A REVOLTA DOS CAMARÕES

APRESENTAÇÃO

Há 29 anos A REVOLTA DOS CAMARÕES era publicada pela Fundação Cultural de Curitiba como prêmio pela menção honrosa recebida pela participação no Concurso de Literatura Infantil de 1984 promovido por esta instituição.

Reescrevo aqui o último parágrafo escrito na página reservada à apresentação da autora:

“Desejo que as palavras que aí se seguem sejam capazes não só de desenhar sorrisos nos lábios, como também de despertar um senso crítico em meio à fantasia nas cabecinhas dessas crianças – que alegria! – meus primeiros leitores.”

Tanto tempo se passou, aquelas crianças se tornaram jovens adultas e agora minhas amadas netinhas são as ouvintes das minhas estórias. Por que, então, relembrar neste momento as peripécias de seres marinhos de um reino tão distante e tão pueril? Pela triste constatação de que a ganância pelo poder, o espírito egoísta e explorador, a falta de comprometimento com o outro e com a comunidade, não se restringem a mundos fantasiosos e distantes nem tampouco se transformam com a simples passagem do tempo. São traços muito mais humanos do que gostaríamos e requerem espíritos nobres e corajosos para que este ciclo de repetição vicioso e pernicioso se quebre.

Meu desejo, com o resgate desta simples estória do fundo do meu baú, é de despertar o senso crítico latente e pulsante nos jovens e adultos de todas as idades que se sentem, assim como eu, indignados com os vícios humanos que nos prendem à estagnação e à repetição, mesmo que disfarçados de sedutoras promessas de mudança!

Vanessa Thá

A REVOLTA DOS CAMARÕES

I

Peixe-rei era, de coroa e de fato, o rei daquele reino que ficava no fundo do mar. Mas quem adorava dar ordens, com ar de superioridade, era a rainha-tainha. Sempre que surgia algum problema, ela acabava dando a solução. Dizem as más línguas que lá o peixe-galo cantava fino.

Indiferente a tudo, vivia a princesa pescadinha. Passava horas em frente ao espelho para se enfeitar. Sonhava com um príncipe-encantado – por certo um pescado. Viria busca-la num moderno submarino ou, como contavam as avós, montado num fogoso cavalo-marinho? – Ah, suspirava, o que fazer senão esperar!

Braço-direito do rei sempre foi o peixe-dourado. Grande amigo, peixe da maior confiança.

Há anos que o polvo trabalhava como seu secretário oficial. Afinal, quem melhor do que ele para escrever várias cartas ao mesmo tempo com suas oito ágeis mãos?

As finanças ficavam por conta das ostras. Elas fabricavam as pérolas – moeda corrente do reino.

Os peixes nobres levavam uma vida feliz, cheia de luxo, prazeres e conforto. Peixes da melhor qualidade, eram muito cobiçados pelos pescadores por sua carne fina e saborosa.

O povo – camarões sete-barbas, peixes de segunda classe e demais seres marinhos – vivia apenas para o trabalho. Nada recebia em troca – apenas restos de comida, que sobravam dos banquetes.

Não tinham direito a pérolas.

Não tinham direito a diversão.

Não tinham direito à palavra.

Certo dia, o peixe-dourado, num de seus passeios diários, fez uma importante descoberta – encontrou partes de uma canoa naufragada. No meio dos destroços, havia uma rede muito grande. – Então a canoa era de pescadores, concluiu ele.

Conhecendo bem a tristeza do povo e desejando ser ele o rei, dourado apressou-se em convocar uma reunião secreta. Seria à meia-noite, quando o palácio todo estaria ocupado em cantar, dançar, rir e beber.

– Esta é a nossa chance, disse ele. Com a ajuda desta rede, poderemos mudar o rumo de nossas vidas.

– Isto mesmo! Estou farto desse rei, gordo e fanfarrão, que quer apenas boa vida, reclamou o baiacu. Estufava o peito de tão bravo. Parecia uma bexiga a ponto de estourar.

– Festas e mais festas, todas as noites, fofocou a betara – morta de inveja. Já soube que as mais lindas sereias são contratadas para cantar e dançar para os convidados. Tudo isso porque a rainha-tainha, além de mandona, é vaidosa também. Faz questão de sair nas colunas sociais.

– Que desperdício de comida e bebida, lembrou o peixe-sapo. Guloso como ele só, sonhava em ser convidado apenas para comer até não poder mais.

– Se, ao menos, a rainha não desperdiçasse tanto as pérolas dos cofres públicos em luxo e festas, disse a aranha-do-mar.

– Se, ao menos, o rei deixasse de passar todas as tardes jogando cartas e se ocupasse mais em reinar, comentou o peixe-voador.

