensina os que não são assim tão letrados. Esse leitor privilegiado torna-se a autoridade, pois ele desfruta de uma intimidade com o enigmático texto lacaniano. E os outros? Bem, os outros tornam-se discípulos que aprendem a ler com o mestre. Mas nunca conseguem chegar ao nível do mestre, pois Este está sempre um passo à frente. O discípulo, quando pensa ter conseguido entender alguma coisa, ao escutar novamente o mestre, tem a impressão de que na sua compreensão falta alguma coisa, que não chegou lá. E assim a dependência da autoridade se perpetua. É assim que estão montadas as instituições que cultivam uma leitura como verdade. Claro que, quando um discípulo fica um pouco mais letrado e começa a perceber que pode ler independentemente das opiniões do mestre, o convívio fica complicado, chegando geralmente ao ponto de ruptura, gerando o fenômeno a que nos referimos no post anterior, da multiplicação dos mestres.

4 – Em quarto lugar, nunca é demais frisar o caráter conciliador, tolerante e não autoritário de Freud. Mesmo com todos os seus colegas o advertindo sobre os desvios de Jung, desvios que obviamente Freud enxergava muito bem, em momento algum interveio com sua autoridade moral nas posições ocupadas por ele na Associação. Aguardou pacientemente até que o próprio Jung se retirasse. E isso demorou quase 10 anos. No verão de 1913, um ano antes da saída de Jung da editoria do Jahrbuch, da presidência da Associação Internacional e, por fim, da condição de membro dessa associação, Jones conta que “Ferenczi e eu tivemos, nesse verão, muitas conversas com Freud sobre a melhor maneira de enfrentar a situação que Jung criara ao renunciar aos princípios fundamentais da psicanálise. Não havia mais sentimentos amistosos entre ele e Freud, mas o problema era muito mais importante do que qualquer questão pessoal. Freud continuava otimista quanto à possibilidade de manter pelo menos uma cooperação formal e tanto ele quanto Jung desejavam evitar tudo que pudesse ser considerado briga.” (111)  Essa posição institucional de Freud contrasta com suas firmes e seguras posições relativas à teoria, posições que são defendidas abertamente através da discussão dos pontos divergentes em textos públicos. Como já referimos mais acima, Freud debateu longamente as idéias desses que foram um dia seus parceiros (os mais significativos: Adler, Jung, Rank, e Ferenczi, o mais duradouro de todos), mostrando o porquê de suas posições teóricas divergentes. Nesse aspecto Freud mostra-se firme e intransigente, mas elegante como sempre. Mais uma razão para crermos que, para Freud, a sobrevivência da psicanálise como teoria acerca do psiquismo humano estava acima de qualquer querela pessoal.

5 – O último ponto que quero salientar diz respeito ao destino da verdade adquirida na análise pessoal. No capítulo III de A história do movimento psicanalítico, Freud, antes de responder a Adler e a Jung, pondera que a fuga pode ser uma reação possível das pessoas quando encontram-se com as realidades desagradáveis de sua subjetividade evocadas pela análise. E continua: “Mas eu não esperava que alguém que houvesse alcançado certa profundidade na compreensão da análise pudesse renunciar a essa compreensão e perdê-la.” A experiência mostra que é possível ocorrer uma rejeição total do que foi aprendido na análise diante de uma resistência especialmente forte. “… podemos vê-lo … lançar tudo o que aprendeu às urtigas e ficar na defensiva como o fez nos dias em que era um principiante despreocupado. Tive que aprender que a mesmíssima coisa pode acontecer tanto com psicanalistas como com pacientes em análise.” (62) Se somos recrutados nas fileiras dos “neuróticos” não somos transformados em sobre-humanos ou em semi deuses pelo tratamento analítico de nossas questões pessoais. Continuamos sendo humanos, com tudo o que isso implica. A análise pessoal é fundamental para trabalharmos como analistas, para que possamos aprender a nos deixarmos ser orientados pela condução do inconsciente no curso do tratamento. Mas isso não nos torna pessoas melhores ou piores que as outras, nem nos dá o domínio sobre nossa subjetividade. Continuamos tendo inconsciente, emoções, reagindo impulsivamente, resistindo ao que ofende nosso narcisismo. E devemos lembrar que os humanos mantém sistemas de crença paralelos, que podem ser conflituosos e até opostos um ao outro sem que um desses sistemas saiba ou interfira no outro. Isso Freud também nos ensinou. E começou nos ensinando isso através da descoberta empírica fundamental da psicanálise: as formações do inconsciente. Remeto o leitor interessado a meu livro Uma semântica para o ato falho onde trabalho com vagar essa divisão. E não há análise que a suture. Podemos passar anos e anos em um divã, rever detalhes de nosso passado, reescrever grande parte de nossa história, mas nunca seremos indivíduos indivisos. 

Só há um recurso para lidar com isso: a honestidade consigo mesmo e a formação permanente.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje VIII

O primeiro momento da resposta lacaniana à questão da instituição analítica foi a fundação da École Freudienne de Paris em 1964. Nela o ensino teórico é realizado através do cartel, dos seminários e demais atividades promovidas pela Escola. A análise didática não tem padrão e não há obrigatoriedade de escolha de analistas didatas. Um analista é “didata a partir da realização de uma ou mais psicanálises que se revelaram didáticas.” (Ata de Fundação da EFP). O mesmo vale para a supervisão. 

Mas o acabamento da resposta se dará com a Proposição do 9 de outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola, texto fundamental para a compreensão da proposta institucional lacaniana (que ele adverte que deve ser entendido com base na leitura do artigo Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956, que estivemos comentando). Já com três anos de existência da Escola, Lacan afirma que é do funcionamento (diz ele que foi só nisso que inovou) que surge a solução para o problema das Sociedades Psicanalíticas, que se encontra na “distinção entre a hierarquia e o gradus”. (248) – (As páginas referem-se à edição brasileira de Outros Escritos.) Essa distinção esta no fundamento, a meu ver, da distinção entre o AME e o AE. Tudo parte do princípio fundamental da escola: “o analista só se autoriza de si mesmo” (já comentamos esse “si mesmo” em posts anteriores). Mas isso não exclui “que a Escola garanta que um analista depende de sua formação”. Notemos aqui a distinção entre autorização e formação. A primeira está adscrita ao si mesmo. Mas a segunda evoca a Escola como garantia de que um analista depende de sua formação. É aqui que reside a diferença fundamental entre as instituições analíticas tradicionais e a Escola de Lacan. Uma sociedade, um instituto, ministram uma formação e testemunham que alguém a recebeu concedendo um título ou um diploma. Esse documento é a garantia da formação. Isso dá origem a níveis hierárquicos de saber, atrelados a uma formação autêntica. Como a proposta de Lacan visa a produzir um gradus e não uma hierarquia, a garantia de formação da Escola resume-se em garantir que um analista depende de sua formação. Querer essa garantia implica em duas consequências para o analista que a pede: tornar-se responsável pelo progresso da Escola e tornar-se psicanalista de sua própria experiência. Em resumo: querer a garantia da Escola significa querer depender de sua formação, ou seja, estar implicado na garantia com seu desejo.

Essa garantia vem sob a forma do titulo de A.M.E. (Analista Membro da Escola), concedido a aqueles que a Escola reconhece como psicanalistas que deram provas de seu desejo de formação permanente. O outro título, de A.E. (Analista da Escola) refere-se à autorização e é concedido a aquele que o demandou, pois julga “… estar entre os que podem dar testemunho dos problemas cruciais, nos pontos nodais em que se acham eles no tocante à análise …” (248) Quer dizer: são os que querem dar testemunho de sua passagem pelo desejo do analista e de sua vivência particular do princípio de que “o analista só se autoriza por si mesmo.” Dai o procedimento para verificar essa passagem intitular-se “procedimento do passe”.

Estabelecendo uma estrutura de gradus para a formação e substituindo a análise didática por uma análise que poderá resultar em didática, tanto para o analisante como para o analista, Lacan propõe uma solução que evitaria o problema dos efeitos de grupo produzidos pela hierarquia das Suficiências nas sociedades analíticas. No entanto a história mostra que ele não foi bem sucedido. Em 1980 Lacan dissolve a Escola Freudiana de Paris, pois ela estava funcionando “na contramão daquilo pelo qual a fundei” (319). Ou seja, sua Escola tinha soçobrado aos efeitos de grupo e transformou-se no fac-símile da instituição que ele denunciara em 1956, numa Igreja. Diz literalmente: “… minha Escola seria uma Instituição, efeito de grupo consolidado à custa do efeito de discurso esperado da experiência, quando ela é freudiana. Sabemos o que custou o fato de Freud haver permitido que o grupo psicanalítico prevalecesse sobre o discurso, tornando-se Igreja.” (319) A meu ver essa última sentença é uma alusão, através de Freud, à experiência com a Escola Freudiana da Paris e um argumento para a dissolução.

Lacan dissolveu sua Escola mas fundou outra, a École de la Cause Freudienne. Mas ela não pôde mais reunir os lacanianos sob um mesmo teto. Novamente a história mostra que ela também não foi bem sucedida. Ela já se dividiu, pelos motivos de mestria de sempre, produzindo outra escola chamada de Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (além de muitas outras “de pequeno porte”). O fato é que as escolas e instituições lacanianas começaram a se multiplicar e a se espalhar pelo mundo. (No post 4 já relatei que contei 66 delas só no Brasil). Se Lacan desejou propor uma solução não eclesiástica para o agrupamento dos analistas, infelizmente seu tiro saiu pela culatra e o que aconteceu foi uma multiplicação desenfreada de “igrejas lacanianas”. 

