Sobre a (de)formação em psicanálise hoje – X

Chego ao último dos posts sobre a (de)formação de analistas em nossa época. Ao escrevê-los, senti-me muitas vezes como uma espécie de peça de museu. Várias sessões por semana, horas e horas de estudo e seminários, intermináveis supervisões, indagações do mais profundo do (não)ser sobre o desejo de ocupar o lugar de analista, assumir a formação permanente como compromisso pessoal, noites de sono extraviado por uma mente ocupada com questões éticas advindas da clínica… Tudo isso parece ter se tornado coisa do passado.

Hoje tudo se resolve sem “sair de casa” (o que quer dizer com o mínimo de esforço), com a profusão de lives nas redes sociais ou com cursos de formação em psicanálise EAD com habilitação clínica, com etapas teóricas e práticas, tudo online, inclusive a análise pessoal. Obtida a carteirinha de psicanalista, ou simplesmente aquela certeza interna imaginária: “eu já sei do que se trata e o que fazer”, é só colocar uma placa na porta: “fulano de tal, psicanalista”, munir-se de um computador com internet, abrir páginas nas redes sociais, fazer postagens sobre temas psicanalíticos, sobre condições psicopatológicas, e começar a receber demandas. E, claro, de vez em quando,  continuar a assistir lives de famosos para manter-se “em dia”!

Esta triste situação da psicanálise hoje, além da colaboração dada pelos próprios psicanalistas e suas instituições, também é resultado da tomada da psicanálise pelo espírito de nossa época – a modernidade líquida na expressão do sociólogo Zygmunt Baumann. O jornalista e roteirista André Barcinski chamou a degradação cultural que acompanha a modernidade líquida de infantilização da cultura. Barcinski está falando de cinema e arte, mas é triste constatar que essa infantilização também está ocorrendo em outros campos da cultura, na psicanálise inclusive. O fato é que a qualidade das produções culturais está caindo ano após ano. Em seu post de 15/01/2018, em seu blog, lista algumas razões:

“A padronização de temas e estruturas narrativas”. Já nos referimos a esse fato quando comentamos a pobreza teórica da transmissão contemporânea da psicanálise no post 8.

“A formatação do conteúdo por meio de algoritmos e pesquisas de mercado”. As peças de transmissão que ocupam as mídias sociais são cuidadosamente programadas para circular ao redor de temas de interesse geral. Como por exemplo as síndromes da moda, (como anorexia, transtorno bipolar, espectro autista (a mais recente novidade) e assim por diante), os assuntos bombásticos (amor, feminilidade, gozo, etc…), as frases de efeito (‘a mulher não existe’, ‘não há relação sexual’, etc…). Conectado com isso há sempre um autor, ou uma teoria, mais famosos, mais consumidos, mais venerados e que têm resposta para tudo. (Um exemplo eloquente disso, embora não esteja no campo específico da psicanálise, é o enorme alcance atual da chamada “constelação familiar”.) Tudo para exigir o mínimo de esforço intelectual e para aparentar o máximo de conhecimento. É triste constatar, mas o público só quer mais do mesmo. 

“O aniquilamento da crítica e sua substituição por Youtubers” tem conduzido “a uma monopolização do mercado de shows”. Assistimos hoje ao fenômeno dos influenciadores digitais psicanalíticos, que contam com centenas de fiéis seguidores. Isso tem incentivado o sempre perigoso hábito da captura pela telinha no mercado das redes sociais psicanalíticas. Mesmo nos casos honestos de uso das mídias sociais, penso que deve-se ter muita prudência com esses meios audio-visuais. Conheço colegas que optaram pela transmissão via mídias sociais, com lives periódicas onde expõem suas ideias. Não tenho nada contra a exposição oral de temas via aulas, conferências, seminários, etc… Eu mesmo fui professor durante muitos anos e ensinei temas psicanalíticos em diversos cursos de graduação, pós-graduação ou em associações privadas. Mas tenho, sim, muitas razões para condenar o fato de que esse meio auxiliar esteja virando o principal ou, em muitos casos e cada vez mais frequentemente, o único. Afinal, quem tem hoje paciência de ler? Uma formação continuada e minimamente séria exige leitura e releitura, que implicam em dedicação, esforço e tempo, de textos originais freudianos, lacanianos, kleinianos, winnicotianos, etc…, de artigos científicos que investigam conceitos específicos, de materiais conexos como textos literários, textos de outras áreas do conhecimento, etc… (Lembram da carta de Anna Freud que referi no primeiro post?) A diminuição da leitura e sua substituição por meios audio-visuais tem consequências sérias sobre nossa mente/cérebro. Pretendo falar sobre isso demoradamente em outro momento no contexto de uma discussão mais geral sobre a infantilização da cultura e o aniquilamento da crítica. Mas, antes disso, vamos nos perguntar seriamente: a psicanálise sobreviverá?

