Fazer tipologia sempre foi uma tentação da razão. Afinal, nós não conseguimos viver se não colocarmos o mundo dentro de categorias, classificando todos as coisas que vemos diante de nós. Não vou resistir a essa tentação e vou também fazer classificações. O homem contemporâneo é tão curioso que classificar seus diferentes aspectos em determinados tipos gerais pode ser um agradável exercício do pensamento.
Sabemos que vivemos uma vida dupla, embora frequentemente não nos agrade saber disso. Um de nós vive como um Adão expulso do paraíso: cumprindo seus deveres, acordando cedo, suando para ganhar seu dinheirinho, aguentando chefes irritados, parceiros queixosos, etc… etc… etc… Outro de nós continua vivendo no paraíso em sua fantasia, o que não quer absolutamente dizer que essa vida não seja real, ela é tão real como a outra, para muitos a verdadeira vida. Essas fantasias tem muitas maneiras sutis de inserirem-se na vida concreta. Nossa sociedade atual, dominada pelo consumo e pela escandalosa oferta de bens, tornou-se especialista em fornecer meios de concretizar fantasias sem corromper seu estatuto de fantasias. E isso acabou gerando identificações à padrões aos quais as pessoas aderem para sentirem-se pertencentes e usufrutuárias do que há de mais moderno e atual na sociedade. Fora disso não há felicidade !!!
Vamos começar por um desses tipos gerais, o homem descartável e procurar a fantasia que nele se realiza.
Há tempos atrás li no jornal uma notícia que me deixou meio preocupado. Sabe-se que essas sacolinhas plásticas que enchemos de compras nos mercados são um veneno para o meio ambiente. Mas isso não impede que saiamos de lá com dezenas delas. As autoridades muito preocupadas com esse fato pensaram em uma solução brilhante: sacolas biodegradáveis. Nada contra sacolas biodegradáveis, mas fiquei pensando: porque não desestimular o uso de sacolas, por exemplo, cobrando por elas, como se faz, por exemplo, na Europa? O resultado seria o esperado: todo mundo levaria sua própria sacola, daquelas grandes, de pano, de lona, que antigamente a gente levava para todo lugar onde fôssemos comprar algo. Sacolas de longo tempo de utilização, não descartáveis.
As sacolas não deveriam ser nossa única preocupação. Tem também aquelas bandejas que os mercados usam para acondicionar frios, pães, doces e mais uma infinidade de coisas. O que a gente levava embrulhado num pedaço de papel hoje vem com algo a mais, mais um problema para o meio ambiente. Está certo, isso economiza tempo e esforço, e ninguém quer se esforçar muito. Afinal esses problemas com o lixo ambiental são para o futuro, mas isso é para depois…
Mas a “descartabilidade” está vagarosamente invadindo mais espaços na vida de hoje. Quando íamos visitar um bebê recém nascido víamos aquele espetáculo de bandeiras brancas desfraldadas nos varais. Hoje vemos quartos entulhados com fraldas descartáveis. Quando íamos viajar, tirávamos 12, 24, 36 fotografias e só sabíamos o resultado muito tempo depois. A gostosa sensação de ver como as fotos tinham saído tinha que ser adiada até a revelação. Hoje, tiramos milhares de fotografias, vemos o resultado na hora, apagamos umas quantas e quando nos damos conta, esquecemos de sorver a paisagem retratada nas fotos. Sem dizer que elas acabam ficando esquecidas em algum lugar de nossas várias memórias digitais. Quando estávamos na escola e tínhamos que fazer um trabalho, a montoeira de livros nas prateleiras da biblioteca era o caminho. Chegar no livro que continha a informação desejada muitas vezes implicava percorrer uma pilha. Hoje, basta digitar o nome desejado no Google, imprimir e dar para o professor. Claro que a leitura do texto é descartável.
Isso começa a ficar perigoso. Nada de ter que levar sacolas, nada de espera em filas, nada de ficar colecionando garrafas vazias, nada de suar em cima do tanque, nada de ter que esperar fotos ficarem prontas, nada de ter que gastar horas em cima de livros procurando conhecimento.
O descartável faz isso: torna tudo mais fácil, mais prático, mais rápido, economiza tempo e esforço, proporciona satisfação imediata. E porque nós temos tanta pressa e queremos nos poupar tanto? Por que adiar a satisfação requer tolerância: esperar, adiar, suportar a frustração, suportar o sofrimento que ela implica, lidar com os limites que o mundo e os outros impõem, enfim, conseguir as coisas com o suor do corpo. Mas isso não condiz exatamente com o paraíso que desejamos que o mundo seja: tudo na mão, sem obstáculos para a satisfação, nenhuma preocupação com o amanhã, uma realidade sem limites, perfeitamente condizente com nossas fantasias. Antigamente as religiões prometiam essa vida paradisíaca do puro prazer para depois da morte. Parece que a sociedade atual, e mesmo as religiões que andam proliferando nela, pretendem prometê-la para já.
Essa fantasia do paraíso, o lastro do homem descartável, é tão forte pois todos imaginamos que já vivemos lá. Embora ela tenha sempre sido uma fantasia, julgamos que fomos expulsos desse paraíso e nada mais justo do que reivindicar que ele nos seja devolvido. É verdade que há uma certa época da vida que os pais tentam fazer um mundo assim existir para seus filhos. Abolem-se os limites em homenagem a sua majestade, o bebê. Hoje em dia parece que os pais tem procurado loucamente fazer existir esse mundo; para desespero dos educadores.
Isso deixa um sonho latente dentro dos pequenos novos homens descartáveis. Ter pais descartáveis. Esses não servem, pois não conseguem suspender os limites, bem, há outros na prateleira!
Como seria viver ou pensar “gêneros”, sem categorizar?