Vamos começar a descer o iceberg.
Consideremos uma situação comum. Imaginemos um aluno nos últimos anos da faculdade de psicologia ou recém-formado, ou mesmo alguém com mais tempo de profissão, interessado em psicanálise que gostaria de fazer uma formação. Suponhamos que o interessado procure uma formação “séria”, não cursos on-line. Poderia procurar uma formação nas sociedades afiliadas da IPA ou aproximar-se da Escola Brasileira de Psicanálise. Cito essas duas por serem as diretas derivadas, por terem sido fundadas, a primeira de Freud e a segunda de Lacan. Na verdade penso que essa alternativa nem passa mais pela cabeça da maioria dos interessados. Dada a situação atual da transmissão da psicanálise em terras verde-amarelas, presumo que informações a respeito da “oficialidade” dessas instituições sejam pouco conhecidas. Mas desconhecimentos a parte, em função da situação geográfica, financeira e profissional do interessado, isso pode ser complicado, o que é o caso para a grande maioria. Afinal para que despender tanto esforço se bem pertinho estão à disposição uma grande oferta de cursos de formação, de seminários e de grupos de estudo em instituições com nomes pomposos onde sempre constam os sobrenomes ‘freudiano’ ou ‘lacaniano’.
Recentemente contei 66 delas (em sua imensa maioria de sobrenome lacaniano) que assinaram um manifesto publicado na web. Embora este número compreenda algumas seções de uma mesma instituição, acho que ele é maior, pois conheço instituições que não estão lá. Confesso que, quando vi esse número, fiquei pasmo. Há algo errado aí. É verdade que dissensões sempre foram regra na história da psicanálise. Freud já amargara algumas, como as de Jung, Rank, Adler, Tausk, entre outros. Mas eles saíram da psicanálise. A IPA, por outro lado, conseguiu manter sob seu guarda chuva abordagens conceitualmente diferentes e até conflituosas, como as de Anna Freud e Melanie Klein. Mas as divisões que atingem as instituições lacanianas, estas são um caso a parte. Vamos pensar sobre isso mais para frente.
Voltemos ao nosso estudante. Convenhamos que a transmissão da psicanálise em algumas dessas instituições é levada a sério. Há pessoas com conhecimento e percursos respeitáveis pela clínica e pela teoria. Há também produção intelectual e ambiente propício aos estudos. Se considerarmos que o analista depende de sua formação e se essa formação depende do que nela ele põe de ‘si mesmo’, conclui-se que ele deve tornar-se responsável pela própria formação. Ela não é algo que se ganha, mas algo que se conquista com muito esforço. Isso quer dizer não responsabilizar a instituição ou seus mestres pela sua formação. Se essa for a posição subjetiva de nosso estudante, ele pode encontrar na instituição um espaço para sua formação.
Vamos considerar um pouco mais esse ‘si mesmo’. Ele consta do princípio enunciado por Lacan: “o analista só se autoriza de si mesmo”. A última sentença da “Abertura da Coletânea” que Lacan escreveu quando da publicação de seus Écrits em outubro de 1966 diz: “Queremos do percurso do qual esses escritos são as balizas e do estilo que sua destinação exige, levar o leitor a uma consequência onde ele tenha que por de si.” Lacan situa seus escritos como balizas no percurso da formação do analista cujo destino, para cada um, é encontrar ‘seu estilo’. O que entender por estilo, os leitores interessados podem ir direto ao texto lacaniano, mas basta dizer aqui que ele remete ao lugar da falta a ser, o lugar da causa do desejo. Lugar que nenhum saber pode preencher. O conhecimento reunido nas quase 900 páginas dos Écrits são balizas, orientações que indicam um caminho a seguir. Mas para percorrer esse caminho é necessário que o aprendiz ponha de si: seu esforço, sua vontade, seu desejo, sua perseverança. Recordo aqui a carta de Anna Freud: “Se você quer ser um verdadeiro psicanalista você deve ter um grande amor pela verdade, tanto a verdade científica quanto a verdade pessoal, e você deve colocar esse amor à verdade acima de qualquer desconforto ao encontrar fatos desagradáveis, quer eles pertençam ao mundo exterior ou ao interior de tua própria pessoa.”
