O CISCO E A TRAVE

Os homens não são exatamente as criaturas mais honestas consigo próprias. Seguramente, se perguntarmos a qualquer um quem é a pessoa mais honesta que ele conheçe, muito provavelmente apontará para si próprio. No entanto, basta escutar o que essa pessoa diz de si e observar a forma como ela age para constatar que, ou ela está deliberadamente mentindo sobre si própria, ou ela não tem a menor idéia de que ela não é aquilo que ela pensa que é.

Lembro-me de como me defrontei pela primeira vez com essa constatação. Não lembro que idade tinha, talvez estivesse na puberdade ou começo da adolescência. Seguindo a tradição familiar, aos domingos todos colocávamos nossas melhores roupas e íamos à missa. Era uma cidade do interior e a missa dominical era o grande acontecimento social da semana. Lá eu via as pessoas jurarem amar o próximo, praticar a caridade, acolher os pecadores, não atirar a primeira pedra, e assim por diante. Pediam a ajuda da graça de Deus para praticar tudo isso. Me pareciam sinceramente imbuídas das melhores intenções. Acabava a missa e todos voltavam para suas vidas. E eu me espantava ao ver essas mesmas pessoas que juraram amar ao próximo se tornarem cruéis, criticando e menosprezando seus semelhantes impiedosamente. Atiravam não só a primeira pedra, mas a pedreira inteira. Eu ficava olhando aquilo e pensando: o que acontece com as pessoas? Elas não percebem que seu comportamento é francamente contraditório com as crenças que professam? Será que elas são intelectualmente deficitárias que não conseguem fazer as relações entre o que fazem e o que crêem? Por que aquilo que elas fazem não interfere naquilo que elas acreditam e vice-versa?

Além de me fazer desacreditar em manuais de auto-ajuda e em profissão de bons princípios, essa questão me acompanha desde então. Hoje vejo que meu espanto de adolescente é parente do espanto que tive ao descobrir que estamos girando, porque a Terra está girando. O problema é que nossos sentidos nos garantem que estamos parados. A certeza tão evidente que eles nos dão nos faz pensar que supor que estamos girando é uma doidice de nossa imaginação. Mas não é, nós estamos girando, imperceptivelmente nos movimentando junto com a Terra e todo o universo.

Há muito os filósofos têm questionado as certezas que advém de nossa percepção. A origem mesma do empreendimento filosófico e científico ocidental está na prática metódica da dúvida. Mas nosso senso comum não é nada filosófico, ele constrói suas teorias inteiramente baseado na experiência perceptiva. Todos nós temos um senso comum, ou seja, uma teoria compartilhada do mundo com a qual navegamos no mundo e nos entendemos com nossos semelhantes. Essa teoria abriga a grosso modo três partes: a primeira, referente ao mundo, que nos explica como ele é e como devemos agir nele; a segunda, referente aos outros, como são nossos semelhantes, como entendê-los e como agir com eles; e a terceira e mais importante, referente a nós próprios, quem somos e o que queremos.

Essa última é a parte mais importante porque sem um “eu” separado e independente do mundo e dos outros eu não existiria. Mas só me é possível enxergar o mundo e os outros a partir de “eu”. Estamos todos confinados em nossa experiência subjetiva. O mundo que tomamos por real é o mundo que nós percebemos mas não podemos saber se o mundo é assim mesmo como nós o percebemos. Supomos que alguém nos ama, ou odeia, ou admira, ou despreza. Conhecemos esses sentimentos porque nós próprios os experimentamos. Não podemos entrar no corpo do outro para saber se ele nos ama, se é amor aquilo que ele sente por nós. Na verdade nós inferimos isso a partir de seu comportamento. Como nós só podemos experimentar nossa própria vivência subjetiva, para supor que o outro tem os mesmos sentimentos que nós, observamos o que ele faz e o que ele diz. E usamos o conhecimento que obtemos de nossa experiência subjetiva para dar sentido ao que vemos e ouvimos.

Ocorre que muitas vezes o que vemos não coincide com o que ouvimos. Como no exemplo que evoquei acima, ouvimos as pessoas jurando amar o próximo e as vemos menosprezar o próximo. Como nós sabemos por experiência que amar e menosprezar não são o mesmo sentimento, pensamos que a pessoa é desonesta com relação ao que diz. E aí buscamos explicações para essa dualidade contraditória que vemos. E essas explicações podem ser muitas. Mas não vou me delongar sobre isso, pois quero apenas salientar um fato extraordinário a esse respeito. Nós vemos muito facilmente nos outros essa desonestidade, jamais em nós mesmos. Nunca aplicamos a nós mesmos os mesmos critérios que aplicamos aos outros.

  • “Mas você disse que amava o próximo e o tratou como um animal!”
  • “Não, você não está compreendendo bem.” “Você percebeu mal.” “Eu não tinha essa intenção.” “Foi um mal entendido.” etc… etc… etc…

É aquele antigo dito: Por que apontas o cisco no olho de teu irmão se não vês a trave que tens no teu?

Mantidas as devidas proporções, isso corresponde, no exemplo da Terra girando, por um lado ao saber que a Terra gira e, por outro, ao meu sentimento subjetivo de estar parado. Os outros podem ser desonestos. Eu nunca me vejo desonesto.

Afinal, se nós construímos o mundo externo a partir de nosso próprio eu, o resultado é que construímos o nosso mundo, a realidade na qual vivemos, que certamente tem laços com o mundo externo, mas que não coincide com ele. Trata-se, para cada um, de um mundo privado no centro do qual, entronados na cadeira real, estamos nós e nossas crenças fundamentais. E a mais importante e fundamental de todas essas crenças é a que diz respeito a nós mesmos. Lá nós continuamos sendo Sua Majestade, o Bebê.

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