Lacan foi um homem de sua época e seu ensino é a proposta de reintrodução da psicanálise no pensamento científico, e sem dúvida, no que havia de mais avançado no momento. Apesar de ter questionado – a partir de certo momento de sua obra, marcado pelo texto A ciência e a verdade – a psicanálise como ciência e ter se tornado um crítico da ciência, principalmente de seu uso pelo mundo capitalista, Lacan nunca deixou o caminho da razão. No texto que encontra-se na contra capa de seus Écrits escreve: “É necessário ter lido essa coletânea, e toda ela, para sentir que ai se persegue um mesmo debate, sempre o mesmo, e que, embora esteja datado, se reconhece por ser o debate das luzes”. 

O solo epistemológico lacaniano é o formalismo do Século XX e é a partir deste que propõe a releitura da teoria freudiana. Não vou entrar aqui no mérito dessa questão. Remeto o leitor interessado a meu livro, Categorias conceituais da subjetividade onde tratei longamente do formalismo. O problema é que Lacan afirma, equivocadamente, que essa leitura já está em Freud. Mas não só. Que essa é a leitura correta do texto freudiano. As outras estão equivocadas por não terem conseguido ir ao cerne do pensamento de Freud. Quem não lê como ele está lendo errado. Isso não é uma interpretação minha, pode ser lido diretamente em vários textos de Lacan ao longo de sua obra. Quero deixar claro que, para mim, esses arroubos de arrogância não desmerecem sua obra e seu trabalho intelectual que, sem dúvida, põem em relevo aspectos fundamentais da obra freudiana como, por exemplo, a questão da oposição entre desejo e satisfação (gozo) e do papel simbólico da função paterna e suas consequências no desenvolvimento do indivíduo e da civilização. Temos muito o que aprender com Lacan. Mas é uma leitura, não a leitura. Lembro que diante da multiplicação das “psicanálises” na Viena de sua época, Freud afirmou: “ninguém pode saber melhor do que eu o que é a psicanálise”. (ver post 5) Parece que Lacan, na falta de Freud e situando-se como seu herdeiro direto, atribuiu-se esse direito. 

Mais do que qualquer outro aspecto no funcionamento de sua Escola (que, convenhamos, tem um desenho muito condizente com a identidade freudiana), talvez tenha sido a identificação com esse traço de Lacan – aquele que sabe ler Freud – que multiplicou pelo mundo os “chefes de escola”, sempre alinhados com uma linhagem de chefes (a verdadeira) e sempre atacando as linhagens rivais (as falsas) e seus comandantes. Em apoio a essa argumentação, posso citar o fato de que os kleinianos e os anafreudianos, que são teoricamente água e vinho, convivem sob o mesmo guarda chuva da IPA. Para muitos pode ser surpreendente constatar que, olhando a psicanálise de hoje,  a IPA tem se mostrado muito mais tolerante com as diferenças!

Dessa forma, o fenômeno da multiplicação das escolas pode ser derivado de um fenômeno muito mais basal: o fenômeno da multiplicação dos mestres. O que identificações como essas produzem nos grupos, nesse caso específico nas sociedades analíticas? Esse ideal identificatório não promove a autonomia dos indivíduos, pelo contrário, traz um efeito de sujeição que uniformiza a todos. Referindo-se às consequências de conceber o final de análise como identificação ao analista, no texto que comentamos, Situação da psicanálise e formação do analista em 1956, Lacan, em um de seus momentos mais inspirados, alude à shadenfreude nazista, que promove no povo a identificação com o Führer (shadenfreude quer dizer: o sentimento de satisfação pelo sofrimento do outro): “… será o sentimento que soldará mais fortemente o grupo: esse sentimento é conhecimento, sob uma forma patética, nele comunga-se sem se comunicar, e ele se chama ódio. Sem dúvida um bom objeto, conforme se diz, pode ser promovido a essas funções de sujeição, mas esta imagem que faz os cães fiéis, torna os homens tirânicos…” (479)

O resultado disso é que podemos identificar no lacanismo internacional as mesmas consequências que Lacan apontara em seu texto em relação às sociedades da IPA de sua época e que listei no post anterior. Esta psicanálise isolou-se da ciência contemporânea, principalmente da psiquiatria e da neurociência, vendo-as como equivocadas e enganosas, frutos de uma ciência vazia. Sua pobreza teórica pode ser constatada nos textos (e lives) que circulam sempre em torno dos mesmos conceitos, poucos e mal compreendidos, pela repetição de frases de impacto (como, por exemplo, a mulher não existe), pelo apego a abstrações por vezes muito distantes da prática concreta, pela redução da complexidade da clínica a poucas categorias tomadas como essências (foi o que aconteceu com as nobres neuroses – histérica e obsessiva – freudianas). O resultado é a paralização da discussão crítica, princípio de todo o progresso científico. Novamente, o progresso do saber está subordinado e submetido à política.

Lacan apostou numa organização diferente para o agrupamento dos analistas. Tentou organizar um funcionamento de acordo com o laço psicanalítico, que privilegia as formações do inconsciente, o reconhecimento das diferenças, a luta contra as resistências e a utilização da transferência para o trabalho. Mas, se esse laço deve ser soberano para aquele que conduz uma análise (o que depende de sua formação, é claro), a nível institucional não mostra eficácia. Nesse nível o discurso do mestre impera, não tem rival, é avassalador. Não penso que seja porque as pessoas são presas fáceis de profetas de plantão. Elas não são ingênuas, são elas que entronizam os mestres, pois precisam deles. Têm sede de proteção. Não há mestre sem escravo nem escravo sem mestre, é uma relação dialética, ensina Hegel. Penso que isso tem raízes profundas no que há de mais constitutivo na subjetividade dos seres humanos, seu desamparo psíquico. Vamos tratar mais demoradamente desse assunto  posteriormente.

Mas, antes disso, que conclusões podemos tirar dessa história? Ela deve servir para posicionar-nos diante da situação da psicanálise em 2020, da degradação das instituições analíticas e da trivialização da formação. Pois, como disse Freud: quem não conhece sua história está condenado a repetí-la.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje VII

Três anos depois de Balint apresentar seu trabalho sobre a formação e a didática no XVIII Congresso da IPA, Lacan publica um texto intitulado Situação da Psicanálise e formação do psicanalista em 1956, no número especial de outubro-dezembro de 1956 de Les Études Philosophiques em comemoração ao centenário do nascimento de Freud e posteriormente publicado nos Écrits. Nele Lacan apresenta uma crítica ácida e mordaz tanto da maneira como a IPA representava e sustentava a psicanálise nessa época quanto da formação que era proposta aos psicanalistas.

Qual era a situação da psicanálise em 1956 ao ver de Lacan? Conceitualmente vazia e tecnicamente equivocada por ter-se perdido no que ele chama de “vício mais profundo”, quer dizer, numa psicologização imaginária que deu livre curso a fantasias psicológicas que degradaram os conceitos teóricos e que contaminaram a prática com a díade imaginária do hic et nunc. Os efeitos dessa errância se mostravam na confusão sobre os conceitos – cada um que utilizava os termos freudianos designava algo diferente – e na degradação de seu uso. Assim como a frustração (termo que, segundo Lacan, não consta em Freud) tornou-se explicação para tudo, a transferência acabou reduzida a uma constelação de sentimentos experimentados pelo paciente, e a resistência assimilada a uma atitude de oposição. Tudo isso resultou na “segregação intelectual” da psicanálise relativamente à ciência e em seu isolamento intelectual.

Se essa era a situação da psicanálise nesse momento, o que Lacan propõe como saída desse impasse? Faço questão de citá-lo: “Para saber o que é a transferência, é preciso saber o que se passa na análise. Para saber o que se passa na análise, é preciso saber de onde vem a fala. Para saber o que é a resistência, é preciso saber o que faz tela ao advento da fala: e não é tal disposição imaginária individual, mas uma interposição imaginária que ultrapassa a individualidade do sujeito, no que ela estrutura sua individuação especificada na relação dual.” (461) – (Os números entre parênteses referem-se às paginas da edição francesa. As traduções são minhas.) Ou seja, a psicologização sofrida pela psicanálise é resultado de uma interposição imaginária que faz tela ao advento da verdadeira determinação, à qual a função imaginária está subordinada, e que, ao ver de Lacan, é o cerne do ensino freudiano, a determinação simbólica. Essa determinação simbólica Lacan vai buscá-la no formalismo de sua época, no estruturalismo de Saussure e Levi-Strauss, radicalizando a distinção entre significante e significado e afirmando a primazia do significante (do simbólico) sobre o significado (o imaginário). “Dessa determinação simbólica, a lógica combinatória nos dá a forma mais radical, e é preciso saber renunciar à exigência ingênua que quereria submeter sua origem às vicissitudes da organização cerebral que a reflete ocasionalmente.” (468) É pela leitura formalista da psicanálise que Lacan pretende devolver-lhe seu caráter científico situando-a no corpo das ciências que ele chama de conjecturais, termo com o qual substitui a denominação de ciências humanas. “Isso lhe confere seu lugar no reagrupamento que se afirma como ordem das ciências conjecturais. Pois a conjectura não é o improvável: a estratégia pode ordená-la em certeza. Da mesma forma, o subjetivo não é o valor de sentimento com o qual se o confunde: as leis da intersubjetividade são matemáticas.” (472)

Isso quanto ao aspecto da situação da psicanálise. E a formação do analista? Lacan observa que Freud escreveu Psicologia de grupo e análise do ego, não por acaso, após dez anos de experiência depois da fundação da IPA. Nesse texto se interessa pelos mecanismos psicológicos que determinam a organização e o funcionamento dos grupos humanos. Curiosamente, Jones faz uma observação semelhante com respeito ao interesse de Freud pela psicologia da religião, cujo aparecimento em textos coincide com os problemas com Jung. Estas duas temáticas (a psicologia dos grupos e a psicologia da religião) estão intimamente vinculadas e ambas giram em torno da figura paterna do Ideal do Ego e do Superego. No texto sobre os grupos, Freud faz uma descoberta fundamental, a meu ver ainda pouco explorada, que é a de que os grupos se mantém unidos por laços libidinais em que o ego da cada indivíduo está identificado a uma mesma imagem de Ideal do Ego e, portanto, dissolvido em uma massa de egos semelhantes, sustentada pela figura do chefe. Ao propor essa relação entre a fundação da IPA e o texto sobre a psicologia das massas, Lacan quer sugerir que Freud já havia identificado na hierarquia da IPA uma organização como essa, semelhante à Igreja ou ao Exército. Lembro que Balint já havia denunciado na IPA essa forma de organização.