“Só sei que nada sei” é o famoso dito de Sócrates que veio a se constituir numa espécie de inscrição no portal de entrada da ciência ocidental (ciência entendida aqui no sentido amplo). Esse dito não é uma confissão de ignorância absoluta. Basta ler qualquer dos Diálogos platônicos para constatar que Sócrates na verdade não agia exatamente como um ignorante. Nesse dito há uma confissão positiva de saber: uma coisa eu sei que eu sei: que nada sei. Sei positivamente que todo o saber que eu tenho é nada perto do que se tem a saber, que toda a certeza é provisória e que o saber que hoje penso ser verdadeiro poderá revelar-se falso a qualquer momento. Assim como quem entra no inferno de Dante deve depor em suas portas toda a esperança, quem entra no portal da ciência deve depor todas as suas certezas.
Em resumo: quanto mais conhecemos, menos sabemos. Sabedoria vem de saber e não de conhecer. A sabedoria é uma atitude diante do conhecimento, de seu valor e de sua verdade. Sábio é aquele que “sabe que tem tudo para saber” e não aquele que instalou a wikipédia em seu cérebro. Ou seja, o resultado do esforço de perseverar no percurso da formação permanente não é de acúmulo, mas de perda, perda das certezas atrás das quais costumamos esconder-nos da realidade.
Dito isso, o problema que nosso estudante encontrará nas instituições é que elas estão entupidas de conhecimento, e conhecimento transmitido sob uma forma dogmática. Toda a instituição tem um discurso oficial que instaura uma leitura correta dos conceitos psicanalíticos. É claro que, se há uma leitura correta, aquelas que a questionam ou apresentam pontos de vista diferentes estão erradas. Com isso toda a crítica fica excluída, e com a dúvida excluída, resta a certeza. O amor pela verdade virou amor pela certeza. Freud identificou nesse amor o laço libidinal que mantém a coesão interna de um grupo e transforma tudo o que é diferente ou exterior em inimigo. Quem frequentou ou frequenta essas instituições pode constatar que o texto lacaniano e o freudiano são tratados como as sagradas escrituras, digamos, o novo e o velho testamento, respectivamente, desde que o velho testamento seja lido sob a luz do novo. E cá entre nós, poucos são os que leem o velho testamento!
Mas essas salas institucionais herméticas, donde mal se pode apreciar o há lá fora através de suas janelas embaciadas, apresentam aberturas para o exterior. Podemos dizer que há tantas aberturas quantas pessoas. São as telinhas que dão acesso às redes ditas sociais. Nelas nosso estudante pode encontrar tudo o que não tem lá dentro. O imenso número de vídeos que podem ser encontrados no YouTube, por exemplo, é impressionante. São aulas, conferências, mesas redondas, entrevistas, seminários, cursos, etc… E tem também os Youtubers, os influenciadores digitais, que contam com uma infinidade de seguidores. Para adquirir conhecimento não há mais nenhuma necessidade de ler, passar horas em cima dos textos quebrando a cabeça para entendê-los. Isso é coisa do passado. Está tudo explicadinho ali nos vídeos. A um vídeo segue-se outro, e outro, e outro, a uma postagem segue-se outra, e outra, e outra, numa sequencia infindável e hipnotizante.
Eis nosso estudante, capturado internamente pela certeza da “leitura correta” e externamente pela enxurrada de informações que emanam das telas animadas pelos pequenos mestres contemporâneos. Alienado como está ao infindável desfile desses outros, vai ser difícil ao nosso pobre estudante ‘pôr de si”.
Os caminhos que trouxeram a psicanálise a essa situação calamitosa podem, a meu ver, ser procurados em duas direções: uma tem a ver com os rumos que a própria psicanálise tomou e a outra com o rumo dos nossos tempos, que conduziu todos os produtos culturais à mesma situação degradada de produtos de consumo imediato. Vamos tratar de cada uma separadamente em nossos próximos posts.
Caro Dr. Fabio, obrigado por compartilhar tão inspiradora experiência e tão sóbria crítica do contemporâneo que estamos vivendo. A psicanálise, por suas características que lhe são próprias, torna-se a mais afetada pelo atual “conhecer consumista”. Mas infelizmente isto se estende também a tantas outras áreas do saber… Um grande abraço.