Sobre a (de)formação em psicanálise hoje IX

Que conclusões podemos extrair da história das instituições analíticas e dos esforços para equacionar a formação descrita nos posts anteriores? Certamente muitas, mas vou elencar cinco que merecem reflexão.

1 – Introduzo a primeira lembrando o motivo que esteve na origem dos primeiros encontros dos analistas na sala de espera de Freud no outono de 1902. Motivado por um incômodo problema neurótico, Stekel procurou Freud, recebeu ajuda analítica e sugeriu o convite aos quatro médicos próximos para os encontros das quartas feiras, com o objetivo de discutir as ideias freudianas. Este foi o início do que viria a ser a Associação Internacional. Ou seja, a pedra fundamental da congregação dos analistas está assentada sobre a neurose. Não na neurose dos outros, mas na própria neurose. Não devemos esquecer nunca de nossas origens: somos recrutados nas fileiras daqueles que, por razões que são sempre pessoais, têm dificuldades em lidar com a vida. Ninguém vai despender grandes quantidades de tempo e dinheiro, enfrentar angústias e desilusões, rever dolorosamente sua própria imagem narcísica, se não for motivado por um importante sofrimento psíquico. Afinal, o processo analítico vai na contramão da inércia do autoengano. Ninguém procura uma análise “para ser analista”. Se esta for a demanda inicial, deverá ser submetida ao questionamento analítico como qualquer outra demanda trazida ao consultório.

2 – O segundo ponto é que, no coração mesmo da recém nascida associação oficial da psicanálise freudiana, ardia um conflito narcísico. Os judeus vienenses sentiam-se preteridos por Freud diante dos suíços arianos. Lembremos que, em 1910, quando a IPA foi fundada no Congresso de Nuremberg, Freud designou Jung presidente, pelas razões que já discutimos (post 5), e que a sede da sociedade foi transferida de Viena para Zurique. Isso despertou os protestos da ala vienense que teve que ser apaziguada por Freud. Esse foi apenas um episódio de um conflito que se estendeu ao longo dos anos. Conflitos como esse têm marcado a história da psicanálise. Mas não têm nada de especial. São típicos das organizações humanas. O que mantém os grupos coesos é a projeção do ódio nos grupos rivais. Os grupos analíticos não são exceção. Talvez na nossa idealização dos analistas pensássemos que eles deveriam estar pelo menos advertidos desse fenômeno e, em vez de passar ao ato, passar às palavras. Mais uma de nossas doces ilusões. Vale a pena registrar a opinião de Freud acerca desses conflitos. Em resposta à Maedar, que afirmou que as diferenças científicas entre os vienenses e os suíços resultavam de os primeiros serem judeus e os segundos arianos, disse: “Certamente há grandes diferenças entre o espírito judeu e o ariano. Podemos observar isso diariamente. Daí haveria seguramente, aqui e ali, diferenças de ponto de vista sobre a vida e a arte. Mas não deveria haver algo como ciência ariana ou judia. Os resultados na ciência devem ser idênticos, embora a apresentação deles possa variar. Se essas diferenças se refletem na apreensão das relações objetivas da ciência, algo deve estar errado.” (Jones, 157)