Para Lacan, a hierarquia das instituições analíticas da IPA tem apenas um grau, o analista didata, que ele chama de Suficiências. Dá esse nome (inspirado na Fenomenologia do espírito de Hegel) porque elas se bastam em si mesmas, não necessitando nada além delas próprias para provarem-se como tais. Mas, sendo assim, como as Suficiências se transmitem, produzem discípulos? “… resta-lhe(s) a via da reprodução imaginária a que por um modo de fac-símile análogo à impressão, permite, se se pode dizer, a tiragem em um certo número de exemplares, em que o único se pluraliza. … Pois não esqueçamos que a entrada na comunidade é submetida à condição da psicanálise didática, e há bem alguma razão para que tenha sido no círculo dos didáticos que a teoria que faz da identificação com o Ego do analista o fim da análise, tenha sido dada a luz.” (476) Nessa reprodução via xerox, esse ideal identificatório não promove a autonomia dos indivíduos, pelo contrário, traz um efeito de sujeição que uniformiza a todos. Obtém-se, assim, o que há de mais contrário ao que a experiência analítica visa a obter: o acolhimento da estranheza das formações do inconsciente, o acolhimento das diferenças e o advento de um sujeito capaz de desejar (por si mesmo). 

Lacan enumera as consequências da situação em que se encontrava a Psicanálise em 1956 (488):

1 – a extraterritorialidade científica da psicanálise,

2 – a pobreza teórica manifestada pela repetição dos conceitos e pelo pouco aproveitamento da riqueza da experiência, 

3 – a rotina repetitiva dos programas teóricos,

4 – a pobreza na utilização do método psicanalítico para aprimorar a nosografia psiquiátrica, e,

5 – o arrasamento do senso crítico.

O resultado é a paralisação da discussão crítica, princípio de todo o progresso científico. A ciência aqui está subordinada e submetida à política.

Em 1956 Lacan faz o diagnóstico. Com os anos virá sua resposta. Trataremos dessa resposta no próximo post.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje VI

Diante da situação das “diversas escolas de psicanálise” criada por Adler e Jung, Ferenczi observou que o plano ideal seria a presença, nos diferentes centros internacionais da Associação, de analistas que tivessem sido analisados completamente por Freud em pessoa. Como isso parecia muito pouco plausível, Jones veio com a ideia da criação de um comitê, um pequeno grupo de analistas dignos de confiança, uma espécie de ‘velha guarda’, em torno de Freud. Esse grupo prestaria a Freud um auxílio prático, velando pelos conceitos fundamentais da psicanálise. Entre eles havia um pacto: se algum deles desejasse afastar-se de alguns desses princípios (por exemplo: os conceitos de repressão, de inconsciente, de sexualidade infantil, etc…) prometia não fazê-lo publicamente antes de haver discutido seus pontos de vista no grupo. Freud concordou prontamente com essa ideia: “…um conselho secreto composto dos melhores e mais dignos de confiança de nossos homens para cuidar do desenvolvimento da psicanálise quando eu não existir mais … Sei que há um elemento infantil e talvez romântico nessa concepção … Ouso afirmar que a vida e a morte me seriam mais fáceis se eu soubesse da existência dessa associação para velar por minha criação.”, escreveu ele em resposta à carta em que Jones lhe comunicava essa proposta. (pág. 162) Composto inicialmente por Jones, Ferenczi, Rank, Sachs e Abraham, recebeu mais tarde Eitingon. Na primeira reunião desse comitê, Freud comemorou o acontecimento presenteando cada um dos membros com um entalhe grego antigo de sua coleção que foram adaptados em anéis de ouro. Como Freud usava um anel desse tipo com um entalhe greco-romano com a cabeça de Júpiter, esse grupo ficou conhecido como os Sete Anéis. O comitê dos Sete Anéis por mais de dez anos esteve ao lado de Freud, auxiliando-o em termos administrativos, científicos e pessoais. Formou uma espécie de escudo protegendo e fortalecendo Freud contra os ataques de que era alvo e cuidando das atividades institucionais, deixando-o livre para exercer seu trabalho criativo. Na década de vinte, sérias dificuldades desenvolveram-se no relacionamento entre Rank e os demais membros do comitê. Este deixou o comitê em 1925 e seu lugar foi ocupado por Anna Freud. No Congresso de Innsbruck (1927) o comitê deixou de existir como uma organização “secreta”. Seu lugar foi ocupado pela Diretoria da Associação, sob a presidência de Eitingon. De qualquer forma, os membros desse comitê estiveram nas posições de liderança da IPA até a eclosão da segunda guerra.

Como vimos anteriormente, para Freud um ponto de fundamental importância para o futuro da psicanálise é a análise do analista, ou o que veio a se chamar de análise didática. Jones comenta que nessa época (1913) nem se pensava em análise didática. Já referimos que a primeira análise didática foram os passeios analíticos noturnos de Eitingon com Freud em 1907. Ferenczi passou três semanas sendo analisado por Freud tanto em 1914 quanto em 1916 e Jones analisou-se com Ferenczi em 1913. Nenhum dos outros membros teve qualquer análise pessoal regular. A esse respeito Jones comenta: “É digno de nota que Abraham saiu-se muito bem sem qualquer espécie de ajuda, o que mostra que o caráter o e temperamento originais de uma pessoa são da maior importância para o sucesso”. (pág. 170)

Em 1925, no Congresso realizado em Bad Homburg e presidido por Abraham, houve a proposta de criação de um comitê internacional para uniformizar os padrões de formação. A formação não deveria ficar a cargo da iniciativa pessoal dos indivíduos.  As Associações deveriam organizar Institutos de formação em seus países, e os regulamentos para a formação nestes Institutos seriam aprovados pela IPA. A formação deveria incluir “análise didática” e análise de pacientes sob supervisão. Qualquer um que desejasse praticar a psicanálise deveria completar a sua formação antes de se tornar um membro da IPA. Cada Sociedade filiada deveria eleger um Comitê de Formação com não mais do que 7 membros e estes Comitês juntos formariam uma comissão Internacional de Formação. Este seria o órgão central da IPA para todas as questões relacionadas com a formação psicanalítica. Eitingon foi nomeado o primeiro Presidente do Conselho de Formação.

Em 1932, havia sete Institutos de formação e os mais novos estavam seguindo o modelo de formação operante em Berlim, Viena e Londres. A formação durava no mínimo três anos, que incluíam dois anos de estudos teóricos, análise didática com um analista credenciado e duas análises de controle por no mínimo um ano cada. Estudos não analíticos em campos relacionados eram encorajados. Analistas leigos necessitariam estudos de fisiologia e experiência em clínica psiquiátrica e os médicos deveriam ter uma pós graduação em neurologia ou psiquiatria. Como se pode ver, o cerne dos regulamentos atuais da IPA já estavam estabelecidos antes da segunda guerra mundial. A formação ficava, enfim, regulamentada.

Embora os institutos de formação tenham acolhido o tripé proposto por Freud para a formação do analista, tratava-se, no entanto, de uma regulamentação formal. Estabelece normas sobre tempos de duração, cumprimento de exigências curriculares e classes hierárquicas. Nada que diga respeito ao que poderia ser intitulado de uma teoria da análise didática. O primeiro a questionar o sistema de formação da IPA e as análises chamadas didáticas foi Balint em um artigo de 1947 intitulado Sobre o sistema de formação psicanalítica. Além de quebrar o silêncio sobre a prática da análise didática, o artigo de Balint põe em relevo o fato dos analistas didatas não terem produzido nenhuma teoria sobre a análise didática e sua atitude dogmática em relação a ela. Acaba comparando o sistema de formação da IPA a práticas ritualistas religiosas. Em 1953, no XVIII Congresso Internacional volta ao tema com o trabalho Formação psicanalítica e análise didática no qual faz uma história da análise didática e, retomando as ideias de Ferenczi sobre o assunto, coloca a questão de seu alcance e de suas diferenças com a análise terapêutica. 

