Sobre a (de)formação em psicanálise hoje VII

Três anos depois de Balint apresentar seu trabalho sobre a formação e a didática no XVIII Congresso da IPA, Lacan publica um texto intitulado Situação da Psicanálise e formação do psicanalista em 1956, no número especial de outubro-dezembro de 1956 de Les Études Philosophiques em comemoração ao centenário do nascimento de Freud e posteriormente publicado nos Écrits. Nele Lacan apresenta uma crítica ácida e mordaz tanto da maneira como a IPA representava e sustentava a psicanálise nessa época quanto da formação que era proposta aos psicanalistas.

Qual era a situação da psicanálise em 1956 ao ver de Lacan? Conceitualmente vazia e tecnicamente equivocada por ter-se perdido no que ele chama de “vício mais profundo”, quer dizer, numa psicologização imaginária que deu livre curso a fantasias psicológicas que degradaram os conceitos teóricos e que contaminaram a prática com a díade imaginária do hic et nunc. Os efeitos dessa errância se mostravam na confusão sobre os conceitos – cada um que utilizava os termos freudianos designava algo diferente – e na degradação de seu uso. Assim como a frustração (termo que, segundo Lacan, não consta em Freud) tornou-se explicação para tudo, a transferência acabou reduzida a uma constelação de sentimentos experimentados pelo paciente, e a resistência assimilada a uma atitude de oposição. Tudo isso resultou na “segregação intelectual” da psicanálise relativamente à ciência e em seu isolamento intelectual.

Se essa era a situação da psicanálise nesse momento, o que Lacan propõe como saída desse impasse? Faço questão de citá-lo: “Para saber o que é a transferência, é preciso saber o que se passa na análise. Para saber o que se passa na análise, é preciso saber de onde vem a fala. Para saber o que é a resistência, é preciso saber o que faz tela ao advento da fala: e não é tal disposição imaginária individual, mas uma interposição imaginária que ultrapassa a individualidade do sujeito, no que ela estrutura sua individuação especificada na relação dual.” (461) – (Os números entre parênteses referem-se às paginas da edição francesa. As traduções são minhas.) Ou seja, a psicologização sofrida pela psicanálise é resultado de uma interposição imaginária que faz tela ao advento da verdadeira determinação, à qual a função imaginária está subordinada, e que, ao ver de Lacan, é o cerne do ensino freudiano, a determinação simbólica. Essa determinação simbólica Lacan vai buscá-la no formalismo de sua época, no estruturalismo de Saussure e Levi-Strauss, radicalizando a distinção entre significante e significado e afirmando a primazia do significante (do simbólico) sobre o significado (o imaginário). “Dessa determinação simbólica, a lógica combinatória nos dá a forma mais radical, e é preciso saber renunciar à exigência ingênua que quereria submeter sua origem às vicissitudes da organização cerebral que a reflete ocasionalmente.” (468) É pela leitura formalista da psicanálise que Lacan pretende devolver-lhe seu caráter científico situando-a no corpo das ciências que ele chama de conjecturais, termo com o qual substitui a denominação de ciências humanas. “Isso lhe confere seu lugar no reagrupamento que se afirma como ordem das ciências conjecturais. Pois a conjectura não é o improvável: a estratégia pode ordená-la em certeza. Da mesma forma, o subjetivo não é o valor de sentimento com o qual se o confunde: as leis da intersubjetividade são matemáticas.” (472)

