O tripé freudiano continua sendo praticado nos padrões tradicionais pelos Institutos ligados à Associação Psicanalítica Internacional. De praxe exige-se o mínimo de cinco anos de análise didática, com um analista didata reconhecido pela Instituição com frequência mínima de quatro sessões semanais, a frequência aos seminários de formação, algo em torno de 350 seminários, e a supervisão do atendimento em análise de no mínimo dois pacientes. Após o cumprimento de todos os créditos e feito o relatório da experiência supervisionada, o candidato submete-se a uma comissão julgadora e, se for aprovado, recebe a qualificação de analista.
Nas escolas lacanianas vinculadas à Associação Mundial de Psicanálise continuam vigorando as orientações de Lacan quando da fundação da École Freudienne de Paris em 1964, que realizam o tripé formativo de maneira diferente da IPA. O ensino teórico é realizado através do cartel e dos seminários e atividades promovidas pela Escola. Não há padrão para a análise didática nem obrigatoriedade de escolha de analistas didatas. O mesmo vale para a supervisão. Pelos preceitos lacanianos, um analista é “didata a partir da realização de uma ou mais psicanálises que se revelaram didáticas.” (Ata de Fundação da EFP). Essa é uma consequência do princípio de que “o analista só se autoriza de si mesmo”. Mas isso não exclui, como diz Lacan na Proposição do 9 de outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola, “que a Escola garanta que um analista depende de sua formação”. Essa garantia vem sob a forma do titulo de A.M.E. (Analista Membro da Escola), concedido àqueles que a Escola reconhece como psicanalista que deu suas provas. Há outro título, de A.E. (Analista da Escola), obtido por aqueles que cumprem o procedimento do passe, tendo dado testemunho de sua passagem a analista.
É assim que acontece a formação de analistas nas Sociedades e Escolas “oficiais”. Como podemos ver, nelas a formação exige tempo, dedicação, esforço e um considerável investimento. E um efeito que é a formação permanente, tão bem expressa por Lacan na Proposição: “… tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência.”
Mas sabemos que o grande contingente daqueles que se intitulam analistas em nosso meio e em nosso tempo não vem dessas instituições “oficiais”. São egressos ou frequentadores de instituições “oficiosas”, digamos “paralelas”. Só das que se intitulam lacanianas contei recentemente 66. Como esse número veio da contagem das assinaturas de um manifesto publicado no ano passado na internet, ele certamente está subestimado. Como eles se formam? Como eles se autorizam? Em que solo estão assentados? O tripé freudiano é praticado nessas instituições; se sim, como?
Lembro de quando, no último ano do curso de Psicologia, resolvi dedicar-me à psicanálise e tornar-me analista. Há mais de quarenta anos atrás, morando em Curitiba, isso não era coisa simples. A opção de procurar um Instituto ligado à IPA, como a SBPSP, por exemplo, estava fora de cogitação. Naquela época apenas aceitavam médicos. Naquele momento, os primeiros psicanalistas lacanianos que haviam feito sua formação na França chegavam ao Brasil. Congregados em uma Instituição de âmbito nacional chamada de Centro de Estudos Freudianos, estavam distribuídos por várias capitais brasileiras e, por sorte, um deles aportou em Curitiba. Fui procurá-lo para análise e, quando disse que estava ali porque queria ser analista, ele deu um sorriso sarcástico denunciando o que eu já sabia mas escondia de mim mesmo: evidentemente essa não era a razão verdadeira. Como vim a aprender depois, ninguém procura uma análise porque quer ser analista. Esse desejo é fruto da análise e não sua porta de entrada.
Aquele momento foi um momento de sorte (na definição de Aristóteles, a sorte é uma conjunção contingente de cadeias necessárias que sabemos aproveitar em nosso favor). Em função de problemas políticos, não só de Paris vieram analistas naquele momento, como também de Buenos Aires. Dois deles que radicaram-se em Curitiba ofereceram um curso de extensão encampado pela Universidade Católica do Paraná (hoje a PUC-PR), intitulado O Inconsciente Freudiano. E foi ali que comecei minha formação teórica. Como éramos muito poucos os interessados pela psicanálise (naquela época a psicanálise não tinha todo o glamour que desfruta hoje, sendo vista como coisa de elite) não havia outro recurso senão realizar o preceito lacaniano de que o analista deve tornar-se responsável pela sua própria formação. E foi o que fizemos. Para podermos manter um ritmo sistemático de estudos, cinco de nós fundamos uma Instituição intitulada Coisa Freudiana – Transmissão em Psicanálise. Na abertura de seus estatutos está escrito: “Coisa Freudiana tem como objetivo refletir e trabalhar sobre a experiência clínica, tendo como guia os textos de Freud e Lacan buscando definir o campo e os operadores fundamentais da psicanálise e comunicando os resultados a quem queira sabê-los. Esta instituição não se propõe à “formação” de analistas. Formações são as do inconsciente.”
Conto essa história para sublinhar que a formação de analistas e, consequentemente, considerar-se psicanalista, intitular-se como tal diante da sociedade e receber pacientes sob esse título, era uma decisão ética. Havia um peso, não só de seriedade, mas de compromisso com o desejo na adoção desse título. E isso não era preciosismo nosso, havia um consenso geral no meio psi a respeito.
Hoje, passados pouco mais de quarenta anos, as coisas estão muito diferentes. Em primeiro lugar quanto ao número. Houve uma explosão exponencial de pessoas envolvidas com a psicanálise e que se intitulam, sem maiores pudores, de analistas. Há cursos de ‘formação’ por todos os lados. Há até carteirinha de psicanalista. Para a realidade atual, e lembro que estou falando do Brasil, tudo o que descrevi até agora quanto às exigências da formação do analista é coisa do passado.
Experimente escrever na página de busca do Google termos como psicanálise, psicanalista, etc.. O primeiro link que aparece é uma chamada a um curso que propõe a formação em psicanálise EAD (para quem não está familiarizado com a sigla: ensino à distância), com habilitação clínica, 100% On Line. Este curso tem etapas teóricas e práticas, tudo online. A etapa teórica compõe-se de 12 módulos, cada um com sua apostila, que o aluno estuda a seu ritmo. Tendo concluído a etapa teórica o aluno pode começar a prática, composta de supervisão, análise e monografia. A análise, online também, é em parte individual e em parte em grupo.
Segundo minhas pesquisas esse é o mais rápido de todos. Há outros, muitos outros, presenciais ou semi-presenciais, que prometem formação e certificado de psicanalista, supostamente ancorados no tripé freudiano, com seus módulos teóricos e horas definidas de análise e supervisão, individuais e em grupo.
Mas a barbárie não para por ai. Nesse link há uma aba de “dúvidas frequentes”. Ai há longos comentários sobre o que é conhecido como a questão da análise leiga. Como o objetivo é interessar o maior número possível de pessoas, a restrição de títulos aos candidatos (no Brasil a psicoterapia é prática privativa dos Psiquiatras e Psicólogos) seria um impedimento. Para isso nada como apelar para os argumentos de Freud em seu texto de referência sobre o assunto A questão da análise leiga. Há também uma discussão sobre a parte legal, de como é possível no Brasil praticar a psicanálise sem infringir a lei, com o argumento de que a psicanálise é uma ocupação e não uma profissão. Não vou entrar nesse ponto aqui, pois o que me interessa são os argumentos relativos à formação. A meu ver isso é muito sério e vamos considerá-los demoradamente no próximo post.