Dos discípulos diretos de Freud, o mais inquieto com a questão da ação do analista e de sua formação foi certamente Ferenczi. Em função de suas posições técnicas (que estão expostas no texto A técnica psicanalítica de 1919), chega à conclusão de que a principal garantia da realização de uma análise é o ser do analista. Dessa forma, a questão a análise pessoal do psicanalista torna-se uma questão fundamental para a psicanálise. Para Ferenczi, análise com fins de formação precisa avançar além da remissão dos sintomas e da retificação da fantasia. Precisa ir até a retificação da estrutura cristalizada do caráter. (Ferenczi diferencia, ecoando Freud pós 1920, sintoma e caráter como formas distintas de satisfação pulsional. O sintoma está relacionado ao conflito psíquico enquanto que o caráter à compulsão à repetição.) Em O problema do fim da análise de 1927, afirma: “ … o analista, de quem depende o destino de tantos seres, deve conhecer e controlar até as fraquezas mais escondidas de sua própria personalidade, o que é impossível sem uma análise inteiramente terminada”. (pág. 24 da edição brasileira das Obras Completas)

Essas questões ferenczianas foram de alguma forma tomadas pela IPA. A questão do ser concretizou-se na questão da contratransferência, e o domínio desta por parte do analista permitiria a isenção necessária à condução do tratamento. Mas a questão do fim de análise, que no ponto de vista de Ferenczi seria um “desenlace natural” em função do esgotamento da fantasia e da análise do caráter, acabou embaixo do tapete e dissolveu-se na regulamentação das análises didáticas. Certamente a questão do fim da análise é a questão crucial para a formulação de uma teoria da análise didática e da formação do analista, pois toca no que resta do ser após a retificação da estrutura do caráter e até que ponto essa estrutura é passível de mudança. Mas, como observou Balint, nada foi produzido a respeito pelos analistas que conduziam essas análises.

Quem retomou essas questões foi Lacan, que, como sabemos, coloca no centro de sua Escola a questão da formação do analista. E a retoma exatamente a partir do ponto em que Ferenczi a coloca, a partir da questão do ser. Em La direction de la cure escreve: “Apesar disso o ser é o ser, seja quem for que o invoque, e nós temos o direito de perguntar o que ele vem fazer aqui. Portanto, remeterei o analista a seu banquinho, na medida em que o sou eu próprio, para observar que ele está tanto menos seguro de sua ação quanto mais está interessado em seu ser.” (Écrits, pág. 587, a tradução é minha). Mas Lacan a retoma pelo lado inverso: “O analista é menos livre ainda no que domina estratégia e tática: a saber, em sua política, onde ele fará melhor em se orientar por sua falta a ser do que por seu ser.” (pág. 589) A falta a ser (manque à être) é um conceito fundamental na psicanálise lacaniana e é a base do preceito lacaniano de que “o analista só se autoriza de si mesmo”. Já tratamos disso no quarto post dessa série ao qual remeto o leitor. 

Como a “revolução institucional” promovida por Lacan com a fundação de sua Escola e as consequências da popularização de seu preceito quanto à autorização do analista tiveram profundas consequências no que aconteceu com a psicanálise no século XX, vamos considerar esses temas mais demoradamente no próximo post.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje V

Vamos começar tratando dos rumos históricos da psicanálise e de como eles acabaram colaborando com a tomada da psicanálise (ou ao menos grande parte dela) pelo espírito de nosso tempo. Para isso passearemos brevemente pela história das instituições analíticas, o que acabará se demostrando muito instrutivo.

 Desde seu afastamento de Breuer em 1894 até 1902, quando alguns jovens médicos aproximaram-se para aprender psicanálise, Freud esteve sozinho. Estes foram os anos de criação da psicanálise, do estabelecimento de seus conceitos fundamentais e de sua implantação clínica. Foram os anos do “esplêndido isolamento”, termo que Freud utiliza na História do Movimento Psicanalítico para designar esse período de solidão intelectual, aliviada parcialmente pela correspondência e encontros ocasionais com seu amigo Fliess, rinologista de Berlim. Se considerarmos a audácia de Freud, que forjava uma teoria que significou uma quebra de paradigmas teóricos e ao mesmo tempo experimentava uma inovação clínica sem precedentes, podemos imaginar a densidade de sua experiência subjetiva e emocional nesse momento. Como diz Jones: “Talvez o principal resultado de suas dolorosas experiências nesses dez anos tenha sido o de que neles Freud desenvolveu ou consolidou uma atitude mental que permaneceria como uma de suas características mais distintivas: a independência em relação à opinião de outras pessoas. Aprendera a estar só no mundo e, depois de rompida a amizade com Fliess, realmente só.” (pag 22, as referências, salvo observação, são da edição brasileira de 1989 da biografia de Freud escrita por Ernest Jones)

Em 1901 um médico que havia acompanhado as conferências que Freud pronunciara na Universidade sobre a psicologia das neuroses na virada do século, Max Kahane, mencionou o nome de Freud – como um neurologista que concebera um método novo para o tratamento das neuroses – para Wilhelm Stekel, que sofria de um incômodo problema neurótico. Stekel recorreu à ajuda de Freud e essa aproximação resultou, no outono de 1902, num convite feito por Freud (por sugestão de Stekel) aos quatro primeiros médicos que haviam aproximado-se dele (Adler, Kahane, Reitler e Stekel), de reunirem-se em sua residência para discutirem sua obra. Assim, todas as quartas-feiras à noite, na sala de espera de Freud, reunia-se a “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”. O resumo das discussões que ocorriam ali era elaborado por Stekel e publicado semanalmente na edição dominical do Neues Wiener Tagblatt. Na primavera de 1908 havia 22 membros e em 15 de abril daquele ano tornou-se a Sociedade Psicanalítica de Viena. 

 Embora o “esplêndido isolamento” tivesse passado, até 1906 Freud continuava isolado em Viena e circundado por colegas mormente judeus. Embora comentários, estudos e publicações sobre a psicanálise começassem a aparecer na Inglaterra e nos EUA, os únicos fatos fora de Viena de que Freud tomou conhecimento foram as referências negativas feitas em periódicos neurológicos e psicológicos alemães. Mas boas notícias começaram a aparecer em 1904 vindas de Zurique. No outono desse ano Freud foi informado por Eugen Bleuler, diretor do Hospital de Doenças Mentais Burghölzli, de que ele e seus colegas estavam estudando intensamente a psicanálise e aplicando-a em diversos campos, inspirados principalmente por seu principal assistente, C. G. Jung. Este já estava levando adiante seus famosos experimentos com associações de ideias. Em 1906 publicou um livro sobre o assunto (Diagnostiche Assoziationsstudien) e no ano seguinte um livro que fez história na psiquiatria, A psicologia de demência precoce, no qual estende várias ideias de Freud ao campo das psicoses. Freud estava tão ansioso para conhecê-los que comprou o primeiro deles antes mesmo que o exemplar que Jung lhe enviara houvesse chegado. Em abril de 1906 Freud e Jung iniciaram uma correspondência que durou quase sete anos, até o rompimento das relações. 

Em janeiro de 1907 chegou em Viena o primeiro visitante vindo de Zurique que trabalhava sob a orientação de Jung. Tratava-se de Max Eitingon, um berlinense que completava seus estudos médicos em Zurique, e que veio a tornar-se um dos amigos mais próximos de Freud e um dos nomes proeminentes da Associação Psicanalítica. Segundo Jones, “Passou três ou quatro noites com Freud, dedicadas a trabalho analítico pessoal durante longos passeios pela cidade. Esta era a primeira análise didática.” (pag. 46)

No dia 27 de fevereiro de 1907, um domingo, às dez horas da manhã aconteceu a primeira visita de Jung a Freud, na qual, conta-se, conversaram por 13 horas seguidas. Em dois de março Jung compareceu à reunião do grupo das quartas-feiras e a sequência mostra uma proximidade crescente entre ambos e uma importância cada vez maior de Jung para o movimento psicanalítico. Sabemos que houve uma atração excepcional entre ambos – a admiração de Jung por Freud e seu entusiasmo com a sua obra era irrestrita e Freud via nele seu sucessor, chamando-o de “filho e herdeiro”. Mas é fundamental sublinhar a dimensão política da entrada de Jung na psicanálise para compreender porque, até 1914, e apesar de todos os sinais de seu afastamento da psicanálise, Freud o manteve na direção da sociedade. 

Freud evidentemente ficou altamente entusiasmado com a constatação de que suas idéias, tão desprezadas e incompreendidas, estavam encontrando tamanha aceitação numa famosa clínica psiquiátrica no exterior. Era a oportunidade de estabelecer para a psicanálise um alcance e uma base mais ampla do que a que podia ser dada pelos judeus vienenses. Esse fato combinado com a impressão altamente favorável que teve da personalidade de Jung foram decisivos para a confiança depositada por ele em Jung. Assim foi inteiramente natural que, quando a Associação Psicanalítica Internacional foi fundada em março de 1910 no Congresso realizado em Nuremberg, Freud designasse Jung para presidente, transferindo a sede da sociedade de Viena para Zurique, sob os protestos da ala vienense, liderada por Adler e Stekel. A respeito desse fato, Jones conta: “Tomando conhecimento de que vários deles estavam fazendo um encontro de protesto no quarto de hotel de Stekel, Freud foi ao seu encontro e fez um ardente apelo à adesão deles.” (pag. 82)

Ao mesmo tempo que nasce a Associação Psicanalítica Internacional, nasce seu primeiro “conflito” institucional. Conta Jones que Jung referia-se aos vienenses que circundavam Freud como “uma mixórnia de artistas, decadentes e medíocres”. E os vienenses tampouco tinham os suíços em alta conta. A antipatia entre eles era recíproca. Felizmente outros de fora começaram a aproximar-se de Freud e efetivamente levaram adiante a empreitada psicanalítica: Jones, Ferenczi, Abraham, além de Eitingon, de Otto Rank e dos americanos. A psicanálise começava a espalhar-se pelo mundo, conforme atesta a presença de Putnam no talvez mais bem sucedido congresso da Associação, em Weimar em setembro de 1911. Nesse momento a Associação Internacional tinha 106 membros. 

