ONDE HÁ IGUALDADE NÃO EXISTE AUTORIDADE

Semana passada ao visitar uma escola, encontrei-me no silêncio e na harmonia de uma aula de violino. Alguns alunos estavam aprendendo como lidar com o instrumento ao mesmo tempo em que o professor gesticulava silentemente aprovando os movimentos do arco que tocava as cordas da infância. Mas, durante a apresentação, um aluno abriu a porta como uma tempestade, arrastando seu material pela escadaria até o palco. O estrepitar da mala retumbando nos degraus; ecoava o desafino oblíquo de uma educação sem limites. Pedi para que fechasse a porta, mas ele não quis ouvir-me. Interrompeu a apresentação com perguntas desnecessárias e somente após alguns minutos o professor, muito gentilmente pediu com medidas de favor: “Você poderia ter fechado a porta!”. Certamente aquelas palavras se perderam nos labirintos daquele aluno que possivelmente arrastara também de casa a sua surdez. Esta cena retrata a tentativa de pais e professores “modernos” conduzirem seus filhos e alunos, com uma espécie de igualdade incondicional. O fato é que em nome dos ideais da modernidade nossa educação vai de mal a pior. Abaixo, escrevi um breve ensaio para pais e professores, em que gostaria muito, pudesse servir como notas musicais que neles despertassem a arte da autoridade. Vejamos.

Nem tudo que é moderno é bom. No entanto a escola e a família tendem a aceitar o que a mídia e o senso comum adotam como critérios para uma educação “moderna”. Atualmente, o discurso de que tudo deve ser decidido “democraticamente”, de igual para igual, produziu algumas distorções no campo das relações pais e filhos, em especial, sobre a figura paterna. Na Europa e Estados Unidos, só para citar dois exemplos, a noção de igualdade ordena-se pela seguinte lógica: Todas as crianças são iguais entre elas e todos os adultos são iguais entre eles. No entanto a categoria filhos e a categoria pais são diferentes, pois não pertencem ao mesmo universo de igualdade. No Brasil, há quem diga que os pais de hoje são a última geração de filhos que obedecem aos pais e a primeira geração de pais que obedecem aos filhos. A abertura democrática, o avanço da mulher no mercado e a noção de igualdade sociologizaram a família esgotando-lhe um pouco da afetividade e preenchendo-a com uma cota de racionalidade e juricidade. Famílias modernas adquiriram mais direitos do que afetos e mais ideologias que relacionamento e se impôs equivocadamente a noção de que crianças e adultos são iguais, como forma de abolir o autoritarismo dos pais. A noção de autoritarismo está confundida com a noção de autoridade. O autoritarismo advém historicamente do patriarcado coronelista. Um modelo de família em que o pai mandava, sem racionalidade ou afetividade e a esposa e filhos obedeciam. Este modelo vem se dissolvendo desde o século passado, por isto a busca de um novo modelo que não fique apenas sob a tutela do pai e nem uma família que fique sob a tutela do Estado que,com a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente, promove formas burocráticas de interação pais e filhos. No entanto, educação não se faz por leis, por racionalidade e muito menos por ideologias sociologizantes. Educação se faz com a firmeza da palavra e com o exemplo dos pais. As crianças estão perdendo o discernimento de onde termina o eu, onde começa o outro, já que a noção de autoridade está esfacelada num Brasil cujos políticos são autorirtários, mas não possuem “autoridade simbólica” para governar. Num Brasil onde crianças e adultos estão a cada dia ficando mais iguais. Elas, mais adultecidas e eles cada vez mais infantilizados. Pais adultescentes que não conseguem crescer. Sem diferença, não haveria vida psíquica. A autoridade, é o corte, a fronteira que marca o limite de onde termina o eu, onde começa o outro. A criança precisa perceber que existe algo que fala acima dela e que é superior á ela. O símbolo paterno/materno deve fazer o seguinte corte: “ você não pode fazer tudo quer”. No início da vida a mãe tem a função primordial de acolher o bebê, dando-lhe proteção e afeto. Mais tarde, ele descobre que a mãe não é tudo. Esta deixa de ser a fonte única das identificações da criança. Caberá ao pai, descolar o filho da mãe, colocando-se entre os dois, para inaugurar a árdua tarefa desta criança em lidar daqui para frente, com a presença do que é diferente da mãe. O enfraquecimento da “autoridade simbólica” do pai tem produzido, especificamente nos adolescentes do sexo masculino, a falta do reconhecimento da existência do outro, a favor da satisfação do eu. Se no passado, as relações entre pais e filhos estiveram demasiadamente verticalizadas, hoje elas estão equivocadamente horizontalizadas. Os pais estão perdendo a capacidade de imprimir sentido e significado na vida dos filhos, pois, temem se apresentar como uma geração que veio antes e que está acima deles. As leis psíquicas de reconhecimento da existência do outro se instauram pela diferença e não pela igualdade, pois o que é igual, não tem autoridade!

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