3 – Essa opinião de Freud leva ao terceiro aspecto que quero sublinhar. Trata-se da lição que podemos extrair das diferentes reações de Freud e de Lacan diante dos desvios à teoria psicanalítica. Freud diante das dissensões de Jung e de Adler, que transformaram a psicanálise de acordo com suas próprias crenças, o que resultou, nos meios acadêmicos, nas “três escolas de psicanálise”; Lacan diante da psicologização imaginária da psicanálise “oficial” da sua época. Freud escreveu um livro, a História do movimento psicanalítico, onde afirmou que mais do que qualquer outro tinha o direito de saber o que era e o que não era psicanálise. Afinal de contas, era seu criador. Nesse livro passa o primeiro capítulo contando a história das descobertas teóricas fundamentais da psicanálise e explicando seus conceitos fundamentais. No segundo e em parte do terceiro, sua história institucional. Mas na grande parte do terceiro capítulo discute com profundidade as teorias de Adler e de Jung. Essa discussão ocupa aproximadamente 25% do livro. Numa obra sobre a história do movimento psicanalítico, Freud dedica 1/4 de seu tempo para explicar por que as teorias de Adler e Jung não são psicanálise. Lacan escreveu um artigo, Situação da Psicanálise e formação do analista, em 1956 onde também discute teoricamente as teorias vigentes e sua resposta teórica a elas: a primazia do simbólico e a necessidade de uma leitura formalista. No entanto, a grande diferença entre Freud e Lacan está no estilo. Enquanto o estilo freudiano é o de um debate crítico argumentativo entre posições teóricas divergentes, o estilo lacaniano é satírico e mordaz. Como Lacan afirma que ele sabe o que é a verdadeira psicanálise, faz questão de expor, sem nenhum pudor, seu desprezo pelas ideias equivocadas e por aqueles que as defendem. Não é à toa que na Ata de fundação da Escola Freudiana de Paris escreve: “Este título, em minha intenção, representa o organismo onde deve cumprir-se um trabalho – que, no campo aberto por Freud, restaura a lâmina cortante de sua verdade …” (Outros Escritos, 235). Os fatos mostram que o trabalho dessa lâmina cortante foi a eliminação de tudo que considera-se desvio (não necessariamente que de fato o seja), o que resultou numa espécie de sacralização de uma suposta leitura verdadeira da obra de Freud e Lacan (o Antigo e Novo Testamentos). É claro que essa lâmina não paira no ar, está na mão de um leitor que “sabe ler”. E um leitor que “sabe ler” ensina os que não são assim tão letrados. Esse leitor privilegiado torna-se a autoridade, pois ele desfruta de uma intimidade com o enigmático texto lacaniano. E os outros? Bem, os outros tornam-se discípulos que aprendem a ler com o mestre. Mas nunca conseguem chegar ao nível do mestre, pois Este está sempre um passo à frente. O discípulo, quando pensa ter conseguido entender alguma coisa, ao escutar novamente o mestre, tem a impressão de que na sua compreensão falta alguma coisa, que não chegou lá. E assim a dependência da autoridade se perpetua. É assim que estão montadas as instituições que cultivam uma leitura como verdade. Claro que, quando um discípulo fica um pouco mais letrado e começa a perceber que pode ler independentemente das opiniões do mestre, o convívio fica complicado, chegando geralmente ao ponto de ruptura, gerando o fenômeno a que nos referimos no post anterior, da multiplicação dos mestres.

4 – Em quarto lugar, nunca é demais frisar o caráter conciliador, tolerante e não autoritário de Freud. Mesmo com todos os seus colegas o advertindo sobre os desvios de Jung, desvios que obviamente Freud enxergava muito bem, em momento algum interveio com sua autoridade moral nas posições ocupadas por ele na Associação. Aguardou pacientemente até que o próprio Jung se retirasse. E isso demorou quase 10 anos. No verão de 1913, um ano antes da saída de Jung da editoria do Jahrbuch, da presidência da Associação Internacional e, por fim, da condição de membro dessa associação, Jones conta que “Ferenczi e eu tivemos, nesse verão, muitas conversas com Freud sobre a melhor maneira de enfrentar a situação que Jung criara ao renunciar aos princípios fundamentais da psicanálise. Não havia mais sentimentos amistosos entre ele e Freud, mas o problema era muito mais importante do que qualquer questão pessoal. Freud continuava otimista quanto à possibilidade de manter pelo menos uma cooperação formal e tanto ele quanto Jung desejavam evitar tudo que pudesse ser considerado briga.” (111)  Essa posição institucional de Freud contrasta com suas firmes e seguras posições relativas à teoria, posições que são defendidas abertamente através da discussão dos pontos divergentes em textos públicos. Como já referimos mais acima, Freud debateu longamente as idéias desses que foram um dia seus parceiros (os mais significativos: Adler, Jung, Rank, e Ferenczi, o mais duradouro de todos), mostrando o porquê de suas posições teóricas divergentes. Nesse aspecto Freud mostra-se firme e intransigente, mas elegante como sempre. Mais uma razão para crermos que, para Freud, a sobrevivência da psicanálise como teoria acerca do psiquismo humano estava acima de qualquer querela pessoal.