Paradoxalmente ao sucesso desse crescente alcance internacional da psicanálise a Sociedade de Viena sofria com ciúmes e dissensões. Adler afastou-se em julho e no ano seguinte Stekel, fatos que causaram muitos dissabores a Freud. Dos colegas de primeiros tempos restara apenas Rank. Mas não só em Viena as coisas não andavam boas. Em Zurique a psicanálise estava sendo furiosamente atacada pelos jornais. O pastor Pfister, grande amigo e colaborador de Freud, foi chamado a prestar contas a seus superiores. As clínicas particulares esvaziavam. “Freud sempre considerou que essa campanha de vituperação foi uma das razões para a mudança da disposição que ocorreu, logo depois, entre seus adeptos suíços. É sempre difícil para um suíço ir contra seus compatriotas.” (pag. 103) Isso ocorreu no início de 1912 e dois anos depois todos os analistas suíços (com duas ou três exceções) renunciaram a seus “erros” e abandonaram as teorias sexuais de Freud.

A oposição dos suíços às teorias sexuais freudianas tem nome próprio: Carl Gustav Jung. Em 1909 Jung anunciou sua intenção de mergulhar em estudos de mitologia com a intenção de mostrar que sua chave poderia ser encontrada na universalidade do tabu do incesto. No entanto o resultado foi o contrário. No ensaio de Jung que apareceu em 1911 sobre “Símbolos da libido”, a ideia de incesto não deveria ser tomada literalmente, mas como símbolo de ideias mais elevadas e a libido perdia sua característica sexual para designar amplamente uma tensão geral. O corpo era substituído pelo inefável. Jung afastava-se da psicanálise freudiana, mas permanecia na presidência da Associação Psicanalítica Internacional. Em setembro de 1912 Jung foi a Nova Iorque dar uma série de conferências e voltou gabando-se para Freud sobre como ele fora bem sucedido em tornar a psicanálise mais aceitável, mediante a exclusão de temas sexuais. “Ao que Freud respondeu secamente que não via nada de arguto nisso; tudo o que se tinha a fazer era excluir mais coisas e ela se tornaria ainda mais aceitável.” (pág. 153)

A crescente divergência entre os pontos de vistas teóricos entre Jung e Freud era tão fundamental que os mais chegados a Freud começaram a se indagar o que havia em comum no trabalho científico dos dois grupos, o vienense e o suíço. Tudo isso criava uma situação bastante incômoda, pois Jung ainda era presidente da Associação Internacional e editor do Jahrbuch. Esse foi um dos principais motivos que levou à criação do comitê, do qual falaremos no próximo post. 

A situação estava tão tensa que era grande a incerteza que pairava sobre o que ocorreria no congresso de 1913 em Munique e se a Associação Internacional sobreviveria à divisão. Em 8 de maio de 1913 Freud escreveu a Ferenczi: “É bem possível que desta vez consigam realmente sepultar-nos, depois de tantos hinos fúnebres entoados sobre nós em vão. Isso mudará muito nosso destino pessoal, mas nada o da ciência. Temos a verdade; estou tão certo disso quanto há quinze anos.” (pág. 157)

O Congresso realizou-se, Jung foi reeleito presidente com 2/5 de abstenção dos presentes, e a Associação sobreviveu. Evidentemente a situação continuou tensa. Em outubro desse ano Jung renunciou à editoria do Jahrbuch e anunciou que não era mais possível qualquer colaboração com Freud. Mas só afastou-se do cargo de presidente em abril de 1914. Pouco tempo depois anunciou sua saída da Associação.

A dissensão de Jung foi muito mais profunda e séria que a de Adler. Mas isso não impediu que o mundo acadêmico proclamasse que havia três escolas de psicanálise, que não chegavam a um acordo entre si, logo não havia nenhuma necessidade de levar esse assunto a sério. Isso levou Freud a escrever a História do movimento psicanalítico onde afirmou: “Embora de muito tempo para cá eu tenha deixado de ser o único psicanalista existente, acho justo continuar afirmado que ainda hoje ninguém pode saber melhor do que eu o que é a psicanálise, em que ela difere de outras formas de investigação da vida mental, o que deve precisamente ser denominado de psicanálise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer.” (pag. 16)

Esse texto foi a resposta teórica de Freud a Adler e a Jung, pois ali discute longamente as teorias de ambos e suas divergências com a psicanálise freudiana. Mas, tendo em conta a história descrita acima, entende-se por que Freud escreveu a respeito de Jung: “Eu não tinha, na ocasião, a menor idéia de que apesar de todas essas vantagens a escolha era a mais infeliz possível, que eu havia escolhido uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade da outra, mais incapaz ainda de exercê-la ele próprio, e cujas energias se voltavam inteiramente para a promoção de seus próprios interesses.” (História do… pág. 56)

Freud pensava que a razão fundamental dessas dissensões podia ser catalogada dentro do tópico: resistência à psicanálise. “Sabia muito bem, naturalmente, que qualquer pessoa, ao primeiro contato com as realidades desagradáveis da análise, pode reagir fugindo; eu próprio sempre havia sustentado que na compreensão da análise cada indivíduo é limitado por suas próprias repressões … de modo que não pode ir além de um certo ponto em sua relação com a análise. Mas eu não esperava que alguém que houvesse alcançado certa profundidade na compreensão da análise pudesse renunciar a essa compreensão e perdê-la. … Tive que aprender que a mesmíssima coisa pode acontecer tanto com psicanalistas como com pacientes em análise.” (História do… pág. 62)

Ou seja, desde a perspectiva freudiana essas polêmicas teóricas e institucionais conduzem o foco para uma questão central: a formação do analista, especialmente para a análise do analista, que acabou recebendo o nome de análise didática. No próximo post veremos as consequência dessas dissidências.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje IV

Vamos começar a descer o iceberg.

Consideremos uma situação comum. Imaginemos um aluno nos últimos anos da faculdade de psicologia ou recém-formado, ou mesmo alguém com mais tempo de profissão, interessado em psicanálise que gostaria de fazer uma formação. Suponhamos que o interessado procure uma formação “séria”, não cursos on-line. Poderia procurar uma formação nas sociedades afiliadas da IPA ou aproximar-se da Escola Brasileira de Psicanálise. Cito essas duas por serem as diretas derivadas, por terem sido fundadas, a primeira de Freud e a segunda de Lacan. Na verdade penso que essa alternativa nem passa mais pela cabeça da maioria dos interessados. Dada a situação atual da transmissão da psicanálise em terras verde-amarelas, presumo que informações a respeito da “oficialidade” dessas instituições sejam pouco conhecidas. Mas desconhecimentos a parte, em função da situação geográfica, financeira e profissional do interessado, isso pode ser complicado, o que é o caso para a grande maioria. Afinal para que despender tanto esforço se bem pertinho estão à disposição uma grande oferta de cursos de formação, de seminários e de grupos de estudo em instituições com nomes pomposos onde sempre constam os sobrenomes ‘freudiano’ ou ‘lacaniano’.

Recentemente contei 66 delas (em sua imensa maioria de sobrenome lacaniano) que assinaram um manifesto publicado na web. Embora este número compreenda algumas seções de uma mesma instituição, acho que ele é maior, pois conheço instituições que não estão lá. Confesso que, quando vi esse número, fiquei pasmo. Há algo errado aí. É verdade que dissensões sempre foram regra na história da psicanálise. Freud já amargara algumas, como as de Jung, Rank, Adler, Tausk, entre outros. Mas eles saíram da psicanálise. A IPA, por outro lado, conseguiu manter sob seu guarda chuva abordagens conceitualmente diferentes e até conflituosas, como as de Anna Freud e Melanie Klein. Mas as divisões que atingem as instituições lacanianas, estas são um caso a parte. Vamos pensar sobre isso mais para frente.

Voltemos ao nosso estudante. Convenhamos que a transmissão da psicanálise em algumas dessas instituições é levada a sério. Há pessoas com conhecimento e percursos respeitáveis pela clínica e pela teoria. Há também produção intelectual e ambiente propício aos estudos. Se considerarmos que o analista depende de sua formação e se essa formação depende do que nela ele põe de ‘si mesmo’, conclui-se que ele deve tornar-se responsável pela própria formação. Ela não é algo que se ganha, mas algo que se conquista com muito esforço. Isso quer dizer não responsabilizar a instituição ou seus mestres pela sua formação. Se essa for a posição subjetiva de nosso estudante, ele pode encontrar na instituição um espaço para sua formação.

Vamos considerar um pouco mais esse ‘si mesmo’. Ele consta do princípio enunciado por Lacan: “o analista só se autoriza de si mesmo”. A última sentença da “Abertura da Coletânea” que Lacan escreveu quando da publicação de seus Écrits em outubro de 1966 diz: “Queremos do percurso do qual esses escritos são as balizas e do estilo que sua destinação exige, levar o leitor a uma consequência onde ele tenha que por de si.” Lacan situa seus escritos como balizas no percurso da formação do analista cujo destino, para cada um, é encontrar ‘seu estilo’. O que entender por estilo, os leitores interessados podem ir direto ao texto lacaniano, mas basta dizer aqui que ele remete ao lugar da falta a ser, o lugar da causa do desejo. Lugar que nenhum saber pode preencher.  O conhecimento reunido nas quase 900 páginas dos Écrits são balizas, orientações que indicam um caminho a seguir. Mas para percorrer esse caminho é necessário que o aprendiz ponha de si: seu esforço, sua vontade, seu desejo, sua perseverança. Recordo aqui a carta de Anna Freud: “Se você quer ser um verdadeiro psicanalista você deve ter um grande amor pela verdade, tanto a verdade científica quanto a verdade pessoal, e você deve colocar esse amor à verdade acima de qualquer desconforto ao encontrar fatos desagradáveis, quer eles pertençam ao mundo exterior ou ao interior de tua própria pessoa.”

