Sobre a (de)formação em psicanálise hoje III

No site referido do post anterior, que propõe um curso totalmente online para formação de analistas, há uma aba de “dúvidas frequentes”. Um leigo que lê os argumentos apresentados nessa aba pode ficar convencido da propriedade da proposta. Muito bem, vamos discuti-los como se deve, ponto por ponto. Afinal, a análise crítica e a exposição argumentativa fazem parte da tradição científica na qual Freud inseriu a psicanálise. E, de quebra, vamos refletir um pouco mais sobre a formação de analistas.

A maior parte do texto é centrada nos aspectos legais (citando, à exaustão, leis, portarias, etc…) e devotada a convencer o leitor de que ele não precisa ser médico ou psicólogo para ser psicanalista, e que ser formado ou estar cursando qualquer outro curso superior é desejável, não impeditivo. A mensagem é: não deixe passar a oportunidade de fazer um curso que beneficiará sua vida pessoal incrementando seu auto-conhecimento e turbinará sua vida profissional, possibilitando uma ferramenta que pode ser aplicada nas mais diversas situações. Mas há um momento, ainda que breve, em que a conversa sobre leis e portarias cede espaço a considerações teóricas que evocam os argumentos freudianos em defesa da atividade de psicanalista não ser exclusiva de médicos e psicólogos. É interessante que Freud seja tratado ali como precursor da psicanálise e não como seu fundador. O importante é que “grandes nomes da psicanálise” a consideram uma ciência leiga, não amarrada à medicina ou à psicologia. Interessante essa denominação de ciência leiga. Podemos nos perguntar o que isso quer dizer exatamente, mesmo porque Freud a considerava um ramo da psicologia, chamando-a inúmeras vezes de psicologia profunda. No Pós-escrito de 1927 ao texto A questão da análise leiga Freud diz com todas as letras: “A psicanálise é uma parte da psicologia; não da psicologia médica no velho sentido, não da psicologia de processos mórbidos, mas simplesmente da psicologia.” (vol. XX, pág. 286)

Há um deslocamento indevido aí: de análise leiga para ciência leiga. Análise leiga opõe-se à análise médica. Freud se dá ao trabalho de esclarecer na Introdução desse texto: “Leigo = Não-médico” (vol.XX, pág. 209). E análise médica para Freud queria dizer a aplicação da psicanálise à prática clínica e não outra coisa. Deixa claro que “… o trabalho da análise é uma parte da psicologia aplicada – e, além disso, de uma psicologia que é desconhecida fora da análise. Um analista deve, portanto, antes de tudo, ter aprendido essa psicologia, essa psicologia profunda ou psicologia do inconsciente, ou pelo menos tanto dela quanto se conhece nos dias que correm.” (vol. XX, pág. 235)

Em seguida as “dúvidas frequentes” evocam o processo cível, iniciado na primavera de 1926, que envolveu Theodor Reik, membro não-médico da Sociedade Psicanalítica de Viena. Ele foi acusado de violação de uma antiga lei austríaca contra o ‘charlatanismo’, que tornava ilegal que uma pessoa sem o grau de medicina tratasse de pacientes. Na verdade Reik já fora proibido de praticar a psicanálise pelo Conselho Municipal de Viena em fevereiro de 1925. Antes disso, em novembro de 1924, Freud descreve, numa carta a Abraham, que um alto membro do Ministério da Saúde havia solicitado sua opinião sobre o assunto. Além de entregá-la por escrito, Freud conversou longamente com ele, o que levou “… a entendimento de amplas consequências entre nós”. (vol.XX, pág. 206) Esse processo foi encerrado pelo promotor público após uma investigação preliminar. Foi essa a motivação principal do texto de Freud sobre a análise leiga, escrito sob a forma de um diálogo com uma ‘pessoa imparcial’, que Strachey (o editor da Edição Standard das obras de Freud) acha muito provável ter tido como modelo o alto membro do Ministério com o qual Freud conversara. Mas a posição de Freud relativa à análise leiga já vem de muito antes. Em 1913 escreveu uma introdução para o livro O método psicanalítico do Dr. Oskar Pfister, pastor e educador de Zurique, amigo íntimo de Freud, inabalável partidário de suas teorias e talvez um dos primeiros leigos a praticar a psicanálise. Nela Freud se pergunta se “… a prática da psicanálise pode não ter como pré-requisito um treinamento médico, do qual o educador e o assistente pastoral devem permanecer excluídos …” . A resposta de Freud é clara: “Confesso que não posso encontrar fundamento para reservas desse tipo”. (vol. XII, pág. 417)

Essa posição freudiana tem feito a festa para todos aqueles que pretendem fixar um plaquinha em suas portas anunciando: “Fulano de tal, psicanalista”, independentemente de formação, procedência, treino e conhecimento. É claro que as “dúvidas frequentes” fazem grande alarde disso. Nesse ponto do longo texto do referido site, Freud não é mais o precursor, mas o criador da psicanálise, e “deixou bem claro que sua criação (psicanálise) era livre para todas e quaisquer profissões, não sendo desta forma uma técnica exclusiva de nenhum grupo profissional.”