– Se, ao menos, a princesa despertasse do seu mundo de sonhos e olhasse para o mundo real, suspirou a estrela-do-mar.

– Muito bem. Estamos todos de acordo que assim não dá mais para continuar. Somos muitos, temos força, coragem e inteligência, disse dourado, tentando retomar a presidência da reunião.

Só ruivo-marinho parecia ser do contra. Muito arisco, andava sozinho pra lá e pra cá sobre o fundo de areia – seus raios lhe serviam de pés. Completamente vestido de vermelho, mais parecia um diabo coberto por terríveis espinhos.

– Isso não vai dar certo, não vai – repetia ele para suas escamas. É melhor ficar tudo como está.

Mas a manta, tão divertida quanto gigante, não deixou por menos:

– Seu cabeçudo! Pare de agourar e junte-se a nós! A vida pode ser boa e bela. Para isso, basta mudar.

Brincalhona e bem humorada, ela tinha o costume de tomar banho de sol nas horas de muito calor. Ficava um tempão se aquecendo, meio adormecida, com sua enorme boca bem aberta. De vez em quando, dava grandes saltos fora d’água provocando um barulhão entre montanhas de espuma.

– Que vença a maioria, gritou pintado, o mais velho e experiente dos peixes.

Muitos aplausos depois, puseram-se todos a pensar.

Traçaram, por fim, um bom plano e prepararam-se para o ataque.

II

E assim …

Peixes e camarões grandes e pequenos, jovens e velhos, doentes e saudáveis, juntos seguraram aquela imensa malha e nadaram, silenciosamente, em direção ao castelo. Peixe-lanterna e peixe-vela seguiam na frente para iluminar o caminho.

Enquanto isso …

Peixes finos – linguados, rodovalhos, robalos, salgos, mangagás e badejos – de fraque e cartola.

Damas – merluzas, tainhas e pescadas – com lindos vestidos e jóias preciosas.

A mais alta linhagem costumava desfilar pelos ricos salões do palácio.

Todos se divertiam despreocupados. Camarões-pistola e peixes-espada formavam a guarda real e os protegiam dos perigos. Num grande círculo em volta do reino, eles alertavam os menos avisados quando encontravam alguma isca de pescador. Ao menor ruído de canoa, barco ou navio, davam o sinal de alarme. Todos se refugiavam em suas casas. Assim faziam desde que, certa vez, uma rede de arrastão levou embora uma porção deles. Por ser uma tarefa de importância e bravura, os guardas eram bem pagos e respeitados. Rara vez acontecia de algum peixe daquela região servir de refeição.

A ideia de como despistar a guarda foi do bagre de peito amarelo. Ele mesmo abocanhou um pedaço de canoa, nadou quase até a superfície e de lá soltou a peça, exatamente na direção dos peixes-espada. Estes, ocupados em descobrir o que era aquilo, nem perceberam quando se deu a invasão.

Como foi fácil aprisionar o rei fanfarrão, a rainha vaidosa, a princesa sonhadora e os convidados festeiros. Debateram-se, um pouco, na tentativa de escapar, mas logo desistiram.

III

No dia seguinte, quando os primeiros raios de sol iluminaram a água limpa e azul, começou uma grande festa. O novo rei, feliz como nunca, subiu ao trono. Por ser de grande porte e ter escamas da linda cor de ouro, dourado achava que a coroa real assentava muito bem em sua cabeça.

A alegria era geral. Todos comentavam sobre seus planos, novas ideias, desejos de mudança.

– Vamos provar que nós, tartarugas-do-mar, merecemos admiração e respeito. Não somos lerdas feito nossas colegas de terra. Fazemos inveja a qualquer nadador com nossa velocidade de até 32 km por hora!

– E o que dizem de nós, os camarões? Que somos traidores e que só servimos de isca para pescadores. O que pensam que temos na cabeça?

– Chega de problemas pessoais, disse o atum. Eu proponho melhorar a situação das nossas casas populares. Enquanto os privilegiados moram em palacetes, nós, pobres, temos que nos espremer qual sardinhas em lata.

Atum azul – tipo solitário – não gostava da vizinhança com outros peixes, a não ser em época de acasalamento. Já o arenque, brilhante e prateado, detestava a solidão. Fazia suas evoluções na água, com rapidez e suavidade, procurando sempre companhia para conversar. Era um dos mais faladores e ruidosos entre os presentes.

A corvina, muito tranquila e pacífica, pedia silêncio a cada instante, tentando organizar a festa.

– Vocês falam, falam, mas não querem nada com o trabalho, reclamaram o peixe-martelo e o peixe-serra. Na hora da dureza, sempre acaba sobrando para nós.