“Só sei que nada sei” é o famoso dito de Sócrates que veio a se constituir numa espécie de inscrição no portal de entrada da ciência ocidental (ciência entendida aqui no sentido amplo). Esse dito não é uma confissão de ignorância absoluta. Basta ler qualquer dos Diálogos platônicos para constatar que Sócrates na verdade não agia exatamente como um ignorante. Nesse dito há uma confissão positiva de saber: uma coisa eu sei que eu sei: que nada sei. Sei positivamente que todo o saber que eu tenho é nada perto do que se tem a saber, que toda a certeza é provisória e que o saber que hoje penso ser verdadeiro poderá revelar-se falso a qualquer momento. Assim como quem entra no inferno de Dante deve depor em suas portas toda a esperança, quem entra no portal da ciência deve depor todas as suas certezas.

Em resumo: quanto mais conhecemos, menos sabemos. Sabedoria vem de saber e não de conhecer. A sabedoria é uma atitude diante do conhecimento, de seu valor e de sua verdade. Sábio é aquele que “sabe que tem tudo para saber” e não aquele que instalou a wikipédia em seu cérebro. Ou seja, o resultado do esforço de perseverar no percurso da formação permanente não é de acúmulo, mas de perda, perda das certezas atrás das quais costumamos esconder-nos da realidade.

Dito isso, o problema que nosso estudante encontrará nas instituições é que elas estão entupidas de conhecimento, e conhecimento transmitido sob uma forma dogmática. Toda a instituição tem um discurso oficial que instaura uma leitura correta dos conceitos psicanalíticos. É claro que, se há uma leitura correta, aquelas que a questionam ou apresentam pontos de vista diferentes estão erradas. Com isso toda a crítica fica excluída, e com a dúvida excluída, resta a certeza. O amor pela verdade virou amor pela certeza. Freud identificou nesse amor o laço libidinal que mantém a coesão interna de um grupo e transforma tudo o que é diferente ou exterior em inimigo. Quem frequentou ou frequenta essas instituições pode constatar que o texto lacaniano e o freudiano são tratados como as sagradas escrituras, digamos, o novo e o velho testamento, respectivamente, desde que o velho testamento seja lido sob a luz do novo. E cá entre nós, poucos são os que leem o velho testamento!

Mas essas salas institucionais herméticas, donde mal se pode apreciar o há lá fora através de suas janelas embaciadas, apresentam aberturas para o exterior. Podemos dizer que há tantas aberturas quantas pessoas. São as telinhas que dão acesso às redes ditas sociais. Nelas nosso estudante pode encontrar tudo o que não tem lá dentro. O imenso número de vídeos que podem ser encontrados no YouTube, por exemplo, é impressionante. São aulas, conferências, mesas redondas, entrevistas, seminários, cursos, etc… E tem também os Youtubers, os influenciadores digitais, que contam com  uma infinidade de seguidores. Para adquirir conhecimento não há mais nenhuma necessidade de ler, passar horas em cima dos textos quebrando a cabeça para entendê-los. Isso é coisa do passado. Está tudo explicadinho ali nos vídeos. A um vídeo segue-se outro, e outro, e outro, a uma postagem segue-se outra, e outra, e outra, numa sequencia infindável e hipnotizante. 

Eis nosso estudante, capturado internamente pela certeza da “leitura correta” e externamente pela enxurrada de informações que emanam das telas animadas pelos pequenos mestres contemporâneos. Alienado como está ao infindável desfile desses outros, vai ser difícil ao nosso pobre estudante ‘pôr de si”.

Os caminhos que trouxeram a psicanálise a essa situação calamitosa podem, a meu ver, ser procurados em duas direções: uma tem a ver com os rumos que a própria psicanálise tomou e a outra com o rumo dos nossos tempos, que conduziu todos os produtos culturais à mesma situação degradada de produtos de consumo imediato. Vamos tratar de cada uma separadamente em nossos próximos posts. 

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje III

No site referido do post anterior, que propõe um curso totalmente online para formação de analistas, há uma aba de “dúvidas frequentes”. Um leigo que lê os argumentos apresentados nessa aba pode ficar convencido da propriedade da proposta. Muito bem, vamos discuti-los como se deve, ponto por ponto. Afinal, a análise crítica e a exposição argumentativa fazem parte da tradição científica na qual Freud inseriu a psicanálise. E, de quebra, vamos refletir um pouco mais sobre a formação de analistas.

A maior parte do texto é centrada nos aspectos legais (citando, à exaustão, leis, portarias, etc…) e devotada a convencer o leitor de que ele não precisa ser médico ou psicólogo para ser psicanalista, e que ser formado ou estar cursando qualquer outro curso superior é desejável, não impeditivo. A mensagem é: não deixe passar a oportunidade de fazer um curso que beneficiará sua vida pessoal incrementando seu auto-conhecimento e turbinará sua vida profissional, possibilitando uma ferramenta que pode ser aplicada nas mais diversas situações. Mas há um momento, ainda que breve, em que a conversa sobre leis e portarias cede espaço a considerações teóricas que evocam os argumentos freudianos em defesa da atividade de psicanalista não ser exclusiva de médicos e psicólogos. É interessante que Freud seja tratado ali como precursor da psicanálise e não como seu fundador. O importante é que “grandes nomes da psicanálise” a consideram uma ciência leiga, não amarrada à medicina ou à psicologia. Interessante essa denominação de ciência leiga. Podemos nos perguntar o que isso quer dizer exatamente, mesmo porque Freud a considerava um ramo da psicologia, chamando-a inúmeras vezes de psicologia profunda. No Pós-escrito de 1927 ao texto A questão da análise leiga Freud diz com todas as letras: “A psicanálise é uma parte da psicologia; não da psicologia médica no velho sentido, não da psicologia de processos mórbidos, mas simplesmente da psicologia.” (vol. XX, pág. 286)

Há um deslocamento indevido aí: de análise leiga para ciência leiga. Análise leiga opõe-se à análise médica. Freud se dá ao trabalho de esclarecer na Introdução desse texto: “Leigo = Não-médico” (vol.XX, pág. 209). E análise médica para Freud queria dizer a aplicação da psicanálise à prática clínica e não outra coisa. Deixa claro que “… o trabalho da análise é uma parte da psicologia aplicada – e, além disso, de uma psicologia que é desconhecida fora da análise. Um analista deve, portanto, antes de tudo, ter aprendido essa psicologia, essa psicologia profunda ou psicologia do inconsciente, ou pelo menos tanto dela quanto se conhece nos dias que correm.” (vol. XX, pág. 235)

Em seguida as “dúvidas frequentes” evocam o processo cível, iniciado na primavera de 1926, que envolveu Theodor Reik, membro não-médico da Sociedade Psicanalítica de Viena. Ele foi acusado de violação de uma antiga lei austríaca contra o ‘charlatanismo’, que tornava ilegal que uma pessoa sem o grau de medicina tratasse de pacientes. Na verdade Reik já fora proibido de praticar a psicanálise pelo Conselho Municipal de Viena em fevereiro de 1925. Antes disso, em novembro de 1924, Freud descreve, numa carta a Abraham, que um alto membro do Ministério da Saúde havia solicitado sua opinião sobre o assunto. Além de entregá-la por escrito, Freud conversou longamente com ele, o que levou “… a entendimento de amplas consequências entre nós”. (vol.XX, pág. 206) Esse processo foi encerrado pelo promotor público após uma investigação preliminar. Foi essa a motivação principal do texto de Freud sobre a análise leiga, escrito sob a forma de um diálogo com uma ‘pessoa imparcial’, que Strachey (o editor da Edição Standard das obras de Freud) acha muito provável ter tido como modelo o alto membro do Ministério com o qual Freud conversara. Mas a posição de Freud relativa à análise leiga já vem de muito antes. Em 1913 escreveu uma introdução para o livro O método psicanalítico do Dr. Oskar Pfister, pastor e educador de Zurique, amigo íntimo de Freud, inabalável partidário de suas teorias e talvez um dos primeiros leigos a praticar a psicanálise. Nela Freud se pergunta se “… a prática da psicanálise pode não ter como pré-requisito um treinamento médico, do qual o educador e o assistente pastoral devem permanecer excluídos …” . A resposta de Freud é clara: “Confesso que não posso encontrar fundamento para reservas desse tipo”. (vol. XII, pág. 417)

Essa posição freudiana tem feito a festa para todos aqueles que pretendem fixar um plaquinha em suas portas anunciando: “Fulano de tal, psicanalista”, independentemente de formação, procedência, treino e conhecimento. É claro que as “dúvidas frequentes” fazem grande alarde disso. Nesse ponto do longo texto do referido site, Freud não é mais o precursor, mas o criador da psicanálise, e “deixou bem claro que sua criação (psicanálise) era livre para todas e quaisquer profissões, não sendo desta forma uma técnica exclusiva de nenhum grupo profissional.”

