Este post é o primeiro de uma série onde pretendo compartilhar algumas reflexões e inquietações sobre a situação da psicanálise hoje em nosso meio. Desejo que esses textos incitem o diálogo e ficarei muito feliz se os leitores interessados quiserem trocar suas impressões comigo.
Quem visita o Museu Freud em Londres, depois de se emocionar vendo o gabinete de Freud, sua escrivaninha, seus óculos, o famoso divã, sua biblioteca e a infinidade de estatuetas que ele colecionou por anos e anos, alcança um espaçoso cômodo de decoração bastante despojada onde se encontra um outro divã, uma outra escrivaninha e uma outra biblioteca. São os aposentos de Anna Freud, que viveu e trabalhou ali desde a chegada da família à Londres em 1938 até sua morte em 1982. Sobre a escrivaninha há uma antiga máquina de escrever onde está uma carta dirigida a um certo “Dear John”. A carta inicia pelo registro da pergunta que o Sr. John dirigira a Anna e à qual a carta é a resposta. “Você me perguntou o que eu considero as qualidades pessoais essenciais a um futuro psicanalista.” A resposta de Anna é extraordinária e digna de uma Freud. Eis o que Anna respondeu a John, que transcrevo aqui em tradução livre:
“Se você quer ser um verdadeiro psicanalista você deve ter um grande amor pela verdade, tanto a verdade científica quanto a verdade pessoal, e você deve colocar esse amor à verdade acima de qualquer desconforto ao encontrar fatos desagradáveis, quer eles pertençam ao mundo exterior ou ao interior de tua própria pessoa. Além disso, eu penso que um psicanalista deve ter interesses além dos limites do campo médico, em fatos que pertencem à sociologia, à religião, à literatura e à história, do contrário sua visão do paciente permanecerá muito estreita. Este ponto contempla a preparação necessária além dos requerimentos feitos aos candidatos à psicanálise nos institutos. Você deve ser um grande leitor e tornar-se familiar com a literatura de muitos países e culturas. Nas grandes figuras literárias você encontrará pessoas que conhecem ao menos tanto da natureza humana quanto os psiquiatras e psicólogos tentam fazê-lo.”
Essa resposta evoca os dois lados em que se divide a formação do analista. O primeiro diz respeito a uma característica pessoal exigida ao analista, o amor incondicional à verdade. O segundo a sua formação profissional, a amplidão de seus interesses teóricos e a avidez pela leitura, o que eu resumiria na fórmula: curiosidade intelectual. Em primeiro lugar vou considerar o segundo ponto, a formação. Em outro momento trataremos do primeiro, que, como veremos, nos levará muito além dos limites da formação profissional.
Dada a situação que vivemos atualmente, a formação do analista é um tema para mim bastante inquietante e, por que não dizê-lo, preocupante. Poderia ter usado o termo polêmico. Seria uma boa qualificação, se considerarmos o debate que Lacan introduziu nos anos 1950 no que diz respeito à análise didática. Um debate sério que ajudou a aprofundar a compreensão do que está realmente em jogo nas exigências que aqueles que aspiram à cadeira do analista devem cumprir e principalmente na decisão de um analisando em tornar-se analista. A definição freudiana da formação do analista é muito clara e está explicitamente enunciada em seu texto A questão da análise leiga, de 1926. Assim como aponta a carta de Anna, ela tem um lado formal, regimental digamos – o lado da formação profissional – e um lado pessoal, subjetivo – o amor pela verdade – que Lacan põe na mesa com a questão da autorização, através de uma de suas famosas frases de efeito: ‘o analista só se autoriza de si mesmo’. A IPA, fundada por Freud, e as Escolas, fundadas por Lacan, tinham justamente a finalidade de regrar o lado formal e dar espaço e voz ao lado pessoal. Assim, considerando as demandas pessoais feitas ao candidato e as exigências formais para sua formação, tornar-se analista não é assunto corriqueiro ou trivial. Demanda esforço, dedicação e muito tempo, um tempo incontável, pois, rigorosamente falando, a formação é permanente. Nela não há ponto final.