5 – O último ponto que quero salientar diz respeito ao destino da verdade adquirida na análise pessoal. No capítulo III de A história do movimento psicanalítico, Freud, antes de responder a Adler e a Jung, pondera que a fuga pode ser uma reação possível das pessoas quando encontram-se com as realidades desagradáveis de sua subjetividade evocadas pela análise. E continua: “Mas eu não esperava que alguém que houvesse alcançado certa profundidade na compreensão da análise pudesse renunciar a essa compreensão e perdê-la.” A experiência mostra que é possível ocorrer uma rejeição total do que foi aprendido na análise diante de uma resistência especialmente forte. “… podemos vê-lo … lançar tudo o que aprendeu às urtigas e ficar na defensiva como o fez nos dias em que era um principiante despreocupado. Tive que aprender que a mesmíssima coisa pode acontecer tanto com psicanalistas como com pacientes em análise.” (62) Se somos recrutados nas fileiras dos “neuróticos” não somos transformados em sobre-humanos ou em semi deuses pelo tratamento analítico de nossas questões pessoais. Continuamos sendo humanos, com tudo o que isso implica. A análise pessoal é fundamental para trabalharmos como analistas, para que possamos aprender a nos deixarmos ser orientados pela condução do inconsciente no curso do tratamento. Mas isso não nos torna pessoas melhores ou piores que as outras, nem nos dá o domínio sobre nossa subjetividade. Continuamos tendo inconsciente, emoções, reagindo impulsivamente, resistindo ao que ofende nosso narcisismo. E devemos lembrar que os humanos mantém sistemas de crença paralelos, que podem ser conflituosos e até opostos um ao outro sem que um desses sistemas saiba ou interfira no outro. Isso Freud também nos ensinou. E começou nos ensinando isso através da descoberta empírica fundamental da psicanálise: as formações do inconsciente. Remeto o leitor interessado a meu livro Uma semântica para o ato falho onde trabalho com vagar essa divisão. E não há análise que a suture. Podemos passar anos e anos em um divã, rever detalhes de nosso passado, reescrever grande parte de nossa história, mas nunca seremos indivíduos indivisos. 

Só há um recurso para lidar com isso: a honestidade consigo mesmo e a formação permanente.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje VIII

O primeiro momento da resposta lacaniana à questão da instituição analítica foi a fundação da École Freudienne de Paris em 1964. Nela o ensino teórico é realizado através do cartel, dos seminários e demais atividades promovidas pela Escola. A análise didática não tem padrão e não há obrigatoriedade de escolha de analistas didatas. Um analista é “didata a partir da realização de uma ou mais psicanálises que se revelaram didáticas.” (Ata de Fundação da EFP). O mesmo vale para a supervisão. 

Mas o acabamento da resposta se dará com a Proposição do 9 de outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola, texto fundamental para a compreensão da proposta institucional lacaniana (que ele adverte que deve ser entendido com base na leitura do artigo Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956, que estivemos comentando). Já com três anos de existência da Escola, Lacan afirma que é do funcionamento (diz ele que foi só nisso que inovou) que surge a solução para o problema das Sociedades Psicanalíticas, que se encontra na “distinção entre a hierarquia e o gradus”. (248) – (As páginas referem-se à edição brasileira de Outros Escritos.) Essa distinção esta no fundamento, a meu ver, da distinção entre o AME e o AE. Tudo parte do princípio fundamental da escola: “o analista só se autoriza de si mesmo” (já comentamos esse “si mesmo” em posts anteriores). Mas isso não exclui “que a Escola garanta que um analista depende de sua formação”. Notemos aqui a distinção entre autorização e formação. A primeira está adscrita ao si mesmo. Mas a segunda evoca a Escola como garantia de que um analista depende de sua formação. É aqui que reside a diferença fundamental entre as instituições analíticas tradicionais e a Escola de Lacan. Uma sociedade, um instituto, ministram uma formação e testemunham que alguém a recebeu concedendo um título ou um diploma. Esse documento é a garantia da formação. Isso dá origem a níveis hierárquicos de saber, atrelados a uma formação autêntica. Como a proposta de Lacan visa a produzir um gradus e não uma hierarquia, a garantia de formação da Escola resume-se em garantir que um analista depende de sua formação. Querer essa garantia implica em duas consequências para o analista que a pede: tornar-se responsável pelo progresso da Escola e tornar-se psicanalista de sua própria experiência. Em resumo: querer a garantia da Escola significa querer depender de sua formação, ou seja, estar implicado na garantia com seu desejo.