As cavalas já preferiam fofocar entre si:

– Nossa carne não é tão fina e saborosa quanto a dos outros, aqueles esnobes. Mas nem por isso valemos menos do que eles. Sorte a nossa, afinal quem quer ser servido com farofas e batatas num jantar?

A festa continuou noite adentro.

Os peixes conversando – a vida daquele reino prometia mesmo mudar.

As lagostas andando em marcha-ré.

Os filhotes de caranguejo cantando sua canção preferida:

“Caranguejo não é peixe

Caranguejo peixe é

Caranguejo só é peixe

Na enchente da maré.”

As colônias de esponjas, com suas cores vivas, embelezando o lugar.

Muitas conchas, algas e corais.

Ouriços que mais pareciam bolas peludas.

Peixes-borboleta nadando sobre um canteiro de flores do mar.

IV

O tempo foi passando.

Poucos eram os peixes e camarões que frequentavam o palácio.

Dourado revelou ser um bom jogador de cartas, tal qual peixe-rei. As betaras passaram a dar festas e mais festas. Enfeitavam-se, umas mais do que as outras, disputando um lugar nas colunas sociais. Peixe-sapo realizou seu velho sonho – engordou uns bons quilos de tanto banquetear.

Nada mudou para os camarões-pistola e peixes-espada. Ainda faziam parte da guarda real. Afinal, tão bem dotados pela natureza … O polvo, já velhinho, continuava como secretário oficial.

Para a maioria, nada restava além do trabalho – peixe-martelo e peixe-serra que o digam. A manta tornou-se triste e saudosa. Não tinha mais tempo para tomar banhos de sol nem praticar saltos olímpicos. As cavalas viviam sobressaltadas. Alguns pescadores descobriram que sua carne era muito saborosa também. Trágico fim teve o baiacu. Estourou de raiva e desilusão ao saber que a rainha-senhorita gastava todo o dinheiro do povo em besteiras. As casas populares continuavam pequenas e caras, para tristeza do atum azul.

– Faltam verbas, explicava ídolo-mouro, braço direito do rei. Peixe amigo, da maior confiança. Com seus riscos pretos sobre o corpo branco, bem sabia da sua beleza. Todos os seus movimentos eram cheios de graça e majestade. Mais do que nadar, flutuava, abandonando-se às ligeiras correntes de água. Elegante, vaidoso do seu penacho enfeitado.

Tudo parecia bem até o dia em que ídolo-mouro, num de seus passeios diários, fez uma importante descoberta – encontrou partes de uma canoa naufragada.

FAZ DE CONTA QUE É VERDADE

Um tio de quem gosto muito, e que foi um dos pioneiros na atividade de marketing (embora naquela época isso se chamava ‘propaganda’) na terra dos pinheirais, um belo dia me disse de maneira muito enfática: “Eu não suporto ver televisão hoje em dia. As propagandas, … é tudo mentira. Tudo pela metade do preço: mentira; o carro mais moderno: mentira; o banco que faz mais por você: mentira; tudo mentira.

Outro tio, de quem gosto muito também, contou-me a seguinte ousadia, que ele se deu ao luxo de cometer, como um desabafo, do alto de seus, digamos, cinquenta anos de experiência no mesmo tipo de atividade, um misto de administrativa e educacional. Como de hábito nas empresas brasileiras contemporâneas, os funcionários mais graduados passaram um fim de semana em um hotel retirado elaborando aqueles planejamentos que nunca saem do papel. Entre os itens a serem produzidos estava a missão da empresa. Como trata-se de uma empresa educacional, obviamente a missão estava recheada de afirmações cheias de respeito aos clientes. Coisas como: “respeitar a dignidade das pessoas favorecendo o seu desenvolvimento como cidadão livre”, e assim por diante. Logo cartazes com o texto da missão da empresa estavam espalhados por todo canto, inclusive na sala do diretor. Ocorreu que algum tempo depois disso um novo diretor veio assumir a condução da empresa. Quando meu tio foi recebido em sua sala apontou para o cartaz com a missão e disse: “O senhor está vendo o que está escrito ali? Tudo mentira”.

As situações descritas nas anedotas acima são extremamente comuns. Perturbadoramente comuns. Quem de nós já não passou por situações desse tipo? Por exemplo, ler no site de uma empresa de serviços que seu primeiro compromisso é com a satisfação do cliente para descobrir, depois de contratado o serviço, que esta é a última preocupação da empresa, se é que é preocupação. Ou escutar de um atendente ao telefone: “vou verificar e já retorno a ligação” … e nunca retorna.