Isso quanto ao aspecto da situação da psicanálise. E a formação do analista? Lacan observa que Freud escreveu Psicologia de grupo e análise do ego, não por acaso, após dez anos de experiência depois da fundação da IPA. Nesse texto se interessa pelos mecanismos psicológicos que determinam a organização e o funcionamento dos grupos humanos. Curiosamente, Jones faz uma observação semelhante com respeito ao interesse de Freud pela psicologia da religião, cujo aparecimento em textos coincide com os problemas com Jung. Estas duas temáticas (a psicologia dos grupos e a psicologia da religião) estão intimamente vinculadas e ambas giram em torno da figura paterna do Ideal do Ego e do Superego. No texto sobre os grupos, Freud faz uma descoberta fundamental, a meu ver ainda pouco explorada, que é a de que os grupos se mantém unidos por laços libidinais em que o ego da cada indivíduo está identificado a uma mesma imagem de Ideal do Ego e, portanto, dissolvido em uma massa de egos semelhantes, sustentada pela figura do chefe. Ao propor essa relação entre a fundação da IPA e o texto sobre a psicologia das massas, Lacan quer sugerir que Freud já havia identificado na hierarquia da IPA uma organização como essa, semelhante à Igreja ou ao Exército. Lembro que Balint já havia denunciado na IPA essa forma de organização.

Para Lacan, a hierarquia das instituições analíticas da IPA tem apenas um grau, o analista didata, que ele chama de Suficiências. Dá esse nome (inspirado na Fenomenologia do espírito de Hegel) porque elas se bastam em si mesmas, não necessitando nada além delas próprias para provarem-se como tais. Mas, sendo assim, como as Suficiências se transmitem, produzem discípulos? “… resta-lhe(s) a via da reprodução imaginária a que por um modo de fac-símile análogo à impressão, permite, se se pode dizer, a tiragem em um certo número de exemplares, em que o único se pluraliza. … Pois não esqueçamos que a entrada na comunidade é submetida à condição da psicanálise didática, e há bem alguma razão para que tenha sido no círculo dos didáticos que a teoria que faz da identificação com o Ego do analista o fim da análise, tenha sido dada a luz.” (476) Nessa reprodução via xerox, esse ideal identificatório não promove a autonomia dos indivíduos, pelo contrário, traz um efeito de sujeição que uniformiza a todos. Obtém-se, assim, o que há de mais contrário ao que a experiência analítica visa a obter: o acolhimento da estranheza das formações do inconsciente, o acolhimento das diferenças e o advento de um sujeito capaz de desejar (por si mesmo). 

Lacan enumera as consequências da situação em que se encontrava a Psicanálise em 1956 (488):

1 – a extraterritorialidade científica da psicanálise,

2 – a pobreza teórica manifestada pela repetição dos conceitos e pelo pouco aproveitamento da riqueza da experiência, 

3 – a rotina repetitiva dos programas teóricos,

4 – a pobreza na utilização do método psicanalítico para aprimorar a nosografia psiquiátrica, e,

5 – o arrasamento do senso crítico.

O resultado é a paralisação da discussão crítica, princípio de todo o progresso científico. A ciência aqui está subordinada e submetida à política.

Em 1956 Lacan faz o diagnóstico. Com os anos virá sua resposta. Trataremos dessa resposta no próximo post.