Há um grande equívoco nessa leitura, equívoco que pode ser percebido muitas vezes até em discussões sérias sobre o assunto. A questão da análise leiga não é uma questão profissional. Seja lá que trecho do texto freudiano que se tome sobre essa questão percebe-se claramente que a discussão é outra. Para Freud a questão profissional é cristalina: o psicanalista depende de sua formação e ponto final. E essa formação inclui conhecimentos médicos específicos, além dos já referidos no primeiro post dessa série. Isso revela a grande preocupação de Freud com a atividade clínica propriamente dita e obviamente com o tratamento dos pacientes. Sua preocupação é tão grande que, tanto na introdução para o livro de Pfister quanto em A questão da análise leiga, ele preconiza ao analista leigo a parceria com um médico em casos que marginam a anormalidade mental quando o diagnóstico e o prognóstico parecem duvidosos. Mas não só: “Admito – não insisto – que em todo caso que esteja em consideração para análise o diagnóstico será estabelecido em primeiro lugar pelo médico. A maior parte das neuroses que nos ocupam é felizmente de natureza psicogênica e não dá motivos para suspeitas patológicas. Uma vez que o médico tenha firmado isto, pode confiantemente passar o tratamento a um analista leigo.” (vol. XX, pág. 275) Estas admoestações freudianas tem um objetivo claro: zelar pela atividade clínica propriamente dita (kliné, em grego, significa procedimentos de observação direta e minuciosa, aquele que se inclina sobre o leito para observar o doente ou paciente.) e pela postura ética que todo o clínico tem o dever de adotar no tratamento com seus pacientes. 

Se a preocupação de Freud nessa questão psicanálise/medicina não era profissional, qual era então? Resposta: científica. No capítulo VII e último de A questão da análise leiga Freud elenca os interesses em jogo na discussão da análise leiga. São três, os dos pacientes, os dos médicos e os da ciência, “… que realmente abrange os interesses de todos os futuros pacientes.” (vol. XX, pág. 276) O terceiro interesse, o da ciência, é o mais importante para Freud. “Pois não consideramos absolutamente conveniente para a psicanálise ser devorada pela medicina e encontrar seu último lugar de repouso num livro de texto de psiquiatria sob a epígrafe “Métodos de Tratamento”, juntamente com procedimentos tais como sugestão hipnótica, auto-sugestão e persuasão, que, nascidas da nossa ignorância, tem de agradecer a indolência e a covardia da humanidade por seus efeitos efêmeros. Merece melhor destino e, pode-se esperar, o terá.” (vol. XX, pág. 280)

Não creio que essas palavras de Freud necessitem de mais comentários. Freud era antes de tudo um cientista. Foi assim que iniciou sua carreira, no laboratório de fisiologia de Brücke (“que teve mais influência sobre mim do que qualquer outra pessoa em toda a minha vida” [vol. XX, pág. 288]) e foi assim que transitou pela clínica das neuroses, construindo, a partir das observações de seu ‘laboratório clínico’, uma metapsicologia, que não só sobrevive até os dias de hoje, como tem se mostrado uma poderosa ferramenta teórica que, juntamente com a neurociência contemporânea, (cognitiva, afetiva e computacional) tem possibilitado avanços significativos na compreensão desse complexo objeto mente/cérebro.   

Infelizmente a questão técnica, “profissional” tem se sobreposto, e por que não dizê-lo, deixado totalmente à margem a dimensão científica da psicanálise. As “dúvidas frequentes”, que tratam explicitamente a psicanálise como uma técnica, fazem questão de apontar que “facultativamente, o Psicanalista pode associar elementos de áreas correlatas, como programação neurolinguística, coaching e terapias holísticas.” (Ao menos não consta aí a grande novidade terapêutica de nossos dias, a constelação familiar.) Eis a psicanálise degradada a uma técnica entre outras no grande arsenal de recursos efêmeros nesse grande mutirão universal contemporâneo em prol do dever de ser feliz.

Esses cursos online são apenas a ponta do iceberg. Essa posição infiltra-se como erva daninha e cresce nos lugares mais inesperados. É disso que continuaremos a tratar nos próximos posts. Não sem antes lembrar de Freud: “Só quero sentir-me seguro de que a terapia não destruirá a ciência.” (vol. XX, pág. 289)

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje II

O tripé freudiano continua sendo praticado nos padrões tradicionais pelos Institutos ligados à Associação Psicanalítica Internacional. De praxe exige-se o mínimo de cinco anos de análise didática, com um analista didata reconhecido pela Instituição com frequência mínima de quatro sessões semanais, a frequência aos seminários de formação, algo em torno de 350 seminários, e a supervisão do atendimento em análise de no mínimo dois pacientes. Após o cumprimento de todos os créditos e feito o relatório da experiência supervisionada, o candidato submete-se a uma comissão julgadora e, se for aprovado, recebe a qualificação de analista.

Nas escolas lacanianas vinculadas à Associação Mundial de Psicanálise continuam vigorando as orientações de Lacan quando da fundação da École Freudienne de Paris em 1964, que realizam o tripé formativo de maneira diferente da IPA. O ensino teórico é realizado através do cartel e dos seminários e atividades promovidas pela Escola. Não há padrão para a análise didática nem obrigatoriedade de escolha de analistas didatas. O mesmo vale para a supervisão. Pelos preceitos lacanianos, um analista é “didata a partir da realização de uma ou mais psicanálises que se revelaram didáticas.” (Ata de Fundação da EFP). Essa é uma consequência do princípio de que “o analista só se autoriza de si mesmo”. Mas isso não exclui, como diz Lacan na Proposição do 9 de outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola, “que a Escola garanta que um analista depende de sua formação”. Essa garantia vem sob a forma do titulo de A.M.E. (Analista Membro da Escola), concedido àqueles que a Escola reconhece como psicanalista que deu suas provas. Há outro título, de A.E. (Analista da Escola), obtido por aqueles que cumprem o procedimento do passe, tendo dado testemunho de sua passagem a analista.  

É assim que acontece a formação de analistas nas Sociedades e Escolas “oficiais”. Como podemos ver, nelas a formação exige tempo, dedicação, esforço e um considerável investimento. E um efeito que é a formação permanente, tão bem expressa por Lacan na Proposição: “… tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência.”

Mas sabemos que o grande contingente daqueles que se intitulam analistas em nosso meio e em nosso tempo não vem dessas instituições “oficiais”. São egressos ou frequentadores de instituições “oficiosas”, digamos “paralelas”. Só das que se intitulam lacanianas contei recentemente 66. Como esse número veio da contagem das assinaturas de um manifesto publicado no ano passado na internet, ele certamente está  subestimado. Como eles se formam? Como eles se autorizam? Em que solo estão assentados? O tripé freudiano é praticado nessas instituições; se sim, como?

Lembro de quando, no último ano do curso de Psicologia, resolvi dedicar-me à psicanálise e tornar-me analista. Há mais de quarenta anos atrás, morando em Curitiba, isso não era coisa simples. A opção de procurar um Instituto  ligado à IPA, como a SBPSP, por exemplo, estava fora de cogitação. Naquela época apenas aceitavam médicos. Naquele momento, os primeiros psicanalistas lacanianos que haviam feito sua formação na França chegavam ao Brasil. Congregados em uma Instituição de âmbito nacional chamada de Centro de Estudos Freudianos, estavam distribuídos por várias capitais brasileiras e, por sorte, um deles aportou em Curitiba. Fui procurá-lo para análise e, quando disse que estava ali porque queria ser analista, ele deu um sorriso sarcástico denunciando o que eu já sabia mas escondia de mim mesmo: evidentemente essa não era a razão verdadeira. Como vim a aprender depois, ninguém procura uma análise porque quer ser analista. Esse desejo é fruto da análise e não sua porta de entrada. 

Aquele momento foi um momento de sorte (na definição de Aristóteles, a sorte é uma conjunção contingente de cadeias necessárias que sabemos aproveitar em nosso favor). Em função de problemas políticos, não só de Paris vieram analistas naquele momento, como também de Buenos Aires. Dois deles que radicaram-se em Curitiba  ofereceram um curso de extensão encampado pela Universidade Católica do Paraná (hoje a PUC-PR), intitulado O Inconsciente Freudiano. E foi ali que comecei minha formação teórica. Como éramos muito poucos os interessados pela psicanálise (naquela época a psicanálise não tinha todo o glamour que desfruta hoje, sendo vista como coisa de elite) não havia outro recurso senão realizar o preceito lacaniano de que o analista deve tornar-se responsável pela sua própria formação. E foi o que fizemos. Para podermos manter um ritmo sistemático de estudos, cinco de nós fundamos uma Instituição intitulada Coisa Freudiana – Transmissão em Psicanálise. Na abertura de seus estatutos está escrito: “Coisa Freudiana tem como objetivo refletir e trabalhar sobre a experiência clínica, tendo como guia os textos de Freud e Lacan buscando definir o campo e os operadores fundamentais da psicanálise e comunicando os resultados a quem queira sabê-los. Esta instituição não se propõe à “formação” de analistas. Formações são as do inconsciente.”

Conto essa história para sublinhar que a formação de analistas e, consequentemente, considerar-se psicanalista, intitular-se como tal diante da sociedade e receber pacientes sob esse título, era uma decisão ética. Havia um peso, não só de seriedade, mas de compromisso com o desejo na adoção desse título. E isso não era preciosismo nosso, havia um consenso geral no meio psi a respeito. 

Hoje, passados pouco mais de quarenta anos, as coisas estão muito diferentes. Em primeiro lugar quanto ao número. Houve uma explosão exponencial de pessoas envolvidas com a psicanálise e que se intitulam, sem maiores pudores, de analistas. Há cursos de ‘formação’ por todos os lados. Há até carteirinha de psicanalista. Para a realidade atual, e lembro que estou falando do Brasil, tudo o que descrevi até agora quanto às exigências da formação do analista é coisa do passado.

