PARAÍSOS VIRTUAIS

Quem tem e-mail ou circula pela internet certamente já recebeu ou viu aquele monte de ilustrações onde aparecem pessoas em situações sociais – numa mesa de restaurante, numa reunião de amigos num parque, dentro do carro, etc… – em que todas estão olhando e manipulando seus celulares ou tablets. Esses dias recebi um desses no qual as pessoas eram crianças em situações muito sugestivas, uma delas bastante simbólica: os brinquedos com expressão muito amuada indo embora enquanto a menina estava mergulhada em seu tablet, totalmente indiferente ao que acontecia a sua volta. O e-mail trazia como título: “Para onde vamos? Está certo?” Uma boa pergunta cuja resposta é incerta, embora eu ache que os brinquedos sabem muito bem para onde estão indo !!!

Mas o pior é que esses e-mails são absolutamente reais. Quem já não teve a oportunidade de presenciar – no restaurante, no parque, na praia, no café – uma situação como essa? Pessoas reunidas em torno de uma mesa e todas olhando para seu próprio umbigo, quer dizer, tablet. Assim a reação das pessoas a esses e-mails, que vai do riso à perplexidade expressa no “Para onde vamos? Está certo?”, de fato é a reação a uma situação real, a uma questão que não é momentânea ou passageira, mas envolve o que vai ser da humanidade no futuro próximo. Os brinquedos estão indo embora, e isso é muito real.

Mas em vez de tentar prever o futuro me parece mais fecundo pensar numa outra questão: por que as pessoas ficam tão fascinadas por esses aparelhinhos e são como que sugadas por eles? Será que as pessoas são pobres vítimas da tecnologia, estão sendo manipuladas pelas grandes corporações que, na verdade, só querem sugar seu dinheiro? Ou há algo dentro delas que é atraído por esses aparelhos e, como pseudópodos de uma ameba, integra esses dispositivos a seu próprio corpo, a ponto deles se tornarem um apêndice inseparável?

Para responder à segunda pergunta, já que a primeira deve ser abandonada pois incide na ‘falácia da esquerda’, devemos olhar para dentro desses aparelhinhos. O que é que tem lá? Um mundo, um mundo inteiro. Um mundo virtual, mas que nem por isso deixa de ter muita, muita realidade.

Ocorre que o mundo real, esse mundo em que somos obrigados a viver desde que chegamos nele expulsos do “ovo” em que fomos gestados, não é exatamente o mundo dos nossos sonhos. Ou seja, não é o mundo que desejaríamos que fosse, uma vez que nos defronta com forças que, além de serem incontroláveis, são muito superiores a nós e diante das quais nos sentimos desamparados. Há que lutar e trabalhar para sobreviver num meio geralmente inóspito e fonte de dificuldades e sofrimentos. É bem verdade que o progresso da civilização tem produzido tecnologias que constituem um alívio e uma proteção contra os sofrimentos oriundos do corpo e da natureza. Basta pensar, por exemplo, no progresso dos cuidados com a saúde, das facilidades de transporte, etc… Mas há uma fonte de sofrimento, a pior de todas, que a tecnologia ainda não conseguiu resolver. Essa fonte são os outros. Não há sofrimento pior nem mais incontrolável que aquele que advém do convívio com nossos semelhantes. O inferno são os outros, dizia Sartre, naqueles velhos tempos dos anos 60 do século passado em que os jovens ainda davam bola para as angústias da existência.

Eu disse acima que a tecnologia ainda não ofereceu um remédio para esse sofrimento. Me corrijo, está oferecendo uma “solução”, que parece ter sido forjada tomando como modelo a estratégia do avestruz. Essa solução é engenhosa e ao mesmo tempo simples: um outro mundo no qual nós podemos enfiar a cabeça e nos refugiar desse inferno que é conviver com os outros. Esse outro mundo é o mundo virtual. O tablet, o celular, o computador abrem as portas para uma sociedade virtual, ou como é chamada, redes sociais, onde as relações são pasteurizadas, controladas, processadas.

Um momento, dirão! Como não há relacionamento com os outros nas redes sociais? É verdade, há relacionamento, mas um relacionamento virtual é muito diferente de um relacionamento real. E isso por diversas razões. Em primeiro lugar os contatos não são diretos, mas intermediados pelos aparelhinhos. Assim a presença do outro, que num contato real é direta, visível, carnal, sentida, torna-se imaginada. Numa conversa real, por exemplo, a simples presença do outro com quem estou me comunicando interfere no que planejo dizer. Suas reações corporais, seu olhar, tornam-se fatores permissivos ou inibitórios, regulando minha fala e minhas reações. O corpo é relevante na troca comunicativa. No mundo virtual o outro com quem me relaciono torna-se incorpóreo, distante, quase anônimo. Sem sua presença real imagino-o como apetece aos meus interesses. Sem falar no caso desse outro diluído que é o interlocutor coletivo desse grupos virtuais. Estou viajando e posto uma foto. Estou de mau humor e posto uma queixa. Acabei de ter um orgasmo e posto um UAAAUU! Encontrei uma frase de efeito e posto a pérola da sabedoria. Posto para quem? Com quem exatamente eu estou me relacionando? Quem é meu interlocutor?

Se o outro se dilui, eu incho. Esse é o segundo aspecto da diferença entre relacionamento real e virtual. Num relacionamento real eu tento desesperadamente fazer coincidir a imagem que exponho com a imagem que pretendo que o outro tenha de mim, ativando toda a vigilância que posso exercer sobre mim próprio de tal maneira que eu não me traia por palavras, atos ou expressões. O mundo virtual oferece a virtude incomparável de me proporcionar o total controle do que mostro de mim. Nas redes sociais eu posso ser o que quero aparentar ser. E sem mostrar meu corpo, ou melhor, mostrando-o na medida da imagem que desejo mostrar. São conhecidos os casos daquelas famílias que vivem se digladiando nas quais seus membros costumeiramente destilam o ódio que sentem um pelo outro em palavras e atos mas, de repente, aparecem unidos, sorridentes e angelicais numa foto postada numa rede social. Que lindo !!!!

Tem mais. O mundo virtual tem um efeito colateral magnífico. Reduz as relações reais ao mínimo necessário. Numa reunião social eu posso ficar alheio a todos que me cercam, entretido com meu mundo virtual, sem que ninguém ache isso uma ofensa ou me considerem um oligofrênico.

Do real ao virtual … do inferno ao paraíso. Não é o paraíso eu poder me relacionar somente com o espírito de meus semelhantes, purgados de todas as imperfeições?

Um comentário sobre “PARAÍSOS VIRTUAIS

  1. Parabéns Caro Fabio Tha. Creio que esteja falando de uma nova categoria , o urbanóide maquínico que ainda esta´por vir. Recentemente escrevi um ensaio sobre “O devir maquínico”. Talvez possamos dar continuidade ao tema convocando outros visitantes do Diógenes , para continuarem escrevendo sobre o maravilhoso texto que você criou. Se dermos continuidade nas escritas, não apenas criaremos uma rede de participantes, como elaboraremos um grande texto com vários autores, usando o nosso laboratório virtuaL.
    Saudações Gilberto Gnoato OBS: Em tempo. O tema que você abordou, nos estudos de “Tecnologia e Sociedade” chama-se “determinismo tecnológico|”

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