Mas, infelizmente, isso faz parte do passado. Hoje estamos muito longe das questões levantadas por esse debate, não no sentido de que elas se tornaram saber comum partilhado pela comunidade analítica; pelo contrário, no sentido de que elas foram postas de lado, excluídas das preocupações relativas à formação. Ao menos no meio em que tenho vivido nesses anos de lida com a psicanálise. Por essa razão decidi partilhar minhas reflexões a respeito.
Como era a formação idealizada por Freud? Anna refere-se em sua carta aos “requerimentos feitos aos candidatos à psicanálise nos institutos”. Esses requerimentos consistem no famoso tripé freudiano da formação. Os três apoios do banquinho do analista: a análise pessoal, a supervisão e a formação teórica.
A análise pessoal é o aspecto fundamental da formação, a condição sine qua non. É nela que se produz o saber sobre a verdade do sujeito e é dela que emana a convicção de que falar cura. É nela que se ancora o amor pela verdade referido por Anna Freud em sua carta. Se a análise pessoal é absolutamente necessária para a formação do analista, ela não é, no entanto, suficiente. Fornece o essencial, a certeza subjetiva da experiência do inconsciente, mas permanece no terreno do estrito particular. Para que possa haver algum tipo de transmissão desse saber subjetivo depositado por uma análise, é necessária sua articulação teórica.
Aqui entra o segundo pé do banquinho, o saber teórico ou científico. Sabemos que para Freud a psicanálise estava situada no campo da ciência e todo o seu esforço de formalização (a metapsicologia) atesta isso. Trata-se de articular o saber subjetivo da primeira pessoa obtido na clínica com o saber objetivo em terceira pessoa da investigação científica. Isto não pode ser feito sem o recurso ao conhecimento produzido em outros campos da investigação científica. As palavras de Anna em sua carta ecoam as de Freud nesse texto: “… juntamente com a psicologia profunda, que continua sempre como a principal disciplina, haveria uma introdução à biologia, o máximo possível de ciência da vida sexual e familiarização com a sintomatologia da psiquiatria … a história da civilização, a mitologia, a psicologia da religião e a ciência da literatura. A menos que esteja bem familiarizado com essas matérias, um analista nada pode fazer de uma grande massa de seu material.” (Ed. Standard Brasileira, vol. XX, pág. 278)
Além da experiência subjetiva e do saber teórico, a psicanálise também é uma prática clínica. É o aspecto que Freud chamava de psicanálise médica. Para a formação do analista clínico esse aspecto é explorado na supervisão, o terceiro pé do banquinho. A psicanálise, enquanto prática clínica, supõe uma escuta particular que visa a tradução do inconsciente e a rememoração de lembranças reprimidas, o que exige do praticante um saber fazer que diz respeito ao particular de cada caso, levando em conta as nuances da transferência.
Vale lembrar que analista para Freud tem uma acepção bem mais ampla que a de praticante clínico. Em A questão da análise leiga cita os analistas didatas, aqueles representantes das várias ciências mentais que querem aplicar a psicanálise a seus campos de estudo. E também os analistas educacionais ou educadores analíticos que querem aplicar a psicanálise às práticas educativas. Esses também devem submeter-se ao triângulo da formação. “Se os representantes das várias ciências mentais devem estudar a psicanálise a fim de ser capazes de aplicar seus métodos e ângulos de abordagem ao seu próprio material, não lhes será suficiente parar de repente nos achados que são formulados pela literatura analítica. Eles devem aprender a análise da única maneira possível – submetendo-se eles próprios a uma análise.” (Ed. Standard Brasileira, vol. XX, pág. 281).
Essas são as três dimensões da formação. Uma não pode subsistir sem a outra e nenhuma pode ser excluída em favor de outra. Para Freud: “… ninguém deve praticar a análise se não tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma formação específica”, independentemente da origem ou qualificação profissional do interessado.
O que é feito desse tripé formativo hoje? Como ele é praticado? É disso que vamos tratar na parte II.