CON … SUMIDOR

Nós vivemos tempos curiosos. Desde que o homem se conhece como tal suas organizações culturais já lhe forneceram várias formas coletivas de identificação, indicando maneiras de como ele deve conceber-se, ou seja, compreender o que ele é. Acompanhando a linha do tempo constatamos que estes padrões identificatórios vão descendo gradativamente do céu para a terra, e nesta para o indivíduo. A sociedade contemporânea gira em torno da mercadoria, nome genérico para a variedade de bens que são oferecidos nesse mercado global que virou o planeta. O que sustenta a cadeia produtiva que culmina na mercadoria é seu ponto final. O homem consumidor, também chamado de cliente, o padrão ao qual todos nos identificamos.

Que quer dizer isso? Nada mais simples, consumidor é aquele que consome, isto é, come, faz as coisas sumirem dentro de si. Ora, para consumir é necessário que hajam coisas a serem consumidas. Ou seja, é necessária a oferta. Desde que  nascemos sabemos disso. Se não há oferta de leite, não há bebê consumidor. Estamos numa relação de troca: há alguém que oferta, há um objeto a ser consumido, e há alguém que consome. Esta é a relação mais básica e fundamental de toda a existência humana, a relação de troca, em alguns casos chamada de relação de amor. Ora, as relações de troca supõem a reciprocidade: alguém dá, alguém recebe e quem recebe fica obrigado a retribuir. Nas relações sociais, a reciprocidade das trocas é mediada por objetos, senão o recebedor ficaria sujeito aos caprichos do doador. O principal objeto mediador é o dinheiro.

O consumidor recebe e dá dinheiro em troca. Uma pasta de dente por uma moeda de um real. Um pirulito por uma moeda de cinquenta centavos. Mas, o que acontece quando o objeto da troca não é material, não é uma coisa concreta, mas é inefável, indefinível, como por exemplo, a felicidade, a saúde, a educação, a justiça, a atenção? Nós, consumidores, vamos numa lanchonete e a atendente está de mal humor por alguma razão desconhecida e nos atende friamente, sem aquele sorriso que esperamos. Nós ficamos amuados, pensamos, que mau humor!, e nos achamos cheios de razão de reclamar do serviço. Mas em que relação de troca nós estamos? Estamos trocando nosso dinheiro por um sanduíche ou por atenção? Ou então quando vamos num médico com dor de cabeça, e ele nos trata amavelmente, nos dá toda a atenção, mas confundido no diagnóstico receita um remédio para a barriga? Saímos felizes da vida, achando que nosso dinheiro valeu, mas, novamente, pelo que nós o trocamos? Pela atenção ou por um diagnóstico eficaz, cujo erro, nesse caso, só iríamos perceber muito tarde?

Esse é o problema do homem consumidor. Com seu dinheiro na mão e seus direitos de consumidor, ele acha que pode comprar tudo. Essa é, aliás, uma condição igualitária, pois todos, mais ou menos abonados, sentem-se da mesma forma. É mais ou menos como aquele filho mimado, o consumidor ideal, que julga que tem direito a tudo simplesmente por que é de sua essência ter direito a tudo, devendo os pais proverem seu bem estar sem questionamento. Afinal é direito da coisa mais maravilhosa do mundo ter tudo o que quer, sem limites. Essa é uma fantasia típica dos seres humanos, receber ilimitadamente sem ter que pagar por isso, receber simplesmente pelo que se é, eliminar o dar na relação de troca. Como a realidade não é nenhum pouco tolerante com as pretensões dos filhos mimados o homem consumidor adotou uma versão mais light: se não dá para receber de graça, dá para pagar muito pouco. É essa fantasia que se refugiou no homem consumidor e que as estratégias de publicidade sabem explorar tão bem. Quem já não ouviu ou ficou constrangido com aquela elocução em tom de crítica e desprezo: “Você pagou tudo isso!?!? Nossa eu comprei pela metade!!!!”

O homem consumidor está tão consumido por sua fantasia que acredita que é possível comprar bens inefáveis, impossíveis de medir, quantificar ou objetivar. Pior ainda, acredita que esses bens estão embutidos nos objetos ofertados no mercado, desde os bem pequeninos, como as pílulas, até os bem grandes, como os carrões. Um caso tão estapafúrdio quanto disseminado mostra que pretendemos trocar nosso dinheiro por … felicidade. Pílulas que prometem bem estar atolam as prateleiras das farmácias e são receitadas aos milhares pelos médicos diariamente.

Talvez o mais grave do homem consumidor é que ele julga que essa entidade superior e toda poderosa chamada de Mercado pode e deve lhe prover tudo, como a criança julgava outrora o poderio de seus pais. Acaba se comportando como aquele filhote de passarinho recém saído do ovo que fica no ninho de boca aberta esperando que o adulto lhe traga uma minhoca. Os passarinhos crescem, saem do ninho e acabam voando com suas próprias asas. Mas esse não é o caso do homem consumidor. Ele nunca sai do ninho.

Ele con … some, desaparece ali dentro com todos os seus outros pares.

Um dia ele sairá? Talvez, quando não houver mais ninho.

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