Lacan coloca uma questão como essa em 1956, na conclusão de seu texto sobre a situação da psicanálise. Ali nota que, apesar de todas as “forças de dissociação às quais esta submetida a herança freudiana”, ela tem sobrevivido através da IPA. Em sua opinião isso se dá em função da “virtude que atribuímos ao significante puro”, ou seja, mesmo que ninguém se entenda sobre a significação dos conceitos freudianos, eles sobrevivem graças à sua qualidade formal de significantes. (pág. 486) Por exemplo: ninguém sabe ao certo o conteúdo dos conceitos de Id, Ego e Superego, mas, ao utilizá-los, juntamente com o restante do jargão psicanalítico, a comunidade dos analistas mantém viva a metapsicologia freudiana. É como o branco do vestido de noiva. As noivas de hoje em dia não sabem, ou não estão interessadas em saber, por que as nubentes devem usar roupas brancas e por que elas próprias deverão usar o branco em suas núpcias. Mas não podem casar sem estarem vestidas de branco, o que perpetua uma tradição cujo significado ninguém sabe ao certo ou realmente se importa com ele.

Lacan evoca, como metáfora da sobrevivência da psicanálise no seio da Associação Internacional, o conto de Edgar Allan Poe A verdade sobre o caso do sr. Valdemar. Este conto relata a história de um homem, o Sr. Valdemar, que foi hipnotizado exatamente na hora de sua morte. O hipnotizador, que é o narrador da história, desejava investigar se o processo hipnótico conseguiria deter, e por quanto tempo, o avanço da morte. O Sr. Valdemar foi escolhido a dedo para tal experimento e o que resultou foi que ele assiste a sua morte, embora seu cadáver, hipnotizado, se mantenha intacto e imune à dissolução física. O cadáver não só se mantinha como testemunhava com uma voz que parecia vir de alguma caverna profunda nas entranhas da terra: “Eu estive dormindo… e agora… agora… estou morto.” O corpo de um morto, do qual a vida já partiu, conservado “vivo”. Diz Lacan: “Tal metaforicamente, em seu ser coletivo, a associação criada por Freud sobreviveria, mas aqui é a voz que a sustenta, que vem de um morto”. (pág. 486) Ou seja, a psicanálise sobrevive como este cadáver hipnotizado sustentado pela teoria criada por Freud repetida à exaustão ritualística sem que ninguém, como as noivas de branco, saiba exatamente por que está fazendo o que faz e dizendo o que diz. Depois de tudo o que já dissemos nessa série, podemos afirmar que qualquer semelhança com o que acontece com a psicanálise de hoje não é mera coincidência, salvo pelo número crescente de cadáveres mantidos vivos sem que haja vida inteligente dentro deles.

No calor do debate sobre a análise leiga, Freud escreveu: “Só quero sentir-me seguro de que a terapia não destruirá a ciência.” Essa frase de Freud, ouvida à luz do que acontece hoje, parece a advertência de um profeta. Se observarmos de perto, veremos que todos os apelos midiáticos do que se chama de psicanálise hoje envolvem diretamente promessas terapêuticas, promessas de felicidade, promessas de como conquistar o bem estar, promessas de um google maps para transitar pelas tortuosas vias da realidade. Exatamente na contramão da doutrina freudiana. É um risco real para a Psicanálise perder aquilo que ela tem de verdadeiramente próprio, a atividade investigativa sobre seu singular objeto de estudo, sobre o qual todo seu edifício teórico e clínico está edificado: a verdrangung, (traduzida por repressão ou recalque). Quem já leu A história do movimento psicanalítico sabe que Freud escreveu no primeiro capítulo que esta foi sua descoberta fundamental.