Há um grande equívoco nessa leitura, equívoco que pode ser percebido muitas vezes até em discussões sérias sobre o assunto. A questão da análise leiga não é uma questão profissional. Seja lá que trecho do texto freudiano que se tome sobre essa questão percebe-se claramente que a discussão é outra. Para Freud a questão profissional é cristalina: o psicanalista depende de sua formação e ponto final. E essa formação inclui conhecimentos médicos específicos, além dos já referidos no primeiro post dessa série. Isso revela a grande preocupação de Freud com a atividade clínica propriamente dita e obviamente com o tratamento dos pacientes. Sua preocupação é tão grande que, tanto na introdução para o livro de Pfister quanto em A questão da análise leiga, ele preconiza ao analista leigo a parceria com um médico em casos que marginam a anormalidade mental quando o diagnóstico e o prognóstico parecem duvidosos. Mas não só: “Admito – não insisto – que em todo caso que esteja em consideração para análise o diagnóstico será estabelecido em primeiro lugar pelo médico. A maior parte das neuroses que nos ocupam é felizmente de natureza psicogênica e não dá motivos para suspeitas patológicas. Uma vez que o médico tenha firmado isto, pode confiantemente passar o tratamento a um analista leigo.” (vol. XX, pág. 275) Estas admoestações freudianas tem um objetivo claro: zelar pela atividade clínica propriamente dita (kliné, em grego, significa procedimentos de observação direta e minuciosa, aquele que se inclina sobre o leito para observar o doente ou paciente.) e pela postura ética que todo o clínico tem o dever de adotar no tratamento com seus pacientes. 

Se a preocupação de Freud nessa questão psicanálise/medicina não era profissional, qual era então? Resposta: científica. No capítulo VII e último de A questão da análise leiga Freud elenca os interesses em jogo na discussão da análise leiga. São três, os dos pacientes, os dos médicos e os da ciência, “… que realmente abrange os interesses de todos os futuros pacientes.” (vol. XX, pág. 276) O terceiro interesse, o da ciência, é o mais importante para Freud. “Pois não consideramos absolutamente conveniente para a psicanálise ser devorada pela medicina e encontrar seu último lugar de repouso num livro de texto de psiquiatria sob a epígrafe “Métodos de Tratamento”, juntamente com procedimentos tais como sugestão hipnótica, auto-sugestão e persuasão, que, nascidas da nossa ignorância, tem de agradecer a indolência e a covardia da humanidade por seus efeitos efêmeros. Merece melhor destino e, pode-se esperar, o terá.” (vol. XX, pág. 280)

Não creio que essas palavras de Freud necessitem de mais comentários. Freud era antes de tudo um cientista. Foi assim que iniciou sua carreira, no laboratório de fisiologia de Brücke (“que teve mais influência sobre mim do que qualquer outra pessoa em toda a minha vida” [vol. XX, pág. 288]) e foi assim que transitou pela clínica das neuroses, construindo, a partir das observações de seu ‘laboratório clínico’, uma metapsicologia, que não só sobrevive até os dias de hoje, como tem se mostrado uma poderosa ferramenta teórica que, juntamente com a neurociência contemporânea, (cognitiva, afetiva e computacional) tem possibilitado avanços significativos na compreensão desse complexo objeto mente/cérebro.   

Infelizmente a questão técnica, “profissional” tem se sobreposto, e por que não dizê-lo, deixado totalmente à margem a dimensão científica da psicanálise. As “dúvidas frequentes”, que tratam explicitamente a psicanálise como uma técnica, fazem questão de apontar que “facultativamente, o Psicanalista pode associar elementos de áreas correlatas, como programação neurolinguística, coaching e terapias holísticas.” (Ao menos não consta aí a grande novidade terapêutica de nossos dias, a constelação familiar.) Eis a psicanálise degradada a uma técnica entre outras no grande arsenal de recursos efêmeros nesse grande mutirão universal contemporâneo em prol do dever de ser feliz.

Esses cursos online são apenas a ponta do iceberg. Essa posição infiltra-se como erva daninha e cresce nos lugares mais inesperados. É disso que continuaremos a tratar nos próximos posts. Não sem antes lembrar de Freud: “Só quero sentir-me seguro de que a terapia não destruirá a ciência.” (vol. XX, pág. 289)

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