Há um suposto básico na comunicação humana de que o que dizemos corresponde à verdade do que acreditamos ser um estado de coisas. Imaginem o que seria do mundo se o ônibus que diz que vai para tal bairro não fosse para este bairro. Ou se não acreditássemos no amigo que diz que tal hora estará em tal lugar. Não só supomos que o que os outros dizem corresponde à verdade do que eles acreditam como acreditamos que o que nós dizemos corresponde à verdade do que acreditamos. Evidentemente não se trata da verdade de fato, mas do que acreditamos ser verdade.

O respeitado linguista inglês Paul Grice, lá pelos anos 60, pensando a respeito da produção de sentido na comunicação humana, estabeleceu o princípio da cooperação, um conjunto de normas implícitas que governam as interações entre os seres humanos. Essas normas na teoria griceana são formuladas como quatro máximas conversacionais e uma delas, a máxima da qualidade, diz justamente respeito à verdade implicada nas trocas cooperativas. Ela diz: ‘procure que sua contribuição conversacional seja o mais verdadeira possível. Não afirme o que você acredita ser falso e não afirme nada de que você não tenha evidências adequadas para acreditar em sua veracidade’.

Será que as máximas de Grice já não valem mais hoje em dia, já estão superadas pela sociedade moderna? Evidentemente que não é o caso. Acreditar que o que digo é verdadeiro e acreditar que o outro está sinceramente me dizendo a verdade do que acredita é a cola que mantém o pouco de união que os homens conseguem para viver em sociedade. É claro que os homens não são esses anjinhos e sabemos que nós não somos exatamente verdadeiros conosco próprios. Mas em certo nível de convívio social nos obrigamos a ser verdadeiros. Tomemos como exemplo a desorganização da relação que ocorre quando há uma desconfiança da desobediência desse princípio em um casal, onde há dúvidas quanto à fidelidade do parceiro.

Mas para o mercado esse suposto parece já estar superado. Não é mais questão de ser verdadeiro, mas de conquistar o cliente. Encantar o cliente é a palavra de ordem que costuma-se ouvir nos treinamentos empresariais. Para vender vale tudo, seja lá o que se estiver vendendo: apartamentos, diplomas, salsichas, carros, votos. Mas há algo muito perverso nisso, pois, para conquistar o cliente, tem-se que dar a impressão de ser verdadeiro. O suposto continua, não como um imperativo ao qual devemos nos submeter e que constrange e restringe a comunicação, mas ele é utilizado para convencer. E aí ele vira um faz de conta. Faço de conta que isso é verdade, embora saiba que não é. Será que quem anuncia acredita que é? Será que quem escuta acredita que é? Será que as pessoas se tornaram tão crédulas e ingênuas a ponto de acreditar que comprando tal apartamento estão comprando a felicidade, ou que comendo tal hambúrguer estão comendo o melhor hambúrguer do mundo?

Aqui reencontramos a velha e conhecida característica do ser humano de abrigar vários sistemas de crença diferentes, até contraditórios, sem que um interfira no outro. Num dos mais importantes desses sistemas – nossa vida de fantasia – nós continuamos acreditando em Papai Noel, embora em outro desses sistemas (que anda meio desprestigiado ultimamente) nós saibamos que ele é fruto da imaginação e uma projeção de nossos desejos. Não tem um Papai Noel escondido naquela latinha de cerveja que promete o assédio das mulheres mais bonitas do pedaço, ou naquele sapato capaz de transformar a usuária numa dessas mulheres de incomparável elegância, ou naquele carro que promete encher seu dono de potência e adrenalina, ou naquele frasco de desodorante que transformará seu usuário num homem fatal, e assim por diante.

Em outros posts desse blog falamos dessa nossa vida de fantasia mostrando como ela encontra uma “realidade” no mundo virtual. Mas é para ela que esses modernos sacerdotes do mercado, os marketeiros, falam. Atualmente tudo se faz com marketing. Desde vender margarina, divulgar os efeitos benéficos de tal ou tal alimento, vender bens materiais, divulgar pseudo descobertas científicas, encher os bancos das igrejas a eleger políticos. Não é casual que a primeira reunião de um famoso político depois das manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil em meados do ano passado foi com o marketeiro do partido. “Nós vendemos sonhos” me disse uma vez um corretor de imóveis.

Quando as pessoas consomem, elas consomem sonhos. Quando elas compram, compram sonhos. Enquanto eles duram, tudo parece se encher de esperança e encantamento. Mas a vida, no mundo real, continua a mesma. E é com ela que nós temos que nos ver. Quando nos perdemos e somos surpreendidos pela noite, podemos cantar alto no escuro para negar nossos próprios temores. Mas continuaremos não enxergando um palmo diante no nariz.