Essa garantia vem sob a forma do titulo de A.M.E. (Analista Membro da Escola), concedido a aqueles que a Escola reconhece como psicanalistas que deram provas de seu desejo de formação permanente. O outro título, de A.E. (Analista da Escola) refere-se à autorização e é concedido a aquele que o demandou, pois julga “… estar entre os que podem dar testemunho dos problemas cruciais, nos pontos nodais em que se acham eles no tocante à análise …” (248) Quer dizer: são os que querem dar testemunho de sua passagem pelo desejo do analista e de sua vivência particular do princípio de que “o analista só se autoriza por si mesmo.” Dai o procedimento para verificar essa passagem intitular-se “procedimento do passe”.

Estabelecendo uma estrutura de gradus para a formação e substituindo a análise didática por uma análise que poderá resultar em didática, tanto para o analisante como para o analista, Lacan propõe uma solução que evitaria o problema dos efeitos de grupo produzidos pela hierarquia das Suficiências nas sociedades analíticas. No entanto a história mostra que ele não foi bem sucedido. Em 1980 Lacan dissolve a Escola Freudiana de Paris, pois ela estava funcionando “na contramão daquilo pelo qual a fundei” (319). Ou seja, sua Escola tinha soçobrado aos efeitos de grupo e transformou-se no fac-símile da instituição que ele denunciara em 1956, numa Igreja. Diz literalmente: “… minha Escola seria uma Instituição, efeito de grupo consolidado à custa do efeito de discurso esperado da experiência, quando ela é freudiana. Sabemos o que custou o fato de Freud haver permitido que o grupo psicanalítico prevalecesse sobre o discurso, tornando-se Igreja.” (319) A meu ver essa última sentença é uma alusão, através de Freud, à experiência com a Escola Freudiana da Paris e um argumento para a dissolução.

Lacan dissolveu sua Escola mas fundou outra, a École de la Cause Freudienne. Mas ela não pôde mais reunir os lacanianos sob um mesmo teto. Novamente a história mostra que ela também não foi bem sucedida. Ela já se dividiu, pelos motivos de mestria de sempre, produzindo outra escola chamada de Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (além de muitas outras “de pequeno porte”). O fato é que as escolas e instituições lacanianas começaram a se multiplicar e a se espalhar pelo mundo. (No post 4 já relatei que contei 66 delas só no Brasil). Se Lacan desejou propor uma solução não eclesiástica para o agrupamento dos analistas, infelizmente seu tiro saiu pela culatra e o que aconteceu foi uma multiplicação desenfreada de “igrejas lacanianas”. 

Lacan foi um homem de sua época e seu ensino é a proposta de reintrodução da psicanálise no pensamento científico, e sem dúvida, no que havia de mais avançado no momento. Apesar de ter questionado – a partir de certo momento de sua obra, marcado pelo texto A ciência e a verdade – a psicanálise como ciência e ter se tornado um crítico da ciência, principalmente de seu uso pelo mundo capitalista, Lacan nunca deixou o caminho da razão. No texto que encontra-se na contra capa de seus Écrits escreve: “É necessário ter lido essa coletânea, e toda ela, para sentir que ai se persegue um mesmo debate, sempre o mesmo, e que, embora esteja datado, se reconhece por ser o debate das luzes”. 

O solo epistemológico lacaniano é o formalismo do Século XX e é a partir deste que propõe a releitura da teoria freudiana. Não vou entrar aqui no mérito dessa questão. Remeto o leitor interessado a meu livro, Categorias conceituais da subjetividade onde tratei longamente do formalismo. O problema é que Lacan afirma, equivocadamente, que essa leitura já está em Freud. Mas não só. Que essa é a leitura correta do texto freudiano. As outras estão equivocadas por não terem conseguido ir ao cerne do pensamento de Freud. Quem não lê como ele está lendo errado. Isso não é uma interpretação minha, pode ser lido diretamente em vários textos de Lacan ao longo de sua obra. Quero deixar claro que, para mim, esses arroubos de arrogância não desmerecem sua obra e seu trabalho intelectual que, sem dúvida, põem em relevo aspectos fundamentais da obra freudiana como, por exemplo, a questão da oposição entre desejo e satisfação (gozo) e do papel simbólico da função paterna e suas consequências no desenvolvimento do indivíduo e da civilização. Temos muito o que aprender com Lacan. Mas é uma leitura, não a leitura. Lembro que diante da multiplicação das “psicanálises” na Viena de sua época, Freud afirmou: “ninguém pode saber melhor do que eu o que é a psicanálise”. (ver post 5) Parece que Lacan, na falta de Freud e situando-se como seu herdeiro direto, atribuiu-se esse direito. 