Sobre a (de)formação em psicanálise hoje VI

Diante da situação das “diversas escolas de psicanálise” criada por Adler e Jung, Ferenczi observou que o plano ideal seria a presença, nos diferentes centros internacionais da Associação, de analistas que tivessem sido analisados completamente por Freud em pessoa. Como isso parecia muito pouco plausível, Jones veio com a ideia da criação de um comitê, um pequeno grupo de analistas dignos de confiança, uma espécie de ‘velha guarda’, em torno de Freud. Esse grupo prestaria a Freud um auxílio prático, velando pelos conceitos fundamentais da psicanálise. Entre eles havia um pacto: se algum deles desejasse afastar-se de alguns desses princípios (por exemplo: os conceitos de repressão, de inconsciente, de sexualidade infantil, etc…) prometia não fazê-lo publicamente antes de haver discutido seus pontos de vista no grupo. Freud concordou prontamente com essa ideia: “…um conselho secreto composto dos melhores e mais dignos de confiança de nossos homens para cuidar do desenvolvimento da psicanálise quando eu não existir mais … Sei que há um elemento infantil e talvez romântico nessa concepção … Ouso afirmar que a vida e a morte me seriam mais fáceis se eu soubesse da existência dessa associação para velar por minha criação.”, escreveu ele em resposta à carta em que Jones lhe comunicava essa proposta. (pág. 162) Composto inicialmente por Jones, Ferenczi, Rank, Sachs e Abraham, recebeu mais tarde Eitingon. Na primeira reunião desse comitê, Freud comemorou o acontecimento presenteando cada um dos membros com um entalhe grego antigo de sua coleção que foram adaptados em anéis de ouro. Como Freud usava um anel desse tipo com um entalhe greco-romano com a cabeça de Júpiter, esse grupo ficou conhecido como os Sete Anéis. O comitê dos Sete Anéis por mais de dez anos esteve ao lado de Freud, auxiliando-o em termos administrativos, científicos e pessoais. Formou uma espécie de escudo protegendo e fortalecendo Freud contra os ataques de que era alvo e cuidando das atividades institucionais, deixando-o livre para exercer seu trabalho criativo. Na década de vinte, sérias dificuldades desenvolveram-se no relacionamento entre Rank e os demais membros do comitê. Este deixou o comitê em 1925 e seu lugar foi ocupado por Anna Freud. No Congresso de Innsbruck (1927) o comitê deixou de existir como uma organização “secreta”. Seu lugar foi ocupado pela Diretoria da Associação, sob a presidência de Eitingon. De qualquer forma, os membros desse comitê estiveram nas posições de liderança da IPA até a eclosão da segunda guerra.

Como vimos anteriormente, para Freud um ponto de fundamental importância para o futuro da psicanálise é a análise do analista, ou o que veio a se chamar de análise didática. Jones comenta que nessa época (1913) nem se pensava em análise didática. Já referimos que a primeira análise didática foram os passeios analíticos noturnos de Eitingon com Freud em 1907. Ferenczi passou três semanas sendo analisado por Freud tanto em 1914 quanto em 1916 e Jones analisou-se com Ferenczi em 1913. Nenhum dos outros membros teve qualquer análise pessoal regular. A esse respeito Jones comenta: “É digno de nota que Abraham saiu-se muito bem sem qualquer espécie de ajuda, o que mostra que o caráter o e temperamento originais de uma pessoa são da maior importância para o sucesso”. (pág. 170)

Em 1925, no Congresso realizado em Bad Homburg e presidido por Abraham, houve a proposta de criação de um comitê internacional para uniformizar os padrões de formação. A formação não deveria ficar a cargo da iniciativa pessoal dos indivíduos.  As Associações deveriam organizar Institutos de formação em seus países, e os regulamentos para a formação nestes Institutos seriam aprovados pela IPA. A formação deveria incluir “análise didática” e análise de pacientes sob supervisão. Qualquer um que desejasse praticar a psicanálise deveria completar a sua formação antes de se tornar um membro da IPA. Cada Sociedade filiada deveria eleger um Comitê de Formação com não mais do que 7 membros e estes Comitês juntos formariam uma comissão Internacional de Formação. Este seria o órgão central da IPA para todas as questões relacionadas com a formação psicanalítica. Eitingon foi nomeado o primeiro Presidente do Conselho de Formação.

Em 1932, havia sete Institutos de formação e os mais novos estavam seguindo o modelo de formação operante em Berlim, Viena e Londres. A formação durava no mínimo três anos, que incluíam dois anos de estudos teóricos, análise didática com um analista credenciado e duas análises de controle por no mínimo um ano cada. Estudos não analíticos em campos relacionados eram encorajados. Analistas leigos necessitariam estudos de fisiologia e experiência em clínica psiquiátrica e os médicos deveriam ter uma pós graduação em neurologia ou psiquiatria. Como se pode ver, o cerne dos regulamentos atuais da IPA já estavam estabelecidos antes da segunda guerra mundial. A formação ficava, enfim, regulamentada.

