O MÁGICO NÚMERO SETE

Não, não se assustem. Apesar do termo mágico esse título não pretende evocar nada de místico, oculto ou transcendental. Simplesmente empresta o nome de um artigo científico de George A. Miller que propõe a asserção de que a capacidade da memória humana de curto prazo limita-se a aproximadamente sete itens a cada vez. Há sete lugares ali, se entra um novo item, outro tem que sair. Evoquei esse trabalho em função do resultado do jogo da semifinal da copa do mundo de 2014 entre Brasil e Alemanha. E deixo aqui meu agradecimento aos alemães por terem me animado a compartilhar algumas reflexões, um pouco dispersas e prematuras, que exponho a seguir. E isso é tudo quanto ao número sete. Na verdade só evoquei o artigo de George Miller para poder tomar emprestado seu título.

Já faz alguns anos que fico um pouco inquieto na época da copa do mundo. É perfeitamente compreensível e natural que um esporte como o futebol, um dos mais populares do planeta, envolva as pessoas numa torcida emocionada e frenética pelo seu time. Afinal, é uma competição cujo objetivo é ganhar, o que implica a derrota do adversário e a supremacia sobre o rival. Há uma característica muito humana nessas pequenas batalhas esportivas e as pessoas são pegas por elas em algo que habita o mais íntimo de seu ser. Não só porque a vida é em si própria uma batalha onde há que lutar para sobreviver. Isso o homem compartilha com os animais. Na batalha humana há algo a mais, há o outro, o companheiro, o rival e uma satisfação indizível que envolve o corpo todo, o coração, os poros, os músculos, o grito. A explosão motora na vitória ou a introspecção angustiada na derrota. A história humana é feita disso, da perene luta pela sobrevivência, não exatamente da vida, mas do eu, do nós, do meu (nosso) orgulho, das minhas (nossas) crenças, da minha (nossa) identidade, da minha (nossa) supremacia. Tudo isso entra em campo num jogo. Não como algo distante, como assistir a um espetáculo que está lá fora, longe de mim. Não, é o ser todo, de corpo e alma, que entra em campo. Os torcedores estão encarnados no camisa 10 que dispara, driblando os adversários e levando a bola em direção ao gol. Não é difícil observar isso, basta olhar a torcida nesses momentos cruciais. Freud teoriza isso magistralmente em seu livro Psicologia das massas e análise do eu ao mostrar que há uma identificação de todos os membros da massa a um mesmo eu. O eu individual desaparece para dar lugar a um eu coletivo.

Isso é natural, uma característica típica das massas humanas. Não há nada nisso que inquiete além do esperado. Em todos os países do mundo em que o futebol é um esporte que desperta grandes massas (isso não é privilégio do futebol mas dos esportes de competição em geral) há grande envolvimento das torcidas e grandes paixões são encenadas. Mas no Brasil,  especificamente no que diz respeito à copa do mundo, convenhamos, há um excesso. Excesso de bandeiras, excesso de verde e amarelo, excesso de feriados, excesso de notícias, excesso de propaganda. Há um clima de ufanismo que não se vê em outros momentos. O povo torna-se patriota, apregoa aos quatro ventos sua paixão pela pátria amada, desfralda seu orgulho de ser brasileiro. O Brasil torna-se literalmente a pátria de chuteiras, como disse Nelson Rodrigues. O Brasil de chuteiras eleva-se, no imaginário nacional, ao topo de todas nações. Nenhuma supera o Brasil, nenhuma tem jogadores tão talentosos, ginga tão fascinante, equipe tão insuperável. Nada é mais glorioso no mundo que o gingado brasileiro. E esse país de chuteiras não apenas vence, mas humilha seus adversários, os outros países, colocando-os em seu devido lugar.

Mas nem sempre houve esse excesso. Ele veio crescendo de uns tempos para cá. Não é aqui o lugar de teorizar sobre isso e nem me considero competente para tal. Mas nessa “copa das copas” (por falar em exagero e ufanismo…) há algo que ficou muito evidente e creio que vale a pena sublinhar. Durante a copa o noticiário sobre ela ocupou em torno de 90% do tempo dos noticiários nas grandes redes de TV. Mas esse número conta apenas o tempo de noticiário. Se contarmos o tempo de propaganda, bem… Um verdadeiro massacre verde-amarelo. Desliga a televisão, vá para a rua respirar um pouco. Sem chance, o massacre continua. Em cada estabelecimento comercial, em prédios, em janelas, em chaminés, o verde-amarelo. Dia e noite, em todos os lugares, verde-amarelo. O que tem isso? Há por acaso algum mal em manifestar dessa forma a torcida pela seleção?

Não sei se há algum mal, mas isso não é sem consequências. Talvez seja por isso que a imprensa é chamada por alguns de quarto poder. Pesquisando a associação de idéias, na década de 80, experiências demonstraram que a exposição a uma palavra causa mudanças que podem ser mensuradas na facilidade da evocação de palavras relacionadas. Os pesquisadores expuseram os sujeitos à palavra EAT (comer em inglês) e perceberam que em seguida a maioria tendia a complementar a palavra incompleta SO_P como SOUP (sopa) e não como SOAP (sabão). Esse efeito sobre a associação de ideias é chamado de priming effect, o que quer dizer que a evocação de ideias é influenciada pelas ideias imediatamente presentes na mente. No exemplo citado, se a palavra COMER está atualmente na mente (isso não quer dizer necessariamente na consciência) as palavras relacionadas com comida (como sopa, garfo, fome, apetite, bolacha, etc…) terão acesso privilegiado e serão evocadas antes de outras não relacionadas. Mas o efeito priming não se restringe a conceitos e palavras. Nossas ações e emoções também sofrem esse efeito, sendo ‘primadas’ por eventos dos quais nem sequer temos consciência. Experimentos demonstraram que a exposição a dinheiro, seja sob a forma de palavra ou de imagens, torna as pessoas mais individualistas. Ou que lembrar as pessoas de sua própria mortalidade aumenta o apelo de ideias autoritárias que apaziguam o medo da morte.

Um resumo dessas descobertas pode ser encontrado no belíssimo livro de Daniel Kahneman intitulado Rápido e devagar: duas formas de pensar. Na página 73 ele comenta algo que nos interessa de perto sobre os efeitos do priming em larga escala: “Algumas culturas fornecem lembretes frequentes de respeito, outras, lembram seus membros frequentemente de Deus, e algumas sociedades estimulam obediência com imagens gigantes do Querido Líder. Será que pode restar ainda alguma dúvida de que os ubíquos retratos do líder nacional nas sociedades ditatoriais não só transmite a sensação de que o “Grande Irmão está Olhando” como também levam a uma redução efetiva do pensamento espontâneo e da ação independente?”

Pois bem, esse verdadeiro bombardeio verde-amarelo capitaneado pelos meios de comunicação a que assistimos em nosso país durante os tempos de copa, além de ‘primar’ a evocação de idéias patrióticas e ufanistas, acaba contribuindo para os efeitos de grupo identificados por Freud: a unificação coletiva do pensamento e a inibição do pensamento independente. Pensar diferente do grupo é uma tarefa hercúlea nessas situações. O resultado é freudiano: a dissolução da individualidade e a fusão dos eus num ideal que torna-se carrasco. Torça, vista verde-amarelo, e não poupe as crianças disso, reuna os amigos, grite, emocione-se, arda de amor pela pátria: comporte-se pois “o Grande Irmão está Olhando”.

Pois é … tudo isso até o mágico número sete!

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