Freud foi, antes de tudo, um cientista, um homem das luzes. A posição marginal em relação à ciência nunca foi desejada por Freud, que sempre lutou para que a psicanálise permanecesse dentro da comunidade científica. Para isso é fundamental que os psicanalistas não se alienem das discussões científicas de sua época, disponham-se ao diálogo e exponham-se à critica. Mais importante ainda é que não encarem sua teoria como um corpo dogmático de saber, mas a vejam como um andaime na construção do edifício teórico sobre esse objeto que nos ocupa: corpo/mente. Isso vai contra a tendência dos grupos organizados (e, como vimos, com os analistas não é diferente) de fecharem-se em seus próprios muros e congelar sua doutrina em dogmas inquestionáveis. 

Pelo que sei, depois de Freud, por duas vezes na história a psicanálise abriu-se ao debate científico de sua época. A primeira vez foi nos anos 50, quando Jacques Lacan promoveu sua aproximação com o formalismo, que na época se anunciava como a grande ferramenta para compreender os processos mentais. Mas sabemos que o formalismo encontrou seus limites e também o que aconteceu com a herança lacaniana.

A segunda vez começou nos anos 90, quando alguns neurocientistas e alguns psicanalistas propuseram-se a construir pontes entre suas disciplinas, e prossegue de vento em popa. Cito dois marcos de referência nesse esforço conjunto. O primeiro, a publicação de dois artigos, em 1998 e 1999, no American Journal of Psychiatry, pelo neurocientista Eric  Kandel, ganhador do prêmio Nobel de Medicina em 2000 por seu trabalho sobre a transmissão de sinais entre células nervosas do cérebro humano, onde ele defende que a psicanálise oferece aos neurocientistas o ponto de partida mais apropriado para suas pesquisas e oferece um número de sugestões de tópicos de pesquisa de relevância, assim como suporta a ideia mesma de pesquisa em psicanálise. O segundo é a fundação em julho de 2000 da Associação Internacional de Neuropsicanálise como um grande forum de debates entre a neurociência e a psicanálise. Esses 20 anos assistiram a um grande progresso nos estudos sobre a memória, sobre a teoria do apego, sobre a concepção das pulsões na neurociência afetiva e, no âmbito da neurociência computacional, o surgimento do princípio da livre energia de Friston (2010), que tem demonstrado grande consiliência com conceitos psicanalíticos e grande potencial como um princípio metapsicológico unificador para uma teoria da mente/cérebro. (De vez em quando me pego cogitando o que Lacan, com suas tendências formais e matemáticas, diria desse princípio.)

Agora podemos repetir a pergunta: o espírito freudiano sobreviverá? e ter para ela uma resposta mais otimista. Diria que sim, mas não no corpo morto onde as redes sociais e os mestres de plantão apregoam que ele está. Ele está vivo nessa junção entre o divã, o laboratório e as teorias computacionais. Em 1926, em A questão da análise leiga, Freud escreveu: “Em vista da íntima conexão entre o que distinguimos como físico e mental, podemos olhar para a frente, para o dia em que os caminhos do conhecimento e, esperemos, da influência estarão abertos, levando da biologia e da química orgânica ao campo dos fenômenos neuróticos. Esse dia ainda parece distante, e no presente essas enfermidades são inacessíveis para nós a partir da direção da medicina …” (231) Esses caminhos estão, hoje, abertos e sendo trilhados.

É pela via do debate crítico na busca pela verdade que poderemos deixar esse cadáver morrer e dar nossa voz ao legado de nossos pais mortos, não deixando que a “terapêutica” destrua a ciência.