Experimente escrever na página de busca do Google termos como psicanálise, psicanalista, etc.. O primeiro link que aparece é uma chamada a um curso que propõe a formação em psicanálise EAD (para quem não está familiarizado com a sigla: ensino à distância), com habilitação clínica, 100% On Line. Este curso tem etapas teóricas e práticas, tudo online. A etapa teórica compõe-se de 12 módulos, cada um com sua apostila, que o aluno estuda a seu ritmo. Tendo concluído a etapa teórica o aluno pode começar a prática, composta de supervisão, análise e monografia. A análise, online também, é em parte individual e em parte em grupo.

Segundo minhas pesquisas esse é o mais rápido de todos. Há outros, muitos outros, presenciais ou semi-presenciais, que prometem formação e certificado de psicanalista, supostamente ancorados no tripé freudiano, com seus módulos teóricos e horas definidas de análise e supervisão, individuais e em grupo. 

Mas a barbárie não para por ai. Nesse link há uma aba de “dúvidas frequentes”. Ai há longos comentários sobre o que é conhecido como a questão da análise leiga. Como o objetivo é interessar o maior número possível de pessoas, a restrição de títulos aos candidatos (no Brasil a psicoterapia é prática privativa dos Psiquiatras e Psicólogos) seria um impedimento. Para isso nada como apelar para os argumentos de Freud em seu texto de referência sobre o assunto A questão da análise leiga. Há também uma discussão sobre a parte legal, de como é possível no Brasil praticar a psicanálise sem infringir a lei, com o argumento de que a psicanálise é uma ocupação e não uma profissão. Não vou entrar nesse ponto aqui, pois o que me interessa são os argumentos relativos à formação. A meu ver isso é muito sério e vamos considerá-los demoradamente no próximo post.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje I

Este post é o primeiro de uma série onde pretendo compartilhar algumas reflexões e inquietações sobre a situação da psicanálise hoje em nosso meio. Desejo que esses textos incitem o diálogo e ficarei muito feliz se os leitores interessados quiserem trocar suas impressões comigo.

Quem visita o Museu Freud em Londres, depois de se emocionar vendo o gabinete de Freud, sua escrivaninha, seus óculos, o famoso divã, sua biblioteca e a infinidade de estatuetas que ele colecionou por anos e anos, alcança um espaçoso cômodo de decoração bastante despojada onde se encontra um outro divã, uma outra escrivaninha e uma outra biblioteca. São os aposentos de Anna Freud, que viveu e trabalhou ali desde a chegada da família à Londres em 1938 até sua morte em 1982. Sobre a escrivaninha há uma antiga máquina de escrever onde está uma carta dirigida a um certo “Dear John”. A carta inicia pelo registro da pergunta que o Sr. John dirigira a Anna e à qual a carta é a resposta. “Você me perguntou o que eu considero as qualidades pessoais essenciais a um futuro psicanalista.” A resposta de Anna é extraordinária e digna de uma Freud. Eis o que Anna respondeu a John, que transcrevo aqui em tradução livre: 

“Se você quer ser um verdadeiro psicanalista você deve ter um grande amor pela verdade, tanto a verdade científica quanto a verdade pessoal, e você deve colocar esse amor à verdade acima de qualquer desconforto ao encontrar fatos desagradáveis, quer eles pertençam ao mundo exterior ou ao interior de tua própria pessoa. Além disso, eu penso que um psicanalista deve ter interesses além dos limites do campo médico, em fatos que pertencem à sociologia, à religião, à literatura e à história, do contrário sua visão do paciente permanecerá muito estreita. Este ponto contempla a preparação necessária além dos requerimentos feitos aos candidatos à psicanálise nos institutos. Você deve ser um grande leitor e tornar-se familiar com a literatura de muitos países e culturas. Nas grandes figuras literárias você encontrará pessoas que conhecem ao menos tanto da natureza humana quanto os psiquiatras e psicólogos tentam fazê-lo.”

Essa resposta evoca os dois lados em que se divide a formação do analista. O primeiro diz respeito a uma característica pessoal exigida ao analista, o amor incondicional à verdade. O segundo a sua formação profissional, a amplidão de seus interesses teóricos e a avidez pela leitura, o que eu resumiria na fórmula: curiosidade intelectual. Em primeiro lugar vou considerar o segundo ponto, a formação. Em outro momento trataremos do primeiro, que, como veremos, nos levará muito além dos limites da formação profissional.

Dada a situação que vivemos atualmente, a formação do analista é um tema para mim bastante inquietante e, por que não dizê-lo, preocupante. Poderia ter usado o termo polêmico. Seria uma boa qualificação, se considerarmos o debate que Lacan introduziu nos anos 1950 no que diz respeito à análise didática. Um debate sério que ajudou a aprofundar a compreensão do que está realmente em jogo nas exigências que aqueles que aspiram à cadeira do analista devem cumprir e principalmente na decisão de um analisando em tornar-se analista. A definição freudiana da formação do analista é muito clara e está explicitamente enunciada em seu texto A questão da análise leiga, de 1926.  Assim como aponta a carta de Anna, ela tem um lado formal, regimental digamos – o lado da formação profissional – e um lado pessoal, subjetivo – o amor pela verdade – que Lacan põe na mesa com a questão da autorização, através de uma de suas famosas frases de efeito: ‘o analista só se autoriza de si mesmo’. A IPA, fundada por Freud, e as Escolas, fundadas por Lacan, tinham justamente a finalidade de regrar o lado formal e dar espaço e voz ao lado pessoal. Assim, considerando as demandas pessoais feitas ao candidato e as exigências formais para sua formação, tornar-se analista não é assunto corriqueiro ou trivial. Demanda esforço, dedicação e muito tempo, um tempo incontável, pois, rigorosamente falando, a formação é permanente. Nela não há ponto final.

Mas, infelizmente, isso faz parte do passado. Hoje estamos muito longe das questões levantadas por esse debate, não no sentido de que elas se tornaram saber comum partilhado pela comunidade analítica; pelo contrário, no sentido de que elas foram postas de lado, excluídas das preocupações relativas à formação. Ao menos no meio em que tenho vivido nesses anos de lida com a psicanálise. Por essa razão decidi partilhar minhas reflexões a respeito.

Como era a formação idealizada por Freud? Anna refere-se em sua carta aos “requerimentos feitos aos candidatos à psicanálise nos institutos”. Esses requerimentos consistem no famoso tripé freudiano da formação. Os três apoios do banquinho do analista: a análise pessoal, a supervisão e a formação teórica.

A análise pessoal é o aspecto fundamental da formação, a condição sine qua non. É nela que se produz o saber sobre a verdade do sujeito e é dela que emana a convicção de que falar cura. É nela que se ancora o amor pela verdade referido por Anna Freud em sua carta. Se a análise pessoal é absolutamente necessária para a formação do analista, ela não é, no entanto, suficiente. Fornece o essencial, a certeza subjetiva da experiência do inconsciente, mas permanece no terreno do estrito particular. Para que possa haver algum tipo de transmissão desse saber subjetivo depositado por uma análise, é necessária sua articulação teórica. 

Aqui entra o segundo pé do banquinho, o saber teórico ou científico. Sabemos que para Freud a psicanálise estava situada no campo da ciência e todo o seu esforço de formalização (a metapsicologia) atesta isso. Trata-se de articular o saber subjetivo da primeira pessoa obtido na clínica com o saber objetivo em terceira pessoa da investigação científica. Isto não pode ser feito sem o recurso ao conhecimento produzido em outros campos da investigação científica. As palavras de Anna em sua carta ecoam as de Freud nesse texto: “… juntamente com a psicologia profunda, que continua sempre como a principal disciplina, haveria uma introdução à biologia, o máximo possível de ciência da vida sexual e familiarização com a sintomatologia da psiquiatria … a história da civilização, a mitologia, a psicologia da religião e a ciência da literatura. A menos que esteja bem familiarizado com essas matérias, um analista nada pode fazer de uma grande massa de seu material.” (Ed. Standard Brasileira, vol. XX, pág. 278)

Além da experiência subjetiva e do saber teórico, a psicanálise também é uma prática clínica. É o aspecto que Freud chamava de psicanálise médica. Para a formação do analista clínico esse aspecto é explorado na supervisão, o terceiro pé do banquinho. A psicanálise, enquanto prática clínica, supõe uma escuta particular que visa a tradução do inconsciente e a rememoração de lembranças reprimidas, o que exige do praticante um saber fazer que diz respeito ao particular de cada caso, levando em conta as nuances da transferência. 

Vale lembrar que analista para Freud tem uma acepção bem mais ampla que a de praticante clínico. Em A questão da análise leiga cita os analistas didatas, aqueles representantes das várias ciências mentais que querem aplicar a psicanálise a seus campos de estudo. E também os analistas educacionais ou educadores analíticos que querem aplicar a psicanálise às práticas educativas. Esses também devem submeter-se ao triângulo da formação. “Se os representantes das várias ciências mentais devem estudar a psicanálise a fim de ser capazes de aplicar seus métodos e ângulos de abordagem ao seu próprio material, não lhes será suficiente parar de repente nos achados que são formulados pela literatura analítica. Eles devem aprender a análise da única maneira possível – submetendo-se eles próprios a uma análise.” (Ed. Standard Brasileira, vol. XX, pág. 281).

Essas são as três dimensões da formação. Uma não pode subsistir sem a outra e nenhuma pode ser excluída em favor de outra. Para Freud: “… ninguém deve praticar a análise se não tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma formação específica”, independentemente da origem ou qualificação profissional do interessado. 

O que é feito desse tripé formativo hoje? Como ele é praticado? É disso que vamos tratar na parte II.