Embora os institutos de formação tenham acolhido o tripé proposto por Freud para a formação do analista, tratava-se, no entanto, de uma regulamentação formal. Estabelece normas sobre tempos de duração, cumprimento de exigências curriculares e classes hierárquicas. Nada que diga respeito ao que poderia ser intitulado de uma teoria da análise didática. O primeiro a questionar o sistema de formação da IPA e as análises chamadas didáticas foi Balint em um artigo de 1947 intitulado Sobre o sistema de formação psicanalítica. Além de quebrar o silêncio sobre a prática da análise didática, o artigo de Balint põe em relevo o fato dos analistas didatas não terem produzido nenhuma teoria sobre a análise didática e sua atitude dogmática em relação a ela. Acaba comparando o sistema de formação da IPA a práticas ritualistas religiosas. Em 1953, no XVIII Congresso Internacional volta ao tema com o trabalho Formação psicanalítica e análise didática no qual faz uma história da análise didática e, retomando as ideias de Ferenczi sobre o assunto, coloca a questão de seu alcance e de suas diferenças com a análise terapêutica. 

Dos discípulos diretos de Freud, o mais inquieto com a questão da ação do analista e de sua formação foi certamente Ferenczi. Em função de suas posições técnicas (que estão expostas no texto A técnica psicanalítica de 1919), chega à conclusão de que a principal garantia da realização de uma análise é o ser do analista. Dessa forma, a questão a análise pessoal do psicanalista torna-se uma questão fundamental para a psicanálise. Para Ferenczi, análise com fins de formação precisa avançar além da remissão dos sintomas e da retificação da fantasia. Precisa ir até a retificação da estrutura cristalizada do caráter. (Ferenczi diferencia, ecoando Freud pós 1920, sintoma e caráter como formas distintas de satisfação pulsional. O sintoma está relacionado ao conflito psíquico enquanto que o caráter à compulsão à repetição.) Em O problema do fim da análise de 1927, afirma: “ … o analista, de quem depende o destino de tantos seres, deve conhecer e controlar até as fraquezas mais escondidas de sua própria personalidade, o que é impossível sem uma análise inteiramente terminada”. (pág. 24 da edição brasileira das Obras Completas)

Essas questões ferenczianas foram de alguma forma tomadas pela IPA. A questão do ser concretizou-se na questão da contratransferência, e o domínio desta por parte do analista permitiria a isenção necessária à condução do tratamento. Mas a questão do fim de análise, que no ponto de vista de Ferenczi seria um “desenlace natural” em função do esgotamento da fantasia e da análise do caráter, acabou embaixo do tapete e dissolveu-se na regulamentação das análises didáticas. Certamente a questão do fim da análise é a questão crucial para a formulação de uma teoria da análise didática e da formação do analista, pois toca no que resta do ser após a retificação da estrutura do caráter e até que ponto essa estrutura é passível de mudança. Mas, como observou Balint, nada foi produzido a respeito pelos analistas que conduziam essas análises.

Quem retomou essas questões foi Lacan, que, como sabemos, coloca no centro de sua Escola a questão da formação do analista. E a retoma exatamente a partir do ponto em que Ferenczi a coloca, a partir da questão do ser. Em La direction de la cure escreve: “Apesar disso o ser é o ser, seja quem for que o invoque, e nós temos o direito de perguntar o que ele vem fazer aqui. Portanto, remeterei o analista a seu banquinho, na medida em que o sou eu próprio, para observar que ele está tanto menos seguro de sua ação quanto mais está interessado em seu ser.” (Écrits, pág. 587, a tradução é minha). Mas Lacan a retoma pelo lado inverso: “O analista é menos livre ainda no que domina estratégia e tática: a saber, em sua política, onde ele fará melhor em se orientar por sua falta a ser do que por seu ser.” (pág. 589) A falta a ser (manque à être) é um conceito fundamental na psicanálise lacaniana e é a base do preceito lacaniano de que “o analista só se autoriza de si mesmo”. Já tratamos disso no quarto post dessa série ao qual remeto o leitor. 

Como a “revolução institucional” promovida por Lacan com a fundação de sua Escola e as consequências da popularização de seu preceito quanto à autorização do analista tiveram profundas consequências no que aconteceu com a psicanálise no século XX, vamos considerar esses temas mais demoradamente no próximo post.