Mais do que qualquer outro aspecto no funcionamento de sua Escola (que, convenhamos, tem um desenho muito condizente com a identidade freudiana), talvez tenha sido a identificação com esse traço de Lacan – aquele que sabe ler Freud – que multiplicou pelo mundo os “chefes de escola”, sempre alinhados com uma linhagem de chefes (a verdadeira) e sempre atacando as linhagens rivais (as falsas) e seus comandantes. Em apoio a essa argumentação, posso citar o fato de que os kleinianos e os anafreudianos, que são teoricamente água e vinho, convivem sob o mesmo guarda chuva da IPA. Para muitos pode ser surpreendente constatar que, olhando a psicanálise de hoje,  a IPA tem se mostrado muito mais tolerante com as diferenças!

Dessa forma, o fenômeno da multiplicação das escolas pode ser derivado de um fenômeno muito mais basal: o fenômeno da multiplicação dos mestres. O que identificações como essas produzem nos grupos, nesse caso específico nas sociedades analíticas? Esse ideal identificatório não promove a autonomia dos indivíduos, pelo contrário, traz um efeito de sujeição que uniformiza a todos. Referindo-se às consequências de conceber o final de análise como identificação ao analista, no texto que comentamos, Situação da psicanálise e formação do analista em 1956, Lacan, em um de seus momentos mais inspirados, alude à shadenfreude nazista, que promove no povo a identificação com o Führer (shadenfreude quer dizer: o sentimento de satisfação pelo sofrimento do outro): “… será o sentimento que soldará mais fortemente o grupo: esse sentimento é conhecimento, sob uma forma patética, nele comunga-se sem se comunicar, e ele se chama ódio. Sem dúvida um bom objeto, conforme se diz, pode ser promovido a essas funções de sujeição, mas esta imagem que faz os cães fiéis, torna os homens tirânicos…” (479)

O resultado disso é que podemos identificar no lacanismo internacional as mesmas consequências que Lacan apontara em seu texto em relação às sociedades da IPA de sua época e que listei no post anterior. Esta psicanálise isolou-se da ciência contemporânea, principalmente da psiquiatria e da neurociência, vendo-as como equivocadas e enganosas, frutos de uma ciência vazia. Sua pobreza teórica pode ser constatada nos textos (e lives) que circulam sempre em torno dos mesmos conceitos, poucos e mal compreendidos, pela repetição de frases de impacto (como, por exemplo, a mulher não existe), pelo apego a abstrações por vezes muito distantes da prática concreta, pela redução da complexidade da clínica a poucas categorias tomadas como essências (foi o que aconteceu com as nobres neuroses – histérica e obsessiva – freudianas). O resultado é a paralização da discussão crítica, princípio de todo o progresso científico. Novamente, o progresso do saber está subordinado e submetido à política.

Lacan apostou numa organização diferente para o agrupamento dos analistas. Tentou organizar um funcionamento de acordo com o laço psicanalítico, que privilegia as formações do inconsciente, o reconhecimento das diferenças, a luta contra as resistências e a utilização da transferência para o trabalho. Mas, se esse laço deve ser soberano para aquele que conduz uma análise (o que depende de sua formação, é claro), a nível institucional não mostra eficácia. Nesse nível o discurso do mestre impera, não tem rival, é avassalador. Não penso que seja porque as pessoas são presas fáceis de profetas de plantão. Elas não são ingênuas, são elas que entronizam os mestres, pois precisam deles. Têm sede de proteção. Não há mestre sem escravo nem escravo sem mestre, é uma relação dialética, ensina Hegel. Penso que isso tem raízes profundas no que há de mais constitutivo na subjetividade dos seres humanos, seu desamparo psíquico. Vamos tratar mais demoradamente desse assunto  posteriormente.

Mas, antes disso, que conclusões podemos tirar dessa história? Ela deve servir para posicionar-nos diante da situação da psicanálise em 2020, da degradação das instituições analíticas e da trivialização da formação. Pois, como disse Freud: quem não conhece sua história está condenado a repetí-la.